Brasil e Rosatom estreitam cooperação em pesquisa nuclear avançada com foco no reator MBIR

Encontro em Moscou reúne especialistas de 35 organizações para discutir fronteiras da ciência de materiais e combustíveis; agenda converge com o cronograma do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB).

O cenário global de tecnologia nuclear para fins pacíficos atravessa uma fase de renovação técnica, impulsionada pela necessidade de novas infraestruturas de pesquisa para sistemas de quarta geração e medicina avançada. No centro dessa movimentação, a Rosatom reuniu, em 6 de maio, mais de 80 especialistas de 35 organizações internacionais, incluindo representação brasileira, para debater as capacidades do reator MBIR, atualmente em construção em Dimitrovgrad, na Rússia.

O MBIR, um reator de pesquisa multipropósito de nêutrons rápidos refrigerado a sódio, possui potência térmica projetada de 150 MW. A instalação é vista como um ativo crítico para o desenvolvimento de pequenos reatores modulares (SMRs) e fusão termonuclear controlada. A agenda russa possui sinergia direta com os interesses brasileiros, que avançam na implantação do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), projeto sob coordenação da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e pilar da autonomia nacional em radioisótopos.

Autonomia em radioisótopos e o cronograma do RMB

Para o setor elétrico e de saúde no Brasil, a infraestrutura de pesquisa nuclear é sinônimo de soberania. O RMB foi concebido para suprir a demanda interna por insumos essenciais à medicina nuclear, reduzindo a dependência externa para o diagnóstico e tratamento de câncer.

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De acordo com o cronograma atualizado da CNEN, as obras de infraestrutura do RMB, iniciadas em fevereiro de 2025, devem ter esta etapa concluída no primeiro semestre de 2026. A fase de construção civil tem previsão de entrega para 2030. O empreendimento será capaz de produzir radioisótopos de reatores de pesquisa necessários ao Brasil, com impacto esperado sobre a medicina nuclear e o atendimento à população.

Pesquisa de materiais e aceleração tecnológica

A discussão em torno do MBIR foca na capacidade de acelerar experimentos complexos. Instituições da China e do Vietnã já apresentaram demandas para testes em física de reatores e ciência dos materiais. A proposta central do consórcio internacional baseado no MBIR é oferecer acesso a fluxos de nêutrons de alta densidade para validar componentes que suportem condições extremas.

Ao tratar da exclusividade dessas instalações para o avanço energético, o presidente do Conselho Consultivo do IRC MBIR e vice-presidente da Academia Russa de Ciências, Stepan Kalmykov, destaca o desafio técnico envolvido: “Instalações científicas únicas, capazes de responder aos desafios energéticos do futuro, são prioridade para programas nacionais de pesquisa. Poucos países conseguem conduzir experimentos desse nível, e ainda menos conseguem construir essas instalações.”

A cooperação internacional permite que países como o Brasil realizem testes de materiais e combustíveis avançados antes mesmo da conclusão de suas próprias infraestruturas, garantindo a formação de especialistas e a troca de conhecimento técnico.

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O diretor científico do Instituto Bochvar, Vladimir Novikov, reforça que o uso do MBIR otimiza o ciclo de desenvolvimento de novos materiais: “O MBIR poderá reduzir de forma significativa o tempo e os recursos necessários para estudar propriedades de revestimentos, componentes de núcleo e materiais estruturais. Os dados obtidos se aplicam a uma ampla gama de tecnologias modernas, de reatores de alta temperatura refrigerados a gás e pequenos reatores modulares à fusão termonuclear.”

Integração de infraestruturas globais

Um dos pontos altos do encontro em Moscou foi a proposta de integrar as capacidades do MBIR com o reator PIK, de alto fluxo, localizado em Gatchina. Essa combinação de espectros de nêutrons permitirá uma sinergia inédita para solucionar desafios científicos fundamentais e aplicados.

Para o mercado brasileiro, integrar-se a esses consórcios internacionais é uma estratégia de “fast-track” para a maturidade do RMB. Enquanto o projeto nacional avança em suas etapas de engenharia civil em Iperó (SP), o intercâmbio com a tecnologia da Rosatom fortalece as capacidades de teste e validação que serão fundamentais para a operação dos sistemas brasileiros na próxima década.

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