Fenômeno tem 63% de chance de intensidade máxima; ONS prevê gargalos de escoamento no Sul e pressão sobre o ESS no Norte
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou oficialmente o estabelecimento do fenômeno El Niño, alterando o status global de monitoramento para El Niño Advisory. O anúncio chancela que o acoplamento entre o oceano e a atmosfera está plenamente consolidado no Pacífico Equatorial. Com modelos climáticos apontando probabilidade de permanência entre 97% e 99% até o início de 2027, o setor elétrico brasileiro iniciou a mobilização de seus comitês de monitoramento para avaliar os impactos estruturais no Sistema Interligado Nacional (SIN), mapeando tanto as restrições de garantia de suprimento quanto a volatilidade na curva do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD).
A configuração do fenômeno meteorológico redesenha o planejamento energético do país para os próximos dezoito meses. Historicamente, a fase quente do El Niño altera de forma drástica o regime de vazões das principais bacias hidrográficas do país. O cenário exige revisões profundas nas projeções de Energia Natural Afluente (ENA) e demanda uma gestão estratégica dos reservatórios equivalentes por parte do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
A acoplagem oceano-atmosfera e o gatilho para a escalada de intensidade
A transição para o alerta definitivo ocorreu após semanas de observação de um comportamento integrado na região equatorial. Até o mês de maio, o aquecimento das águas superficiais do Pacífico corria de forma isolada. O cenário mudou com a resposta da circulação atmosférica global: o fortalecimento de anomalias de vento e os índices negativos da Oscilação Sul ratificaram o início operacional do fenômeno.
As projeções de severidade indicam que o mercado de energia pode enfrentar um dos cenários hidrológicos mais desafiadores das últimas décadas. Os modelos apontam para um fortalecimento gradual ao longo do segundo semestre de 2026, com o pico do evento estimado para ocorrer entre a primavera e o verão do Hemisfério Sul.
Ao quantificar o potencial disruptivo do período, o boletim oficial da agência meteorológica americana detalha a probabilidade do repique térmico: “Após meses de monitoramento, a NOAA declarou oficialmente o início do El Niño. Evento já está em curso e tem 63% de chance de atingir intensidade muito forte durante o próximo verão do Hemisfério Sul.”
Caso esse percentual se concretize, o biênio 2026-2027 entrará para a história meteorológica ao lado dos episódios registrados em 1982-83, 1997-98 e 2015-16, períodos marcados por forte estresse hidroenergético e severas restrições operacionais no parque gerador nacional.
O dilema das bacias: superávit no Sul e restrição no Norte e Nordeste
Para a engenharia de operação do SIN, o comportamento assimétrico do El Niño representa um desafio duplo. Na Região Sul, o fenômeno costuma elevar as afluências significativamente acima da Média de Longo Termo (MLT) durante a primavera. Se por um lado isso garante reservatórios cheios nas bacias dos rios Uruguai e Iguaçu, por outro eleva o risco de vertimentos severos e impõe restrições operacionais por cheias. O fenômeno também intensifica a necessidade de cortes na geração eólica e solar local (curtailment) devido a gargalos estruturais na transmissão de energia, limitando a capacidade de exportação da região Sul para o resto do país.
O cenário oposto, e que concentra as maiores preocupações regulatórias, desenha-se para os subsistemas Norte e Nordeste. O indicativo de redução persistente nas precipitações deve pressionar os estoques reguladores de grandes usinas hidrelétricas da bacia do São Francisco e do rio Tocantins.
A diminuição acentuada da ENA nessas regiões tende a acelerar o esvaziamento das cabeceiras de usinas estruturantes, como Belo Monte e Tucuruí. O movimento forçará o remanejamento do fluxo energético do país pelas linhas de interligação e aumentará a dependência do acionamento de usinas termelétricas inflexíveis, pressionando os custos do Encargo de Serviços do Sistema (ESS) pagos pelos consumidores.
Janela crítica de impacto e formação de preços no mercado livre
O cronograma de influência direta na América do Sul aponta que a transição de mercado deve se intensificar a partir do terceiro trimestre de 2026. O período de maior pressão sobre a matriz elétrica, de ponta a ponta, ocorrerá entre outubro e março, coincidindo com a safra de calor e o período úmido do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, principal caixa d’água do país.
A nota técnica dos meteorologistas alerta, contudo, que a magnitude aferida nos termômetros do Pacífico não se traduz linearmente em desabastecimento ou picos automáticos de preços. A dinâmica de formação de preços no mercado livre continuará dependendo de um balanço complexo de variáveis.
O comportamento térmico do Oceano Atlântico e frentes frias de menor escala territorial podem atuar como amortecedores ou amplificadores dos efeitos previstos. Esse cenário exigirá revisões semanais dos modelos de formação de preço e de atendimento à carga por parte da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), obrigando as mesas de trading das comercializadoras a adotarem estratégias de hedge mais sofisticadas para o próximo biênio.



