Em audiência na CME, Júlio César Rezende alerta para insustentabilidade do repasse de custos ao consumidor e propõe foco no ajuste da curva de carga para absorver excedente renovável
O setor elétrico brasileiro enfrenta um impasse crescente entre a abundância de geração renovável e a capacidade do sistema em absorver essa oferta. Em audiência realizada nesta terça-feira (24) na Comissão de Minas e Energia (CME), o assessor da diretoria-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Júlio César Rezende, defendeu que o combate ao curtailment, o corte da geração por restrições de rede ou falta de demanda, exige soluções estruturais, e não apenas medidas paliativas de compensação financeira.
Para o especialista, o fenômeno da ociosidade da geração é um sintoma direto da ausência de carga em momentos de pico de produção solar e eólica. A solução passaria, necessariamente, por um ajuste fino na curva de carga e por uma revisão profunda na forma como o Brasil lida com o armazenamento de energia, transformando o excedente hoje desperdiçado em um ativo gerenciável.
O Limite do Repasse aos Consumidores
Um dos pontos mais sensíveis do debate é quem deve arcar com os custos da energia que deixa de ser gerada. Atualmente, o modelo de transferência de receitas para compensar geradores impactados por restrições operacionais exerce pressão sobre as tarifas. Rezende destaca que o modelo atual de rateio de custos está próximo do seu limite de suporte social e econômico.
Ao analisar o impacto financeiro dessa dinâmica no mercado, o assessor da diretoria-geral da ANEEL, Júlio César Rezende, enfatizou a urgência de uma mudança de rota para proteger a base de consumidores: “Se continuarmos numa solução que insiste em jogar o custo para o consumidor residencial, não vai ter uma solução que se consiga suportar a longo prazo.”
Novo Paradigma: Armazenamento e Flexibilidade
A defesa por uma solução estrutural aponta para a necessidade de incentivos ao armazenamento, seja por meio de baterias, hidrogênio verde ou reversíveis, e à resposta da demanda. O objetivo é deslocar o consumo para os períodos de maior oferta, reduzindo a necessidade de cortes e otimizando o uso das linhas de transmissão já saturadas.
A fala na CME ocorre em um momento em que o Ministério de Minas e Energia (MME) e o Operador Nacional do Sistema (ONS) discutem novas regras para a segurança eletroenergética. A sinalização da ANEEL reforça que o foco regulatório deve se deslocar da simples compensação financeira para a criação de um sistema mais flexível e resiliente, capaz de integrar a expansão renovável sem comprometer a modicidade tarifária.



