Redata estabelece limite de 0,05 litro de água por kWh para resfriamento e exige atendimento integral da demanda elétrica por geração renovável ou de baixa emissão das empresas beneficiadas. EPE projeta consumo de 30 TWh pelo segmento em 2036.
A expansão dos data centers no Brasil, impulsionada pela computação em nuvem e pelo avanço da inteligência artificial (IA), amplia a pressão sobre o planejamento energético e a infraestrutura de abastecimento. Além da disponibilidade de eletricidade em grande escala, os projetos precisam equacionar o consumo de água, a eficiência dos sistemas de refrigeração e a origem da energia utilizada nas operações.
Nesse cenário, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), instituído pela Lei 15.504/2026, passou a vincular a concessão de incentivos fiscais a compromissos ambientais específicos. Entre as exigências estão o atendimento integral da demanda elétrica por contratos de suprimento ou autoprodução de fontes renováveis ou de baixa emissão e um Índice de Eficiência Hídrica (WUE) igual ou inferior a 0,05 litro por quilowatt-hora (kWh), com aferição anual.
A dimensão do desafio aparece nas projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O Caderno de Demanda de Energia do Plano Decenal de Expansão de Energia 2036, divulgado em 27 de outubro, estima que os data centers consumirão 30 terawatts-hora (TWh) de eletricidade em 2036. O avanço da carga exigirá coordenação entre expansão da geração, capacidade de transmissão e disponibilidade de conexão para novos empreendimentos.
Para Philipe Kilzer, CFO e diretor de Operações Estruturadas do Grupo Bolt, a avaliação dos impactos ambientais precisa considerar as características de cada instalação, e não apenas seu volume absoluto de consumo: “Existe uma tendência de tratar os data centers como vilões por causa da demanda por energia e água, mas essa discussão precisa ser mais aprofundada. O impacto de uma instalação depende da tecnologia utilizada, da localização, da eficiência operacional e, principalmente, de como sua demanda energética é planejada e contratada. O desafio é criar condições para que o Brasil receba esses investimentos de maneira sustentável, sem perder de vista a segurança do sistema elétrico e a competitividade da nossa economia.”
Redata vincula incentivos fiscais a critérios ambientais
A Lei 15.504/2026 instituiu o Redata para estimular investimentos em infraestrutura de processamento, armazenamento e gestão de dados no país. O regime prevê suspensão de tributos na aquisição de equipamentos de tecnologia da informação e comunicação, condicionada ao cumprimento de contrapartidas pelas empresas habilitadas.
Na área energética, a legislação exige que a totalidade da demanda de eletricidade seja atendida por contratos de suprimento ou autoprodução provenientes de fontes renováveis ou de baixa emissão, conforme regulamentação. A regra também estabelece a publicação de relatórios de sustentabilidade, com informações sobre o WUE e as fontes utilizadas no abastecimento das instalações.
A legislação prevê ainda que pelo menos 10% da capacidade efetiva de processamento, armazenamento e tratamento de dados instalada com os benefícios seja disponibilizada ao mercado interno. Também exige investimentos equivalentes a 2% do valor dos produtos adquiridos no mercado interno ou importados com os incentivos em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Para Kilzer, a adoção de indicadores permite avaliar o desempenho ambiental dos empreendimentos a partir de parâmetros mensuráveis: “A discussão ambiental precisa ser baseada em indicadores concretos. Não basta perguntar quanta água um data center consome sem avaliar a tecnologia de refrigeração, a possibilidade de reuso e as condições da região. O caminho é buscar eficiência, transparência e planejamento desde a concepção do projeto.”
Tecnologia de refrigeração influencia consumo de água
O WUE é um indicador utilizado para medir a eficiência hídrica de data centers, relacionando o volume de água consumido pela instalação à energia utilizada pelos equipamentos de tecnologia da informação. No Redata, o limite de 0,05 litro por kWh funciona como requisito para as empresas que buscam os benefícios do regime.
O resultado depende, entre outros fatores, da tecnologia de resfriamento adotada. Sistemas de circuito fechado permitem recircular o fluido utilizado, reduzindo a necessidade de reposição de água. Soluções de refrigeração a ar e tecnologias de resfriamento líquido diretamente nos componentes também podem diminuir a demanda hídrica, conforme as características do projeto.
A localização é outro fator determinante. Condições climáticas, disponibilidade de recursos hídricos e características da infraestrutura local precisam integrar os estudos de implantação, especialmente em regiões sujeitas a restrições de abastecimento.
Conexão à rede elétrica é um dos principais gargalos
Na avaliação do Grupo Bolt, a disponibilidade de energia representa um dos principais desafios para a expansão dos data centers brasileiros. As instalações dependem de fornecimento contínuo para manter servidores, sistemas de armazenamento e aplicações de inteligência artificial em operação.
O crescimento da densidade computacional aumenta a necessidade de potência e exige que a infraestrutura elétrica esteja disponível em prazos compatíveis com a implantação dos empreendimentos. Nesse processo, a capacidade de conexão à rede, os investimentos em transmissão e distribuição e as condições de contratação de energia passam a influenciar diretamente as decisões de localização e investimento.
A matriz elétrica brasileira, com elevada participação de fontes renováveis, constitui um diferencial para atrair empreendimentos que precisam atender a requisitos de descarbonização. Entretanto, a disponibilidade de energia contratada não elimina a necessidade de infraestrutura física para transportar e entregar a eletricidade até os centros de processamento.
Kilzer defende que a estratégia de suprimento seja incorporada desde as etapas iniciais de desenvolvimento dos projetos, considerando os prazos de conexão e a exposição aos preços do mercado: “O fornecimento de energia não pode ser tratado como uma etapa secundária de um projeto de data center. Ele precisa fazer parte da decisão de investimento desde o início. É necessário avaliar a disponibilidade de conexão, os prazos de expansão da rede, as condições de contratação e a exposição à volatilidade dos preços. Quanto mais cedo essas variáveis forem consideradas, maior a capacidade de reduzir riscos e dar previsibilidade à operação.”
Nesse contexto, comercializadoras de energia podem atuar na estruturação de contratos de suprimento, na avaliação de diferentes fontes de geração e na gestão da exposição aos preços. Essas soluções ajudam a estabelecer previsibilidade de custos, embora não substituam os investimentos necessários à expansão da infraestrutura elétrica.
Expansão também envolve soberania digital
Além dos requisitos de energia e água, a implantação de data centers movimenta fornecedores, serviços especializados e profissionais ligados à tecnologia e à infraestrutura. A expansão também tem implicações para a soberania digital, ao ampliar a capacidade nacional de armazenamento e processamento de dados e reduzir a dependência de estruturas localizadas no exterior.
O Redata incorpora essa dimensão ao exigir investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação no país, além de estabelecer uma parcela mínima dos serviços beneficiados destinada ao mercado interno.
Na avaliação do executivo do Grupo Bolt, o aproveitamento dessas oportunidades depende da capacidade de integrar os novos empreendimentos à infraestrutura e à cadeia produtiva nacional: “O Brasil tem a oportunidade de transformar a expansão dos data centers em um vetor de desenvolvimento econômico e tecnológico. Mas isso depende de infraestrutura adequada, formação de profissionais e capacidade de integrar esses investimentos à economia nacional. A discussão não deve ser apenas sobre o custo de receber esses empreendimentos, mas também sobre o valor que podemos gerar a partir deles.”



