Previsão da Absolar indica queda de 20% nos aportes e menor expansão de capacidade; curtailment, juros altos e entraves de acesso à rede seguem como principais desafios
O mercado de energia solar fotovoltaica no Brasil deverá atravessar, em 2026, um novo ciclo de desaceleração, consolidando a tendência já observada no ano anterior. Após ter registrado em 2024 um crescimento histórico, a fonte caminha para um biênio marcado por pressões estruturais e operacionais que impactam tanto a geração distribuída (GD) quanto a geração centralizada (GC).
De acordo com estudo recém-divulgado pela Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), os investimentos previstos para 2026 somam R$ 31,8 bilhões, o equivalente a US$ 5,8 bilhões, uma retração de 20% frente a 2025 e de 42% na comparação com 2024. A queda reflete um conjunto de fatores que amplia a incerteza dos agentes e afeta a atratividade dos novos projetos.
Expansão menor: adições de capacidade caem para 10,6 GW em 2026
A Absolar estima que o país adicionará 10,6 GW de potência instalada no próximo ano, considerando tanto a GD quanto a GC. O volume representa uma queda de 7% em relação aos 11,4 GW previstos para 2025 e de 30% frente aos 15 GW instalados em 2024.
Com isso, a potência acumulada da fonte solar deve alcançar 76 GW ao fim de 2026. A GD segue como principal motor do crescimento, com 51,8 GW acumulados, enquanto a GC chegará a 24,1 GW.
Esse ritmo mais lento não impede que a solar continue sendo uma das fontes de maior participação na matriz elétrica, mas revela um setor pressionado por limitações estruturais, especialmente no acesso à rede e na gestão da variabilidade das renováveis.
Curtailment, excesso de energia e restrições de rede travam novos projetos
Entre os fatores mais críticos apontados pela Absolar está o avanço dos casos de curtailment, principalmente em regiões onde o excesso de energia renovável já supera a capacidade da rede de escoamento. A prática, que envolve a redução compulsória da produção dos geradores, tem provocado perdas financeiras crescentes.
Na geração distribuída, os problemas se intensificam pela dificuldade de obtenção de novos pareceres de acesso das distribuidoras, que justificam a restrição pela falta de infraestrutura e pelo risco de inversão de fluxo.
O diagnóstico da associação destaca ainda o impacto do custo de capital elevado, com juros próximos de 15% ao ano, e os efeitos da volatilidade cambial, que encarece equipamentos importados como módulos e inversores. A isso se somam as alíquotas elevadas do imposto de importação, que afetam diretamente o CAPEX dos projetos.
Eleições de 2026: Absolar prepara propostas para destravar o setor
Em meio ao cenário de retração, a Absolar planeja apresentar aos candidatos à Presidência da República, em 2026, uma série de propostas para mitigar perdas e recuperar a trajetória de expansão do setor.
As medidas incluem:
- Compensação financeira para o curtailment, considerada urgente pela entidade;
- Soluções para superar os entraves de conexão de novos sistemas de GD;
- Regulação adequada para sistemas de armazenamento de energia, que ainda carecem de arcabouço firme;
- Participação ativa nos debates sobre Recursos Energéticos Distribuídos (REDs);
- Aprimoramentos na operação do sistema elétrico e nas regras dos leilões de reserva de capacidade (LRCAP);
- Valoração correta dos custos e benefícios da GD;
- Defesa da solar na modernização tarifária;
- Acompanhamento da implantação infralegal da reforma do setor elétrico, prevista na Lei nº 15.269/2025, derivada da MP 1.304/25.
A entidade reforça também a urgência da expansão da infraestrutura de transmissão e distribuição, condição essencial para a continuidade da inserção competitiva da fonte solar na matriz nacional.
Transmissão se torna fator crítico para competitividade da solar
A necessidade de ampliação da malha de transmissão ganhou centralidade no debate setorial, especialmente diante da expansão acelerada das renováveis nos últimos cinco anos. A falta de capacidade de escoamento em diversas regiões, sobretudo no Nordeste e agora também em áreas específicas do Sudeste e Centro-Oeste, é vista como um vetor que limita investimentos, reduz margens e torna mais complexa a previsão de receita para novos projetos.
A solar, que opera de forma altamente modular e distribuída, acaba sendo uma das primeiras fontes a sentir os gargalos da rede. Para especialistas, soluções como armazenamento, redes inteligentes e leilões específicos para reforços estruturais devem ganhar espaço na agenda regulatória de 2026.
Perspectivas: desaceleração preocupa, mas setor mantém relevância estratégica
Apesar da retração projetada, a solar permanece como um dos pilares da transição energética brasileira. A continuidade de investimentos mesmo em cenário adverso, com previsão superior a R$ 30 bilhões, reforça a resiliência da tecnologia e a confiança dos agentes na demanda futura por energia limpa.
Os desafios, no entanto, são reais e exigem articulação institucional, planejamento de longo prazo e clareza regulatória. A agenda proposta pela Absolar será determinante para definir a velocidade da retomada após 2026 e para garantir competitividade ao país em um mercado global marcado por intensa competição tecnológica e industrial.



