Após hiato de seis anos, holding de Rubens Ometto volta a avaliar abertura de capital da subsidiária de gás e energia; operação dependerá das condições de mercado e das aprovações societárias
A Cosan (CSAN3) confirmou ao mercado que voltou a estudar a abertura de capital da Compass Gás e Energia, sua controlada dedicada à infraestrutura e comercialização de gás natural. O movimento recoloca em pauta uma das operações mais aguardadas do mercado de capitais brasileiro e pode redefinir o ritmo de investimentos no setor de gás e energia.
A iniciativa marca a retomada de um projeto interrompido em 2020, quando a volatilidade macroeconômica e as incertezas fiscais levaram à suspensão da oferta pública inicial de ações (IPO). Agora, em um cenário de reprecificação de ativos de infraestrutura e reorganização financeira da holding, a Cosan volta a testar o apetite dos investidores.
Desalavancagem e destravamento de valor
A possível listagem da Compass está inserida na estratégia de desalavancagem e destravamento de valor da Cosan, liderada pelo empresário Rubens Ometto. Ao separar e listar sua vertical de gás e energia, a companhia busca dar visibilidade própria a um portfólio considerado estratégico e com geração recorrente de caixa.
A Compass reúne ativos relevantes no mercado brasileiro, como a Comgás, maior distribuidora de gás canalizado do país, e o TRSP (Terminal de Regaseificação de São Paulo), infraestrutura considerada essencial para a segurança energética do estado de São Paulo e para a ampliação do mercado livre de gás natural.
Em fato relevante, a administração da Cosan reforçou que o avanço da operação dependerá do ambiente de mercado e do cumprimento de etapas formais: “A eventual oferta está condicionada, entre outros fatores, às condições dos mercados nacional e internacional, além da obtenção das aprovações societárias necessárias. Até o momento, não há decisão definitiva sobre a realização da operação.”
A declaração sinaliza cautela e disciplina financeira, atributos que o grupo tem enfatizado diante da volatilidade global e do custo de capital ainda elevado.
O histórico de 2020: da expectativa bilionária à suspensão
A primeira tentativa de IPO da Compass ocorreu em setembro de 2020, em meio à instabilidade provocada pela pandemia da Covid-19. À época, a expectativa era de uma captação próxima de R$ 4,4 bilhões, recursos que seriam direcionados à expansão da malha de distribuição de gás e a novos projetos de infraestrutura.
Na data prevista para a precificação, 28 de setembro de 2020, a Cosan optou por suspender a operação. A companhia justificou a decisão ao apontar que as condições adversas não refletiam o valor intrínseco dos ativos.
O episódio tornou-se emblemático do fechamento da janela de IPOs naquele ciclo e reforçou a percepção de que operações de grande porte em infraestrutura dependem de estabilidade macroeconômica e confiança dos investidores institucionais.
Portfólio mais maduro e diversificação no mercado de gás
Diferentemente de 2020, a Compass chega a 2026 com portfólio mais diversificado e maturidade operacional ampliada. A empresa expandiu sua atuação no mercado livre de gás natural, segmento impulsionado pela Nova Lei do Gás e pela abertura gradual do setor à concorrência.
Além disso, consolidou investimentos em infraestrutura crítica, incluindo o terminal de regaseificação em Santos, ativo que amplia a flexibilidade de suprimento e fortalece a posição da companhia na cadeia de gás natural liquefeito (GNL).
A combinação entre ativos regulados, como a distribuição de gás canalizado, e negócios com maior exposição ao mercado tende a ser um dos principais pontos de análise para investidores interessados na eventual oferta pública.
Termômetro para o setor de infraestrutura e energia
No mercado de capitais, a potencial listagem da Compass é vista como um teste relevante para o setor de infraestrutura energética. Um IPO bem-sucedido pode reabrir a janela de captações para empresas de energia, gás natural e logística que aguardam condições mais favoráveis para financiar projetos de longo prazo.
O gás natural, frequentemente apontado como combustível de transição na matriz energética brasileira, ganha protagonismo em um contexto de segurança energética, expansão do mercado livre e complementaridade com fontes renováveis intermitentes.
Se concretizada, a operação poderá figurar entre as maiores da B3 no ano, reforçando a posição da Cosan como um dos principais conglomerados de infraestrutura da América Latina e consolidando a Compass como plataforma independente de gás e energia no Brasil.
Por ora, a companhia mantém a postura de prudência. A decisão final dependerá do equilíbrio entre valuation, liquidez global e confiança do investidor em ativos de infraestrutura de longo prazo, variáveis que seguem no radar do mercado.



