Impacto do carvão em Candiota: Estudo inédito associa atividade a 430 mortes e bilionário custo em saúde

Levantamento do CREA e Instituto Arayara projeta que a continuidade do polo carbonífero até 2040 pode resultar em mais de 800 óbitos prematuros e gastos de R$ 6,6 bilhões.

O debate sobre a manutenção do carvão mineral na matriz elétrica brasileira ganha um novo e alarmante capítulo técnico. Um estudo inédito, conduzido pelo Centro de Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo (CREA) em parceria com o Instituto Internacional Arayara, revela que a mineração e a queima do combustível em Candiota (RS) foram responsáveis por 430 óbitos entre 2017 e 2025. O número equivale a 4% da população local, evidenciando as externalidades negativas de um dos principais polos termoelétricos do país.

A pesquisa, que será detalhada à imprensa no próximo dia 25 de março em Porto Alegre, vai além dos índices de mortalidade. Os dados apontam para 180 partos prematuros e um aumento severo em patologias respiratórias, como asma infantil, decorrentes da exposição contínua a poluentes. O impacto transcende as fronteiras gaúchas, com plumas de poluição atingindo territórios na Argentina, Uruguai e Paraguai, configurando um desafio de saúde pública transfronteiriço.

O gargalo socioeconômico e o custo da permanência

Candiota é hoje o epicentro da indústria carbonífera nacional, abrigando as usinas Candiota III e Pampa Sul, que juntas somam aproximadamente 700 MW de capacidade instalada. Embora o setor gere empregos e movimente a economia regional, o estudo projeta um cenário sombrio caso a descontinuação da atividade não seja antecipada. Se o polo operar até 2040, a estimativa é de que ocorram 871 mortes prematuras adicionais, gerando um custo econômico de R$ 6,6 bilhões associado à saúde, valores que os pesquisadores classificam como evitáveis.

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Juliano Bueno de Araújo, diretor técnico do Instituto Internacional Arayara, defende uma mudança estrutural na forma como o país planeja o futuro de suas usinas fósseis: “O Brasil precisa avançar em uma verdadeira Política de Transição Energética Justa e Sustentável, com inclusão dos trabalhadores, recuperação dos passivos e planejamento para o descomissionamento das usinas, e não seguir subsidiando empreendimentos fósseis até 2040 ou 2050.”

Transição Justa: O desafio regulatório e ambiental

A crítica de Araújo aponta para o atual modelo de subsídios do Governo Federal, que mantém a sobrevida do carvão mineral em nome da segurança energética e do desenvolvimento regional. No entanto, o levantamento do CREA reforça que a extração, o manuseio e o transporte do minério, somados à queima nas caldeiras, criam um passivo ambiental e sanitário que dificulta o cumprimento de metas internacionais de descarbonização. O Rio Grande do Sul detém 53% da produção nacional de carvão, o que coloca o estado no centro do dilema entre a tradição industrial e a necessidade de uma matriz limpa.

O evento de lançamento do estudo contará com uma mesa de debates no Auditório do ILEA/UFRGS, reunindo especialistas como John Wurdig, gerente do Observatório do Carvão Mineral, para discutir a viabilidade de um plano de descomissionamento que considere tanto os indicadores de saúde quanto a proteção social dos trabalhadores do setor.

SERVIÇO:

Data: 25 de março de 2026
Horário: 10h às 12h
Local: Auditório do ILEA/UFRGS – Campus do Vale (Av. Bento Gonçalves, 9500 – Agronomia, Porto Alegre/RS)
Transmissão: Link

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