Especialista aponta desalinhamento entre expansão renovável, infraestrutura e estratégia econômica como entrave para crescimento sustentável
O Brasil consolidou nos últimos anos uma posição de destaque global ao estruturar uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, impulsionada pela expansão das fontes renováveis, especialmente eólica e solar. No entanto, esse avanço não tem sido plenamente convertido em desenvolvimento econômico nas regiões produtoras de energia, revelando um descompasso entre geração, infraestrutura e estratégia industrial.
A avaliação é do especialista em energia e mudanças climáticas Eric Fernando Boeck Daza, que chama atenção para a necessidade de o país evoluir de uma lógica centrada na oferta de energia para um modelo integrado de desenvolvimento territorial.
Expansão renovável não se traduz em desenvolvimento local
O crescimento acelerado da geração renovável, com destaque para o Nordeste brasileiro, ampliou significativamente a capacidade instalada do país. No entanto, esse avanço não foi acompanhado na mesma velocidade pela infraestrutura de transmissão e por políticas voltadas à internalização dos benefícios econômicos.
Ao analisar esse cenário, Eric Fernando Boeck Daza afirma: “O Brasil já conseguiu avançar na geração de energia limpa em escala. O problema agora é que ainda não estruturou o sistema para transformar essa energia em desenvolvimento econômico nas regiões onde ela é produzida”.
Na prática, grande parte da energia gerada em regiões como o semiárido nordestino é escoada para centros de carga mais desenvolvidos, enquanto os territórios produtores permanecem com baixos indicadores socioeconômicos e limitada diversificação produtiva.
Desconexão entre produção e ganhos econômicos
Esse desequilíbrio evidencia uma lacuna estrutural no modelo energético brasileiro. Apesar do protagonismo na transição energética, o país ainda não conseguiu alinhar a expansão da geração com políticas industriais e de desenvolvimento regional.
Ao aprofundar essa análise, Eric Fernando Boeck Daza explica: “A energia é produzida em uma ponta, mas os principais ganhos econômicos e industriais ficam em outra. Isso mostra que ainda tratamos a energia renovável como política de oferta, e não como estratégia de desenvolvimento territorial”.
Esse diagnóstico reforça um ponto crítico para o setor elétrico: a necessidade de integração entre planejamento energético, logística de transmissão e políticas públicas voltadas à atração de investimentos produtivos.
Powershoring surge como alternativa estratégica
Diante desse cenário, ganha força no debate energético o conceito de powershoring, que propõe a instalação de atividades industriais intensivas em energia próximas aos polos de geração renovável.
Para Eric Fernando Boeck Daza, essa abordagem representa uma mudança de paradigma no planejamento energético brasileiro: “Em vez de pensar apenas em como levar a energia para os grandes centros, é fundamental discutir como levar a indústria para perto das fontes de energia. Isso pode gerar emprego qualificado, renda e dinamizar economias locais”.
Entre os setores com maior potencial para essa estratégia estão a produção de hidrogênio verde, fertilizantes, processamento mineral, siderurgia de baixo carbono e data centers, segmentos que demandam grande volume de energia e podem se beneficiar da proximidade com fontes renováveis abundantes.
Falta de coordenação entre energia e desenvolvimento regional
Outro desafio apontado está na articulação entre o planejamento do setor elétrico e as políticas de desenvolvimento regional. Embora o Brasil disponha de dados robustos sobre expansão da oferta e projeções de demanda, ainda há lacunas na coordenação dessas informações com estratégias econômicas territoriais.
Nesse contexto, Eric Fernando Boeck Daza destaca: “O Brasil já tem informação suficiente para tomar decisões estratégicas. O que falta é conectar a expansão do setor elétrico com compromissos claros de desenvolvimento nos territórios que sustentam essa geração”.
A ausência dessa integração limita o potencial da transição energética como vetor de transformação econômica mais ampla, restringindo seus impactos positivos a ganhos ambientais e expansão da oferta.
Transição energética exige nova lógica de desenvolvimento
O Brasil se encontra em um momento decisivo para redefinir o papel da energia na economia. Com abundância de recursos renováveis e crescente protagonismo no cenário internacional, o país tem a oportunidade de alinhar sustentabilidade ambiental com desenvolvimento econômico e redução de desigualdades regionais.
Encerrando sua análise, Eric Fernando Boeck Daza afirma: “A transição energética não pode se limitar à produção de energia limpa. Ela precisa gerar desenvolvimento, reduzir desigualdades regionais e criar novas oportunidades econômicas. Essa é a decisão que está colocada agora para o Brasil”.
Energia limpa como vetor estratégico para o Brasil
A discussão sobre energia limpa no Brasil avança para além da expansão da capacidade instalada. O foco passa a incluir como transformar esse ativo em vantagem competitiva, promovendo industrialização, geração de empregos e fortalecimento das economias locais.
Nesse cenário, o alinhamento entre geração renovável, infraestrutura de transmissão e políticas industriais será determinante para que o país converta seu potencial energético em desenvolvimento sustentável de longo prazo.



