BloombergNEF aponta recorde global de cortes na geração renovável no Brasil em 2025, retração dos investimentos em eólica e solar e desafios para conciliar eletrificação da frota e mercado de biocombustíveis.
A expansão da geração renovável e a eletrificação dos transportes devem ampliar as pressões sobre a política energética brasileira nos próximos anos. Análise da BloombergNEF (BNEF) aponta que gargalos de escoamento, aumento dos custos de flexibilidade do sistema e a disputa por espaço entre veículos elétricos e biocombustíveis estarão entre os principais desafios para a continuidade da transição energética em um eventual próximo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No setor elétrico, o avanço do curtailment já afeta a atratividade de novos projetos eólicos e solares. Na mobilidade, o crescimento dos modelos elétricos e híbridos plug-in pressiona a estrutura de consumo de combustíveis e coloca em discussão o equilíbrio entre a atração de montadoras e a preservação da cadeia sucroenergética.
Curtailment reduz geração e afeta investimentos em renováveis
O Brasil registrou a maior taxa de curtailment entre os mercados monitorados pela BNEF em 2025. O problema persistiu no primeiro semestre de 2026: os cortes atingiram 17% da geração eólica e 22% da solar centralizada, segundo a consultoria.
A limitação do despacho, associada principalmente ao excesso de oferta em determinados períodos e às restrições de escoamento, compromete a receita dos empreendimentos e aumenta a incerteza para novos investimentos. A BNEF também aponta a assimetria regulatória em relação à geração distribuída de pequena escala, que não está sujeita às mesmas restrições operacionais das usinas centralizadas, como um fator que contribui para o desequilíbrio.
O impacto já aparece nos aportes. Os investimentos em energia renovável somaram US$ 6,7 bilhões no primeiro semestre de 2026, o menor volume para o período desde 2020. Para o ano, a consultoria projeta a adição de 16 GW em capacidade renovável e armazenamento, abaixo dos 24,9 GW registrados em 2024.
Contratação de capacidade amplia pressão sobre tarifas
A necessidade de maior flexibilidade operacional tem levado o governo a recorrer à contratação de recursos capazes de atender às demandas do Sistema Interligado Nacional (SIN). Em março de 2026, o Leilão de Reserva de Capacidade contratou 19 GW. Outro mecanismo previsto é o leilão de reserva de capacidade voltado exclusivamente a sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS), agendado para dezembro.
Essas contratações buscam reforçar a segurança do suprimento diante da variabilidade da geração renovável e das limitações da infraestrutura. O desafio, porém, está no custo dessa capacidade adicional e em seus efeitos sobre as tarifas.
A ANEEL estima reajuste médio de 9,4% nas tarifas residenciais em 2026, acima da inflação projetada de 4,5%. O cenário evidencia a dificuldade de ampliar a segurança operacional do sistema sem aumentar a pressão sobre os consumidores.
Veículos elétricos avançam e desafiam cadeia de biocombustíveis
Na mobilidade, veículos elétricos e híbridos plug-in alcançaram 15% das vendas de automóveis de passageiros em setembro de 2026, conforme os dados apresentados pela BNEF. O crescimento é associado à política industrial Mover e à ampliação da oferta de modelos importados, especialmente da China.
A mudança também começa a alterar a dinâmica industrial. A recomposição gradual da alíquota do imposto de importação favorece a transferência de parte da produção para o Brasil, com montagem e fabricação local de veículos eletrificados.
Para o setor de biocombustíveis, a expansão dessa frota representa um desafio adicional. A maior participação de veículos elétricos pode reduzir o espaço do etanol hidratado no mercado de combustíveis leves, embora a dimensão desse efeito dependa da composição da frota e do ritmo de substituição dos veículos convencionais.
O governo terá de conciliar a atração de investimentos da indústria automotiva com a competitividade da cadeia sucroenergética, que reúne produção agrícola, usinas e fornecedores de equipamentos e serviços.
Flexibilidade do sistema e equilíbrio de mercado entram na agenda
A análise da BNEF aponta uma mudança no perfil dos desafios da transição energética brasileira. Além de ampliar a oferta de fontes renováveis, será necessário adequar a infraestrutura de transmissão, incorporar recursos de flexibilidade e estabelecer condições econômicas que preservem a atratividade dos investimentos.
A agenda também ultrapassa o setor elétrico. A expansão da mobilidade elétrica exige decisões sobre política industrial e tributária que terão reflexos sobre o mercado de combustíveis e a cadeia de biocombustíveis.


