Novas demandas globais por combustíveis de baixo carbono ampliam o horizonte da cadeia sucroenergética; biometano ganha protagonismo na descarbonização das operações e fortalece competitividade do setor
A indústria sucroenergética brasileira está diante de uma transformação que pode redefinir seu papel na transição energética global. Depois de décadas sustentada principalmente pela demanda do setor automotivo nacional, a cadeia do etanol começa a enxergar novas frentes de crescimento em segmentos considerados estratégicos para a descarbonização da economia mundial, como aviação, transporte marítimo, logística pesada e indústria de baixa emissão.
A combinação entre expansão dos mercados internacionais, fortalecimento de políticas de combustíveis renováveis e avanços tecnológicos na produção de biocombustíveis cria um cenário em que a produção brasileira pode mais que dobrar até 2040. A projeção está baseada em estudo elaborado pela consultoria LCA e foi debatida pelo presidente da Copersucar, Tomás Manzano, durante participação no podcast Conexão MBCBrasil – A Mobilidade em Pauta.
O movimento ocorre em um momento em que governos e empresas buscam alternativas economicamente viáveis para reduzir emissões em setores onde a eletrificação enfrenta desafios técnicos ou elevados custos de implementação.
Etanol amplia papel na segurança energética global
O crescimento esperado para a cadeia sucroenergética não está relacionado apenas ao aumento do consumo doméstico. A principal oportunidade está na internacionalização do modelo brasileiro de produção de biocombustíveis.
Países emergentes com grandes populações e elevada dependência de combustíveis fósseis têm ampliado programas de mistura obrigatória de etanol na gasolina como estratégia para reduzir emissões, fortalecer a segurança energética e diminuir a exposição à volatilidade dos mercados internacionais de petróleo.
Índia e Argentina estão entre os exemplos mais relevantes desse movimento. Ambos vêm acelerando políticas públicas voltadas à ampliação do uso do etanol e ao desenvolvimento de tecnologias compatíveis com combustíveis renováveis.
Ao analisar a trajetória construída pelo setor brasileiro, o presidente da Copersucar destacou os fatores que tornam o país uma referência internacional em combustíveis de baixo carbono: “Nós conseguimos desenvolver uma solução economicamente viável, em escala e com baixo carbono. Isso cria oportunidades para levar o etanol para outros mercados que podem adotar a mistura na gasolina, ampliando a segurança energética.”
A avaliação reforça uma característica frequentemente apontada por especialistas internacionais: a capacidade brasileira de combinar produtividade agrícola, eficiência industrial e disponibilidade de terras aptas para expansão sustentável da produção.
Navegação surge como novo mercado bilionário para o etanol
Se a expansão da mistura na gasolina representa uma oportunidade relevante, o transporte marítimo pode se transformar no principal vetor de crescimento da demanda nas próximas décadas. Responsável por aproximadamente 3% das emissões globais de gases de efeito estufa, a navegação internacional vive uma corrida tecnológica para substituir combustíveis altamente poluentes utilizados atualmente pelas embarcações.
A pressão regulatória da Organização Marítima Internacional (IMO) vem acelerando investimentos em combustíveis alternativos capazes de reduzir a intensidade de carbono das operações sem comprometer a competitividade do setor. Nesse cenário, o etanol passou a integrar o grupo de combustíveis avaliados por armadores globais como alternativa de transição para a descarbonização da frota mundial.
As projeções apresentadas durante o debate indicam que a adoção parcial do etanol pelo transporte marítimo internacional poderia gerar um mercado consumidor equivalente ao volume atualmente produzido por todo o setor sucroenergético brasileiro.
Ao abordar o potencial dessa nova fronteira energética, Tomás Manzano destacou a competitividade do biocombustível brasileiro: “A navegação responde por cerca de 3% das emissões globais e precisa de alternativas viáveis. O etanol hoje aparece como uma das soluções mais competitivas em custo-benefício e intensidade de carbono.”
O avanço desse mercado poderá criar uma nova dinâmica para o setor, ampliando as exportações e reduzindo a dependência histórica da demanda doméstica por combustíveis leves.
Biometano fortalece competitividade das usinas
Paralelamente ao crescimento da demanda pelo etanol, o setor sucroenergético também busca reduzir as emissões associadas ao próprio processo produtivo. Nesse contexto, o biometano emerge como uma das tecnologias mais promissoras para elevar a competitividade ambiental da cadeia.
Produzido a partir de resíduos como vinhaça e torta de filtro, o combustível renovável pode substituir tanto o gás natural utilizado em processos industriais quanto o diesel empregado em máquinas agrícolas e operações logísticas. Além de reduzir emissões, o biometano oferece ganhos econômicos ao transformar resíduos antes considerados passivos operacionais em fontes de receita e eficiência energética.
Ao explicar a relevância desse processo para o futuro das usinas, Manzano destacou o potencial de integração entre produção de energia e redução de custos operacionais: “O biometano descarboniza economizando. Você substitui um combustível fóssil por um combustível de fonte renovável, produzido dentro da própria usina.”
A estratégia ganha força diante das estimativas da Associação Brasileira do Biogás (Abiogás), que apontam potencial para produção de até 120 milhões de metros cúbicos por dia no país, volume comparável ao atual consumo nacional de diesel ou gás natural.
Logística renovável deixa de ser conceito e vira realidade
A evolução do biometano já começa a produzir resultados concretos no setor de transportes. Um dos exemplos mais emblemáticos é a BioRota, considerada atualmente a maior operação logística movida a biometano do Brasil.
A iniciativa opera com mais de 70 caminhões abastecidos pelo combustível renovável e acumulou, em dois anos de atividade, a substituição de aproximadamente 5 milhões de litros de diesel fóssil.
O projeto também evitou a emissão de mais de 8 mil toneladas de dióxido de carbono, demonstrando que a transição energética pode ser implementada em larga escala sem comprometer a competitividade econômica das operações.
Brasil amplia protagonismo na transição energética
O avanço simultâneo do etanol, do biometano e dos combustíveis sustentáveis para aviação e navegação reforça o posicionamento do Brasil como um dos poucos países capazes de oferecer soluções escaláveis para os desafios globais de descarbonização.
Enquanto diversas economias enfrentam dificuldades para conciliar segurança energética, competitividade industrial e metas climáticas, o modelo brasileiro apresenta vantagens estruturais baseadas em recursos naturais abundantes, conhecimento tecnológico acumulado e uma cadeia produtiva consolidada.
Ao sintetizar o diferencial competitivo construído pelo país ao longo das últimas décadas, o presidente do Instituto MBCBrasil, José Eduardo Luzzi, destacou a capacidade brasileira de desenvolver soluções compatíveis com a realidade de mercados emergentes: “O grande diferencial do Brasil é ter desenvolvido uma solução acessível, escalável e adequada à realidade socioeconômica de países em desenvolvimento.”
A materialização desse potencial dependerá da expansão da infraestrutura logística, da abertura de novos mercados internacionais e da estabilidade regulatória para estimular investimentos. Caso essas condições avancem em paralelo, o etanol brasileiro poderá deixar definitivamente de ser apenas um combustível automotivo para se consolidar como um dos principais vetores da transição energética global.


