Inovação leva ao monopólio. E é lá que a riqueza é criada

Por Gustavo Ayala, CEO do Grupo Bolt 

Quando era criança, eu queria ser inventor. Acreditava que o mundo pertencia a quem criava coisas novas, a quem abria caminhos onde antes só havia mato. Levei anos para entender que estava quase certo, mas não completamente. O mundo não pertence ao inventor. Pertence ao inovador. A diferença é enorme. Inventar é criar algo novo. Inovar é levar esse algo até as pessoas, até o ponto em que muda de verdade a maneira como elas vivem, consomem, decidem. Uma invenção pode morrer na gaveta. A inovação, por definição, não. Ideias sozinhas não criam valor. A execução, sim. 

Essa distinção importa porque estamos num momento em que o Brasil precisa decidir que tipo de empresas vai construir. O mercado livre de energia está prestes a se abrir para quase seis milhões de CNPJs, entre pequenos comércios e indústrias de baixa tensão. Entre o final de 2027 e 2028, a abertura se completa para todos os consumidores, incluindo pessoa física. Serão 94 milhões de unidades consumidoras com liberdade de escolher de quem compram eletricidade. É a maior transformação do setor elétrico brasileiro em décadas. E a pergunta que todo empresário deveria estar se fazendo não é “como vou competir nesse novo mercado”, mas “como vou fazer para não ter que competir”. 

Pode soar arrogante. Não é. É o que a história mostra. Praticamente todas as grandes fortunas foram construídas a partir de alguma forma de monopólio. Não o monopólio do cartel ou da reserva de mercado, que no Brasil a gente conhece de sobra. O monopólio que nasce quando alguém inova de tal forma que, por um tempo, simplesmente não existe concorrência. Não porque ela foi impedida, mas porque ainda não teve tempo de surgir.

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Rockefeller não ficou rico porque petróleo era valioso. Se fosse só isso, qualquer produtor teria chegado lá. Ficou porque montou um sistema de refino e logística que ninguém conseguiu replicar durante décadas. Carnegie fez o mesmo com o aço. Ford, com a linha de montagem. Em todos os casos, o recurso estava acessível a muita gente. O sistema que transformava esse recurso em valor era de um só. No século 21, a lógica é a mesma, mas a natureza do monopólio mudou. A Nvidia não domina chips por acaso. Jensen Huang apostou em computação paralela quando o resto da indústria olhava para outro lado. Quando a inteligência artificial explodiu, ele já estava lá, sozinho, com a arquitetura pronta.

O Brasil tem exemplos próprios, embora raramente os enxergue por essa lente. A WEG nasceu num galpão em Jaraguá do Sul e hoje é a maior fabricante de motores elétricos do mundo. Não chegou lá disputando centavos com concorrente chinês. Chegou porque construiu, ao longo de seis décadas, uma cultura de engenharia e reinvestimento que virou barreira natural. A Embraer fez algo parecido com jatos regionais. Nenhuma dessas empresas eliminou a concorrência. Mas as duas criaram espaços onde competir ficou tão complexo que poucos conseguem acompanhar.

A cadeia é simples: inovação gera uma posição única. Posição única, bem executada, se transforma em monopólio legítimo. E monopólio legítimo é onde riqueza real se acumula. William Nordhaus, economista de Yale e Nobel de 2018, estimou que inovadores capturam apenas cerca de 2% do valor total que suas criações geram para a sociedade. O restante transborda para clientes, fornecedores, trabalhadores, comunidades inteiras. A inovação não elimina concorrentes. Ela redefine o jogo e cria uma espécie de reserva de mercado ao redor de quem inovou. É o mecanismo mais eficiente de criação de prosperidade que existe.

Essa deveria ser a discussão sobre o setor de energia brasileiro. A abertura do mercado vai colocar 94 milhões de consumidores diante da possibilidade de escolher seu fornecedor, e a reação instintiva da maioria das empresas vai ser disputar cada um deles no braço, com desconto e margem apertada. Mais do mesmo, só que em escala maior. É o que eu chamo de jeito analógico de ser. E não é um problema só da energia. Varejo, saúde, tecnologia. O Brasil tem um vício em competir por preço quando deveria estar competindo por arquitetura.

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Quem estudou outras aberturas de mercado sabe que preço nunca foi o fator decisivo. Quando o Brasil abriu as telecomunicações, quando abriu o sistema bancário para as fintechs, o que definiu quem ficou de pé não foi quem cobrava menos. Foi quem construiu confiança. Confiança na marca, na experiência, na capacidade de entregar gestão, previsibilidade, eficiência e conveniência. Confiança é a inovação mais difícil de copiar porque não se compra, não se instala e não se escala por decreto. Se constrói com tempo, consistência e obsessão pelo cliente. Quando uma empresa conquista isso num mercado recém-aberto, ela não precisa mais brigar por preço. Ela vira a escolha óbvia. Isso é monopólio legítimo funcionando na prática.

O menino que queria ser inventor ainda acredita que criar importa. A convicção que carrego é a mesma de quando era criança, só que refinada pelo tempo. A invenção abre portas. Mas é a inovação que constrói a casa do outro lado. E quem constrói essa casa primeiro, com mais cuidado e mais verdade que todos os outros, não precisa mais disputar terreno com ninguém.

Isso tem nome. Chama-se monopólio. E é lá que a riqueza é criada.

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