Coalizão propõe ao CNRH padrão nacional para dados de recursos hídricos

Minuta prevê acesso público a outorgas, autuações e embargos ambientais; diferenças na divulgação de informações estaduais dificultam a avaliação de riscos hídricos

Uma coalizão de 16 organizações da sociedade civil apresentou ao Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) uma proposta de resolução para padronizar a divulgação de informações sobre o uso da água e a fiscalização hídrica no país. A minuta prevê acesso público, atualizado e interoperável a registros de outorgas, autos de infração, embargos e Termos de Ajustamento de Conduta (TACs).

A iniciativa busca reduzir diferenças entre os órgãos estaduais do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), que dificultam o acompanhamento de irregularidades e a análise de riscos socioambientais. Para o setor elétrico, a padronização pode contribuir para avaliar condições de uso da água em bacias hidrográficas e riscos associados a empreendimentos de geração hidrelétrica.

O documento ainda aguarda distribuição para análise das câmaras técnicas do CNRH. As medidas propostas, portanto, não estão em vigor.

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Dados de fiscalização têm menor transparência

Levantamento da Associação Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS), atualizado em agosto de 2026, identificou diferenças na divulgação de dados hídricos entre os órgãos estaduais. Segundo a entidade, há cadastros de outorgas desatualizados e limitações ainda maiores no acesso a registros de fiscalização.

De acordo com o estudo, apenas 15 estados publicam informações atualizadas sobre autos de infração e termos de embargo hídrico. A SIS aponta que Amapá, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Maranhão, Paraíba, Rio Grande do Norte, São Paulo e Tocantins não disponibilizam dados sobre autuações de forma acessível.

As informações estão dispersas entre Diários Oficiais, arquivos PDF e planilhas sem padronização, o que dificulta consultas e comparações em escala nacional. A ausência de formatos uniformes também limita o uso dos registros por empresas, instituições financeiras, pesquisadores e órgãos públicos.

Luciane Moessa, diretora-executiva e técnica da SIS, defende padrões mínimos nacionais para reduzir essas diferenças e ampliar o acesso às informações de fiscalização: “Hoje, a falta de padronização entre os Estados cria assimetrias que dificultam o controle social e a avaliação de riscos socioambientais. A adoção de padrões mínimos nacionais pode reduzir essas desigualdades, fortalecer o Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos (SNIRH) e ampliar a capacidade de órgãos públicos, empresas, instituições financeiras, pesquisadores e sociedade de acessar e utilizar informações essenciais para a gestão de riscos hídricos, que se destacam como os principais riscos climáticos que enfrentamos no Brasil e no mundo. Cerca de 80% das autuações por infrações ambientais e também os embargos ambientais são consequência da atuação de órgãos de fiscalização estaduais, e não da esfera federal (IBAMA e ICMBio), em consonância com o sistema de repartição de competências previsto na Constituição Federal e detalhado na Lei Complementar 140.”

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Minuta prevê consultas sem cadastro e integração de bases

A proposta estabelece mecanismos de busca on-line por nome, razão social, CPF, CNPJ ou número de processo administrativo. O acesso abrangeria o conteúdo integral das outorgas, os autos de infração, os históricos de inspeções técnicas e os extratos de TACs, sem exigência de cadastro, login ou senha para consultas individualizadas.

O texto também prevê a disponibilização das bases para download em formatos abertos, como CSV, além de interfaces de programação de aplicações (APIs) para integração entre sistemas. A medida pretende facilitar o cruzamento de informações e ampliar a utilização dos registros na análise de conformidade e de riscos relacionados ao uso da água.

Daniela Barros, engenheira ambiental e coordenadora de projetos do Instituto Internacional ARAYARA, associa a abertura dos dados à qualificação das decisões sobre os recursos hídricos: “Garantir que os dados sobre os recursos hídricos sejam públicos, acessíveis, padronizados e atualizados é fundamental para fortalecer o controle social e qualificar as decisões sobre os diferentes usos da água, recurso essencial à vida, economia e segurança dos territórios. A proposta busca avançar na transparência da gestão hídrica e permitir que a sociedade civil, empresas e instituições avaliem riscos hídricos, socioambientais e climáticos com base em informações oficiais.”

Transparência pode apoiar o planejamento energético

A disponibilidade de informações consistentes sobre outorgas e fiscalização é relevante para o planejamento de empreendimentos que dependem de recursos hídricos. No setor elétrico, esses dados podem auxiliar na identificação de restrições de uso da água e na avaliação de riscos para projetos hidrelétricos, especialmente em um cenário de mudanças climáticas.

Marcos Woortmann, consultor especialista em incidência e políticas públicas da Cáritas Alemanha, pelo Projeto Redes Pela Conservação, destaca a importância de integrar informações ambientais e hídricas ao planejamento territorial: “A necessidade de maior transparência e integração de dados ambientais e hídricos é fundamental para o planejamento do desenvolvimento de longo prazo de bacias, regiões e cidades de todo o país. A equação é simples: sem água, não há cidade, não há produção rural, nem energia. No cenário em que estamos de mudanças climáticas consolidadas e crescentes, tais medidas são urgentes e inadiáveis.”

A efetividade da proposta dependerá da atualização dos registros, da uniformidade dos critérios de divulgação e da capacidade de integração entre os sistemas estaduais. O texto ainda precisa passar pela análise das instâncias competentes do CNRH antes de eventual aprovação.

A coalizão reúne, entre outras organizações, SIS, Instituto Internacional ARAYARA, IPAM, Instituto Ethos, Greenpeace Brasil, Conectas Direitos Humanos, Observatório das Águas e SOS Mata Atlântica. A proposta também conta com apoio da Rede Cerrado, Rede Ecovida e ASA.

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