Estudo alerta: Expansão térmica pós-LRCAP expõe ausência de estocagem de gás no país

Avanço da geração a gás após o LRCAP pressiona sistema sem infraestrutura de estocagem e mecanismos de flexibilidade, aponta estudo da Mirow & Co.

O avanço da geração termelétrica a gás natural no Brasil, impulsionado pelo Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) realizado em março, começa a expor um desafio estrutural relevante para o setor energético: a baixa flexibilidade do mercado de gás natural. Apesar do crescimento da oferta da molécula, a ausência de infraestrutura de estocagem e instrumentos eficientes de balanceamento já impacta diretamente os custos e a previsibilidade do sistema.

Levantamento da Mirow & Co., consultoria de estratégia com atuação global, indica que esse desalinhamento pode custar entre US$ 10,5 e US$ 12,4 por MMBtu, um nível elevado quando comparado a mercados internacionais mais maduros, comprometendo a competitividade do país.

Falta de flexibilidade substitui o antigo risco de escassez

A análise da consultoria aponta uma mudança importante no diagnóstico do setor: o problema brasileiro deixou de ser a escassez de gás e passou a ser a incapacidade de resposta às variações de demanda.

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Ao detalhar esse cenário, Raoni Morais, especialista da Mirow, destaca que o país enfrenta um novo tipo de limitação operacional: “O país não enfrenta mais um problema de escassez de gás, mas sim de flexibilidade. Sem estocagem e instrumentos de curto prazo, o sistema não consegue absorver choques de oferta e demanda de forma eficiente”.

Esse cenário se torna ainda mais crítico diante da crescente participação das fontes renováveis intermitentes, que exigem maior capacidade de resposta rápida das usinas térmicas e, consequentemente, maior previsibilidade no fornecimento de gás.

LRCAP reforça papel do gás, mas eleva pressão sobre infraestrutura

O Leilão de Reserva de Capacidade contratou cerca de 19 GW de potência, majoritariamente proveniente de usinas termelétricas a gás natural. O movimento consolida o combustível como peça-chave para a segurança energética do país, especialmente em momentos de baixa hidrologia.

No entanto, diferentemente de outras fontes, as térmicas a gás dependem de disponibilidade contínua e imediata de combustível. Essa característica expõe a limitação de uma infraestrutura ainda incipiente, incapaz de garantir o nível de flexibilidade exigido pelo novo desenho da matriz elétrica.

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Brasil segue sem estocagem relevante de gás natural

Um dos principais gargalos apontados pelo estudo é a ausência de capacidade significativa de estocagem subterrânea no Brasil, uma condição que coloca o país em desvantagem frente a mercados como Estados Unidos e Europa.

Nessas regiões, a estocagem desempenha papel central na estabilização do sistema, permitindo suavizar oscilações de oferta e demanda, reduzir volatilidade de preços e aumentar a segurança energética. No Brasil, essa ausência se traduz diretamente em custos mais elevados e menor eficiência operacional.

O spread estimado pela Mirow, entre US$ 10,5 e US$ 12,4/MMBtu, reflete justamente esse custo adicional associado à falta de mecanismos de flexibilidade.

Mudança no perfil da oferta agrava o descompasso

Outro fator que intensifica o problema é a transformação da matriz de oferta de gás no país. O crescimento da produção tem sido puxado pelo gás associado ao petróleo, sobretudo oriundo do pré-sal, uma fonte menos flexível em termos de ajuste à demanda.

Ao mesmo tempo, fontes historicamente mais adaptáveis, como o gás importado da Bolívia, vêm perdendo relevância comercial, reduzindo ainda mais a capacidade de resposta do sistema.

Ao analisar esse desequilíbrio, Raoni Morais reforça o risco de agravamento do cenário: “O Brasil está entrando em uma fase em que conta com mais gás disponível, mas sem a infraestrutura necessária para transformá-lo em preço competitivo e previsibilidade. Esse descompasso tende a se tornar mais evidente com o aumento do despacho térmico”.

GNL não substitui papel sistêmico da estocagem

Embora o gás natural liquefeito (GNL) tenha ganhado relevância no Brasil, especialmente no atendimento às térmicas, sua atuação ainda é limitada do ponto de vista sistêmico.

Diferentemente da estocagem subterrânea, o GNL no país não exerce plenamente a função de equilíbrio estrutural do mercado, atuando mais como solução pontual do que como instrumento de gestão de longo prazo.

Caminho passa por estocagem, hub de gás e maior liquidez

O estudo da Mirow aponta que a evolução do mercado brasileiro de gás dependerá da criação de condições para viabilizar infraestrutura de estocagem, além do desenvolvimento de mecanismos de balanceamento e de um hub físico que aumente a liquidez e integração entre agentes.

Especialistas da consultoria destacam que o avanço da oferta, embora relevante, não é suficiente para garantir competitividade sustentável.

Ao projetar os próximos anos, a especialistas da Mirow concluiram: “A ampliação da oferta é significativa, mas não suficiente. A competitividade sustentável do mercado de gás depende da capacidade de equilibrar o sistema ao longo do tempo, e isso exige infraestrutura e instrumentos que o Brasil ainda não possui”.

Janela de oportunidade entre 2028 e 2029

A consultoria avalia que o período entre 2028 e 2029 pode representar uma janela estratégica para estruturar o mercado de gás no Brasil. A expectativa é de aumento da produção no pré-sal e maior disponibilidade de infraestrutura, criando condições para arbitragem e desenvolvimento de soluções de flexibilidade.

Até lá, o desafio será evitar que o crescimento da geração térmica, essencial para a segurança do sistema elétrico, se traduza em aumento de custos e perda de competitividade para o país.

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