ANP descarta risco de desabastecimento e aciona medidas emergenciais diante de choque global

Em meio à volatilidade internacional, agência reforça monitoramento do mercado e amplia instrumentos para garantir oferta de diesel e GLP no Brasil

Mesmo diante de um cenário internacional marcado por forte volatilidade e tensões geopolíticas, o Brasil não enfrenta risco de desabastecimento de combustíveis no curto prazo. A avaliação foi apresentada por Pietro Mendes, diretor da ANP, durante participação no Latam Energy Week, realizado no Rio de Janeiro.

O posicionamento ocorre em um momento de escalada nos preços internacionais do petróleo, impulsionada por conflitos no Oriente Médio, que alteraram rapidamente o equilíbrio entre oferta e demanda no mercado global de energia.

Choque de preços e impacto no mercado internacional

Antes do agravamento das tensões geopolíticas, o mercado internacional já operava sob uma lógica de relativa sobreoferta. No entanto, a intensificação dos conflitos provocou uma inflexão abrupta, resultando em uma alta histórica no preço do barril, com valorização próxima de 60% e picos ao redor de US$ 120.

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Esse movimento gerou revisões nas projeções globais e elevou o nível de incerteza para agentes do setor energético, com reflexos diretos sobre economias dependentes de importação de derivados.

Dependência estrutural em derivados ainda é desafio

Embora seja um relevante produtor e exportador de petróleo, o Brasil ainda enfrenta limitações estruturais na cadeia de refino, especialmente na produção de derivados como diesel e gás liquefeito de petróleo (GLP).

Dados apresentados durante o evento indicam que cerca de 20% do GLP consumido no país é importado, o que expõe o mercado doméstico às oscilações internacionais de preços e câmbio.

Por outro lado, projetos em andamento, como investimentos em terminais portuários e expansão de infraestrutura no Complexo de Suape, Porto do Pecém e no Complexo de Boaventura, devem ampliar a capacidade logística e reduzir a dependência externa no médio prazo.

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Monitoramento contínuo e resposta coordenada

Para mitigar riscos e garantir o equilíbrio entre oferta e demanda, o Ministério de Minas e Energia mantém uma mesa permanente de monitoramento do abastecimento, com participação da ANP e da EPE. O acompanhamento é realizado de forma diária, com atenção especial ao diesel S10, produto crítico para a logística nacional e ainda dependente de importações.

Ao abordar o cenário atual, Pietro Mendes destacou a recorrência de eventos que desafiam o abastecimento no país. “O que estamos passando hoje são situações que passamos periodicamente. Seja por seca na região Norte, enchente no Rio Grande do Sul ou por questões logísticas. São mudanças que nós, brasileiros, estamos acostumados a passar”, observou.

Pressão inflacionária e efeito do câmbio

O aumento dos preços internacionais do petróleo tem impacto direto sobre a inflação doméstica, sobretudo em função da forte dependência do diesel no transporte de cargas e passageiros.

A valorização do dólar, combinada à necessidade de importação de derivados, eleva o chamado Preço de Paridade de Importação (PPI), pressionando os preços internos dos combustíveis e ampliando o custo logístico da economia.

Medidas emergenciais reforçam segurança do abastecimento

Diante desse cenário, a ANP implementou um conjunto de instrumentos emergenciais para garantir a segurança do abastecimento. Entre as medidas estão a exigência de estoques mínimos, a criação de painéis de monitoramento logístico e a ativação do sistema de sobreaviso.

Essas ferramentas já foram utilizadas em episódios anteriores de estresse no sistema, como a greve dos caminhoneiros, eventos climáticos extremos e a crise energética decorrente do conflito entre Rússia e Ucrânia.

Subsídios e política pública ampliam proteção ao consumidor

O governo federal também adotou medidas de caráter econômico para mitigar os impactos dos preços internacionais. As Medidas Provisórias 1340/2026 e 1349/2026 instituíram um regime emergencial de abastecimento, com ampliação de subsídios ao diesel e criação de apoio específico ao GLP.

No caso do diesel, a subvenção pode alcançar até R$ 1,12 por litro para o produto nacional e R$ 1,52 para o importado. Já para o GLP, o subsídio equivale a aproximadamente R$ 10 por botijão de 13 quilos, reforçando o caráter social do combustível dentro de políticas públicas voltadas à população de baixa renda.

A ANP ficará responsável pela definição dos preços de referência e pela fiscalização da aplicação das medidas, incluindo o combate à retenção de estoques e a práticas abusivas de precificação.

Coordenação institucional afasta risco de desabastecimento

Ao encerrar sua participação no evento, Pietro Mendes reforçou a atuação coordenada entre agentes públicos e privados como fator determinante para a estabilidade do sistema.

“Não há motivo para pânico”, afirmou, destacando a integração entre distribuidoras, importadores, refinarias, produtores de biocombustíveis e órgãos governamentais para assegurar o fornecimento de combustíveis no país.

A sinalização da agência reforça a resiliência do mercado brasileiro diante de choques externos, ainda que evidencie desafios estruturais relacionados à dependência de derivados e à exposição à volatilidade internacional.

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