Executivos alertam para descompasso entre oferta e consumo, defendem digitalização e cobram avanços em transmissão e licenciamento ambiental
O crescimento acelerado da demanda por energia no Brasil, impulsionado pela expansão de data centers, novas indústrias e pela própria transição energética, está redesenhando os desafios do setor elétrico. Embora o país disponha de uma matriz majoritariamente renovável e com oferta robusta, executivos apontam que o principal obstáculo deixou de ser a geração, e passou a ser a capacidade de entregar energia com eficiência, no lugar e no momento certos.
O diagnóstico foi consolidado durante debate no Fórum Brasileiro de Líderes em Energia, realizado no Rio de Janeiro, dentro da Latam Energy Week. A convergência entre os participantes indica que o sistema elétrico brasileiro enfrenta um novo ciclo, marcado por pressões simultâneas sobre infraestrutura, regulação e tecnologia.
Gargalo migra da geração para a rede
O CEO da ISA Energia, Rui Chammas, apontou uma mudança estrutural no setor: a abundância de energia não se traduz automaticamente em capacidade de atendimento. Ao analisar o cenário atual, o executivo afirmou: “Hoje a energia está disponível, o problema é que ela não está sendo utilizável. O desafio está no escoamento, na conexão e na flexibilidade da rede”.
Chammas também chamou atenção para o desalinhamento geográfico entre oferta e demanda, especialmente entre o Nordeste, com forte expansão de fontes renováveis, e o Sudeste, principal centro de consumo do país. Nesse contexto, ele destacou: “Cargas novas deveriam ser incentivadas a se instalar onde a energia está”.
A fala reforça um debate crescente sobre sinal locacional e eficiência econômica na expansão do sistema elétrico brasileiro.
Corrida por acesso expõe riscos de ineficiência
A pressão sobre a infraestrutura também se intensificou com o aumento expressivo de pedidos de acesso à rede. A vice-presidente da Neoenergia, Solange Ribeiro, alertou para o risco de decisões desalinhadas com a realidade dos projetos.
Ao abordar o tema, a executiva ressaltou: “Houve uma corrida por acesso que nem sempre correspondia a projetos reais. Se reagirmos investindo para todos esses pedidos, quem vai pagar é o consumidor”.
A declaração evidencia a necessidade de mecanismos regulatórios mais robustos para filtrar demandas e garantir que os investimentos em transmissão e distribuição sejam realizados de forma eficiente e sustentável.
Tempo de resposta do setor entra em xeque
Outro ponto crítico levantado no debate foi o descompasso entre a velocidade da demanda e o tempo necessário para expansão da infraestrutura elétrica. Projetos como linhas de transmissão, essenciais para o escoamento de energia, possuem ciclos de implantação que podem levar anos.
A própria Solange Ribeiro avaliou esse desafio estrutural: “A demanda aparece muito rápido, mas uma linha de transmissão leva anos para ficar pronta”. Esse desalinhamento pressiona o planejamento do setor e exige maior coordenação entre agentes, reguladores e formuladores de políticas públicas.
Digitalização deixa de ser tendência e vira necessidade
Diante de um sistema cada vez mais complexo, a modernização das redes surge como consenso entre os executivos. A transição de uma rede passiva para um modelo inteligente, digitalizado e automatizado passa a ser condição essencial para garantir confiabilidade e eficiência operacional.
Ao abordar essa transformação, a executiva da Neoenergia afirmou: “Estamos saindo de uma rede passiva para uma rede inteligente. Sem digitalização, não vamos conseguir operar um sistema mais complexo, bidirecional e com múltiplas fontes”.
O avanço de tecnologias como inteligência artificial, sensores e automação também foi destacado como elemento central para a operação do sistema. Complementando essa visão, Rui Chammas reforçou o papel da inovação: “Hoje fazemos muito mais manobras no sistema do que no passado. A inteligência artificial virou essencial para dar segurança aos operadores e aumentar a confiabilidade”.
Licenciamento ambiental trava expansão da transmissão
O licenciamento ambiental foi apontado como um dos principais entraves à expansão da infraestrutura elétrica, especialmente no segmento de transmissão. Projetos já estruturados e financiados enfrentam atrasos significativos, comprometendo a capacidade de resposta do sistema.
A executiva da Neoenergia destacou: “Tem projeto pronto, com financiamento, parado no licenciamento. Isso representa investimento que não vira crescimento”.
O tema reforça a necessidade de aprimoramento dos processos de licenciamento, com maior previsibilidade e integração entre órgãos ambientais e agentes do setor.
Armazenamento ganha protagonismo estratégico
No contexto de maior complexidade operacional, o armazenamento de energia surge como solução estratégica para aumentar a flexibilidade do sistema. Tecnologias como baterias podem reduzir a necessidade de investimentos em novas linhas e melhorar a confiabilidade do fornecimento. O CEO da ISA Energia sintetizou o papel dessa tecnologia: “Um canivete suíço do setor elétrico”.
A analogia reflete a versatilidade das baterias, que podem atuar em múltiplas frentes, desde o equilíbrio de carga até a integração de fontes intermitentes, desde que haja avanço regulatório para definir seu modelo de remuneração.
Oportunidade existe, mas execução será decisiva
O debate foi encerrado com uma visão convergente entre os participantes: o Brasil reúne condições únicas para se destacar no cenário energético global, com matriz limpa, sistema interligado e instituições consolidadas. Ao sintetizar esse potencial, Rui Chammas afirmou: “Temos energia confiável, sistema interligado e instituições sólidas”.
O desafio, agora, está na execução. Alinhar planejamento, regulação, expansão da infraestrutura e inovação tecnológica será determinante para transformar essa vantagem competitiva em crescimento econômico sustentável e atração de novos investimentos.



