Associação aponta demanda de data centers por energia firme, expansão da medicina nuclear e previsibilidade regulatória como prioridades para atrair investimentos privados
A Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN) defende que a conclusão de Angra 3, o desenvolvimento de Pequenos Reatores Modulares (SMRs) e a ampliação da produção nacional de radioisótopos estejam entre as prioridades do próximo ciclo de governo. A entidade completa 39 anos nesta terça-feira (27) e aponta a necessidade de decisões de longo prazo para ampliar a participação da tecnologia nuclear nos setores elétrico e de saúde.
A agenda ganha relevância com o crescimento da demanda por eletricidade de data centers e aplicações de inteligência artificial, que exigem fornecimento contínuo, além da necessidade de reduzir a dependência externa de insumos usados na medicina nuclear. Para a associação, a expansão desses mercados depende de previsibilidade regulatória, modelos de financiamento adequados e maior participação de capital privado.
Angra 3 e SMRs na agenda nuclear
A conclusão de Angra 3 permanece entre os principais desafios do setor nuclear brasileiro. O empreendimento exige decisões sobre investimentos, modelo de financiamento e condições para dar continuidade às obras, cuja definição tem implicações para o planejamento energético de longo prazo.
Outra frente é o desenvolvimento dos Pequenos Reatores Modulares, conhecidos pela sigla em inglês SMRs. A tecnologia é apontada como alternativa para ampliar as possibilidades de aplicação da geração nuclear, mas sua adoção depende de avanços regulatórios, viabilidade econômica e definição de modelos de implantação.
A ABDAN também defende condições para ampliar a participação de empresas privadas na cadeia nuclear, que envolve engenharia, equipamentos, serviços especializados e atividades industriais.
Data centers ampliam interesse por geração nuclear
A expansão da inteligência artificial e dos centros de processamento de dados aumenta a atenção sobre fontes capazes de fornecer energia de forma contínua. Usinas nucleares operam com alto fator de capacidade e baixas emissões de gases de efeito estufa durante a geração, características que podem contribuir para atender cargas com demanda constante.
O avanço desse mercado, contudo, não elimina a necessidade de avaliar custos, prazos de implantação, conexão à rede e condições contratuais de fornecimento. A competitividade da fonte nuclear dependerá da capacidade de estruturar projetos que conciliem confiabilidade, financiamento e previsibilidade de operação.
Para o presidente da ABDAN, Celso Cunha, a continuidade das políticas públicas e a abertura a investimentos privados são condições centrais para aproveitar a oportunidade. À frente da entidade desde 2017, ele defende decisões que ultrapassem os ciclos políticos e favoreçam o desenvolvimento da indústria nacional.
“O setor nuclear trabalha com projetos de longo prazo, que exigem planejamento, previsibilidade e continuidade, independentemente dos ciclos políticos. Nossa expectativa para o próximo mandato é que o Brasil consiga avançar em decisões importantes, abrir mais espaço para a participação da iniciativa privada e aproveitar melhor sua capacidade tecnológica e industrial. Com o aumento da demanda por energia firme, especialmente dos data centers, a geração nuclear ganha ainda mais relevância. Temos uma oportunidade de transformar o potencial nuclear brasileiro em desenvolvimento econômico, inovação e segurança energética”, ressalta Cunha.
Medicina nuclear exige expansão da produção nacional
Além da geração elétrica, a associação destaca a necessidade de ampliar a capacidade brasileira de produzir radioisótopos utilizados em exames de diagnóstico e tratamentos, incluindo terapias contra o câncer.
A produção doméstica de radioisótopos é estratégica para reduzir a exposição a restrições de fornecimento internacional e ampliar a disponibilidade de insumos para o sistema de saúde. O avanço depende de investimentos em infraestrutura, capacidade tecnológica e condições regulatórias para a produção e distribuição desses materiais.
Fundada em 1987, a ABDAN atua na articulação entre empresas, instituições de pesquisa e poder público para desenvolver atividades nucleares no país. Ao completar 39 anos, a entidade coloca a continuidade dos projetos, a formação de um ambiente favorável ao investimento e o fortalecimento da cadeia industrial entre os temas que considera prioritários para o setor.


