Decisão apertada extingue modelo de “diretor de referência”, reduz transparência em sessões administrativas e expõe divisão interna sobre equilíbrio de poder na agência
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou, nesta sexta-feira (24), uma reformulação profunda em seu regimento interno, alterando de forma significativa a estrutura de governança da autarquia. A decisão, tomada por maioria estreita de três votos a dois, concentra competências administrativas no diretor-geral e extingue o modelo de “diretor de referência”, até então utilizado para distribuir responsabilidades temáticas entre os membros da diretoria colegiada.
A mudança ocorre em um momento sensível para o setor de óleo, gás e biocombustíveis, marcado por volatilidade internacional, pressão sobre preços e aumento das atribuições regulatórias. O novo desenho institucional levanta questionamentos sobre equilíbrio de poder, transparência e previsibilidade regulatória, elementos considerados críticos para a confiança dos agentes de mercado.
Centralização administrativa e fortalecimento do diretor-geral
Relatada pelo diretor-geral Artur Watt, a proposta aprovada redefine o papel da liderança da agência, conferindo ao comando central prerrogativas mais amplas. Entre as atribuições consolidadas estão a designação de cargos comissionados, autorização de viagens e a exclusividade na definição de pautas para futuras alterações regimentais.
Ao defender a reformulação e rebater críticas sobre concentração de poder, o diretor-geral destacou que o modelo preserva o caráter colegiado da instituição:
“A lei atribui muitos poderes ao colegiado, mas atribui também alguns poderes ao diretor-geral. Ele é minoria e não conseguirá aprovar sozinho nenhum tipo de mudança relevante, mesmo de cunho administrativo. O que estamos estabelecendo é um modelo de freio e contrapesos e algumas competências outorgadas pela lei das agências reguladoras.”
Na prática, a ANP abandona um modelo mais distribuído de governança para adotar uma estrutura com maior centralidade decisória, o que pode impactar a dinâmica interna de deliberação e a velocidade de execução administrativa.
Fim da transmissão de sessões administrativas gera debate sobre transparência
Outro ponto sensível da reforma envolve a alteração no rito das decisões internas. Com o novo regimento, as sessões administrativas deixarão de ser transmitidas ao público, restringindo o acesso às discussões relacionadas à organização interna da agência.
Embora não envolvam diretamente decisões regulatórias finais, essas sessões tratam de temas estruturais que influenciam o funcionamento da ANP e, indiretamente, o ambiente regulatório do setor.
A medida introduz um grau maior de sigilo em decisões administrativas, o que, para parte do mercado, pode afetar a percepção de transparência e governança, pilares historicamente associados às agências reguladoras independentes.
Divisão no colegiado expõe tensão sobre governança e colegialidade
A aprovação do novo regimento evidenciou um racha interno na diretoria da ANP. Os diretores Pietro Mendes e Symone Araújo votaram contra a proposta, levantando preocupações sobre o impacto institucional das mudanças.
Ao analisar o contexto da decisão, o diretor Pietro Mendes destacou a inadequação do momento e os riscos à estrutura colegiada: “O momento não é oportuno para promover mudanças no regimento da ANP porque a agência tem recebido atribuições novas em decorrência das medidas do governo para amenizar os impactos da guerra no Oriente Médio no setor de combustíveis. A extinção do diretor de referência e a proposta de concentrar medidas administrativas no diretor-geral fragiliza o princípio da colegialidade e pode enfraquecer a governança interna, limitando a atuação dos demais diretores.”
A divergência expõe um debate estrutural sobre o modelo ideal de governança para agências reguladoras, especialmente em momentos de elevada complexidade regulatória e pressão externa.
Risco operacional e ausência de transição preocupam mercado
Outro ponto de atenção levantado pelos votos contrários diz respeito à implementação imediata das novas regras, sem um período de transição claramente definido. A ausência de um cronograma pode gerar ruídos operacionais internos justamente em um momento em que a agência enfrenta desafios relevantes ligados ao abastecimento e à estabilidade de preços de combustíveis.
A diretora Symone Araújo também reforçou a preocupação com o timing da mudança, apontando que o foco institucional deveria estar concentrado nas atribuições finalísticas da agência diante do cenário internacional adverso.
Impactos regulatórios e percepção de risco
Para o mercado de energia e óleo e gás, a reforma do regimento da ANP vai além de uma reorganização administrativa. Trata-se de um movimento com potencial de influenciar diretamente a percepção de risco regulatório no Brasil.
A centralização de poder pode, por um lado, trazer ganhos de eficiência e agilidade decisória. Por outro, levanta questionamentos sobre a redução do debate técnico plural e a diminuição da transparência em processos internos.
Em um ambiente onde previsibilidade e estabilidade institucional são determinantes para investimentos de longo prazo, especialmente em segmentos como exploração, refino e comercialização de combustíveis, mudanças na governança de órgãos reguladores tendem a ser acompanhadas de perto por agentes nacionais e internacionais.



