Executivos e economistas apontam matriz limpa como vantagem estratégica, mas alertam para entraves no custo de capital e na segurança regulatória
O rearranjo geopolítico global e as tensões no Oriente Médio estão redesenhando o fluxo de energia no mundo e reposicionando o Brasil como um potencial polo de atração de investimentos em descarbonização. Esse foi o pano de fundo do debate realizado durante o Fórum Brasileiro de Líderes em Energia, no Rio de Janeiro, que reuniu executivos, analistas e economistas para discutir os caminhos do país na nova dinâmica energética global.
O encontro destacou um paradoxo central: enquanto o Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, o elevado custo de capital e a instabilidade regulatória ainda limitam a captura plena dessa vantagem competitiva.
Crise energética global redefine prioridades
A abertura do debate trouxe um diagnóstico contundente sobre o cenário internacional. O presidente da PSR, Luiz Augusto Barroso, ressaltou a gravidade da atual crise energética, estabelecendo paralelos com eventos históricos que marcaram o setor. “Hoje, os cortes efetivos de oferta de energia superam os das crises do petróleo de 1973 e 1979 e até os impactos iniciais da invasão da Ucrânia em 2022”.
O executivo destacou ainda o impacto estratégico de gargalos logísticos globais, como o Estreito de Ormuz, que concentra uma parcela significativa do trânsito mundial de gás natural liquefeito (GNL), ampliando os riscos de oferta e volatilidade de preços.
Gestão de risco ganha centralidade no setor
Diante desse cenário, empresas com atuação no Brasil têm reforçado suas estratégias de resiliência. O CEO da Axia Energia, Ivan Monteiro, trouxe uma visão pragmática sobre a necessidade de adaptação organizacional em tempos de incerteza: “Aprendi que instituições vencedoras tinham em comum uma cultura de gestão de risco muito sofisticada e diversidade geográfica. Levei isso para o setor de energia. Não dá para depender de uma única fonte. Diversificar financiamento, fornecedores e monitoramento operacional é uma questão de sobrevivência”..
A fala reflete uma mudança estrutural no setor energético global, no qual a diversificação, tanto de fontes quanto de financiamento, passa a ser elemento central de competitividade.
Matriz elétrica brasileira como ativo estratégico
Enquanto diversas economias enfrentam pressões relacionadas ao custo e à disponibilidade de combustíveis fósseis, o Brasil desponta com uma vantagem estrutural: sua matriz elétrica majoritariamente renovável.
O CEO da Engie Brasil, Eduardo Sattamini, destacou o papel da eletricidade como vetor central da transição energética e da segurança energética nacional: “O combustível do futuro é a eletricidade. Transformar elétrons em mobilidade, seja urbana ou de carga, é uma resposta estrutural para reduzir vulnerabilidades geopolíticas. A expansão sem planejamento gera problemas de ponta e exige investimentos urgentes em armazenamento e sinalização adequada de preços.”
A avaliação reforça o potencial do Brasil em liderar processos de eletrificação da economia, especialmente em setores como transporte e indústria, reduzindo a dependência de combustíveis importados.
Custo de capital segue como principal entrave
Apesar das vantagens estruturais, o ambiente macroeconômico permanece como um dos principais desafios para o avanço do setor. O economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, apontou que o cenário global de aversão ao risco tem pressionado os custos de financiamento.
Ao analisar o impacto das taxas de juros sobre o investimento em infraestrutura energética, o economista afirmou: “O país é mais resiliente do que no passado, mas o aumento do custo de capital global gera um estresse financeiro pronunciado, especialmente para empresas. Os juros reais no Brasil são excessivamente elevados. Trabalhamos com a ideia de que a taxa neutra deveria girar em torno de 5% reais, e hoje estamos perto de 11%. Há espaço, sim, para continuar cortando juros com cautela.”
O diagnóstico evidencia um descompasso entre o potencial de expansão do setor elétrico e as condições financeiras necessárias para viabilizar projetos de grande escala, como transmissão, armazenamento e novas usinas renováveis.
Segurança jurídica e previsibilidade no centro do debate
O encerramento do fórum convergiu para um ponto sensível: a necessidade de fortalecer o ambiente institucional. A previsibilidade regulatória e a segurança jurídica foram apontadas como condições indispensáveis para atrair investimentos de longo prazo, especialmente em um cenário de competição global por capital.
Retomando o debate sob uma perspectiva estratégica, Ivan Monteiro sintetizou o desafio brasileiro com uma analogia direta: “Se o Brasil quer jogar na Champions League, precisa avançar na segurança jurídica, na previsibilidade regulatória e na disciplina fiscal.”
A mensagem reflete uma preocupação recorrente no setor: o excesso de intervenções e subsídios pode distorcer sinais econômicos e comprometer a eficiência alocativa dos investimentos.
Oportunidade histórica em meio à transição energética
O conjunto das discussões aponta para uma conclusão clara: o Brasil reúne condições únicas para assumir protagonismo na transição energética global. A combinação de recursos naturais abundantes, matriz limpa e capacidade técnica posiciona o país de forma privilegiada.
No entanto, transformar esse potencial em liderança efetiva depende de avanços estruturais. A redução do custo de capital, o fortalecimento do marco regulatório e a melhoria do ambiente de negócios são fatores decisivos para que o país converta sua vantagem comparativa em competitividade real.
Em um mundo marcado por conflitos e incertezas, a energia elétrica, limpa, segura e competitiva, surge como um dos principais ativos estratégicos brasileiros.



