Por Pedro Al Shara, CEO TS Shara indústria nacional fabricante de nobreaks, inversores e estabilizadores de tensão e protetores de rede inteligente
Painéis solares reluzindo nos telhados, carros elétricos nas ruas e metas de neutralidade de carbono estampadas em relatórios corporativos se tornaram símbolos instantâneos de sustentabilidade. Mas existe uma pergunta que ainda fazemos pouco: de que adianta produzir energia limpa se uma parte significativa dela continua sendo desperdiçada, mal distribuída ou consumida de forma ineficiente? A próxima fase da transição energética não será vencida apenas pela origem da energia. Ela será definida pela inteligência com que essa energia é gerenciada.
Nos últimos anos, o debate ambiental ganhou velocidade. Empresas passaram a monitorar emissões, governos ampliaram compromissos climáticos e consumidores passaram a valorizar escolhas mais sustentáveis. Ao mesmo tempo, consolidou-se uma percepção simplificada de que energia renovável e sustentabilidade são conceitos equivalentes. Não são.
A boa notícia é que a expansão das fontes renováveis avança em ritmo acelerado. Dados da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA) mostram que a capacidade global instalada de geração renovável alcançou 5.149 GW em 2025, representando quase metade de toda a capacidade elétrica do planeta. A energia solar, sozinha, adicionou mais de 500 GW em apenas um ano. O crescimento é impressionante. Mas ele revela apenas parte da história.
A outra parte está no consumo. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda global por eletricidade cresceu cerca de 3% em 2025, mais do que o dobro do crescimento da demanda energética total, que avançou 1,3% no mesmo período. O mundo está se tornando cada vez mais dependente da eletricidade para sustentar digitalização, inteligência artificial, mobilidade elétrica, refrigeração, automação industrial e conectividade permanente.
A própria IEA projeta que o consumo mundial de eletricidade crescerá, em média, 3,6% ao ano até 2030, adicionando cerca de 1.100 TWh de demanda anualmente — volume equivalente ao consumo elétrico anual de países inteiros. Nesse contexto, eficiência energética deixa de ser um tema operacional para se tornar uma questão estratégica.
Existe uma camada da sustentabilidade que permanece pouco visível ao público, mas que será decisiva nos próximos anos: a qualidade da energia consumida. Oscilações elétricas, interrupções, perdas energéticas e infraestrutura inadequada possuem impacto ambiental direto. Equipamentos operando fora de suas condições ideais consomem mais energia, apresentam menor desempenho e têm sua vida útil reduzida. O resultado é um ciclo acelerado de descarte de equipamentos eletrônicos, aumento da demanda por matérias-primas e ampliação da pegada ambiental das organizações.
A Organização das Nações Unidas alerta que o lixo eletrônico já é o fluxo de resíduos que mais cresce no mundo. Em 2022, foram geradas 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos globalmente. Até 2030, esse volume deverá alcançar 82 milhões de toneladas, enquanto a capacidade de reciclagem cresce em ritmo muito inferior.
Sob essa perspectiva, sustentabilidade também significa prolongar a vida útil dos ativos, reduzir falhas, evitar substituições prematuras e extrair o máximo de eficiência da infraestrutura existente.
Existe uma ironia moderna nesse cenário. Nunca tivemos tanta tecnologia disponível para monitorar, proteger e otimizar sistemas elétricos. Ao mesmo tempo, muitas organizações continuam investindo prioritariamente na geração renovável sem dedicar a mesma atenção à estabilidade, ao gerenciamento energético e à resiliência operacional.
Criam-se, assim, operações aparentemente verdes, mas estruturalmente ineficientes. A sustentabilidade da próxima década exigirá uma visão mais ampla. Ela envolverá sistemas de monitoramento em tempo real, armazenamento inteligente de energia, proteção elétrica avançada, edifícios mais eficientes, infraestrutura digital resiliente e gestão baseada em dados.
Isso se torna ainda mais relevante diante da explosão da inteligência artificial. Dados da IEA mostram que os data centers já estão entre os segmentos que mais pressionam a demanda elétrica global, com crescimento anual próximo de 17%. Em diversos países, eles já representam parcela significativa da expansão do consumo energético.
Não existe transformação digital sustentável sustentada por energia instável. É preciso refletir sobre emissões, preservação e fontes renováveis. Todos esses temas seguem fundamentais. Mas talvez seja hora de ampliarmos o conceito de sustentabilidade.
Porque o futuro não será definido apenas pela capacidade de produzir energia limpa. Será definido pela capacidade de utilizá-la com inteligência. E, nesse novo cenário, o desperdício pode se tornar tão problemático quanto as próprias emissões que tentamos reduzir.



