Dados da Abraceel mostram consolidação do ambiente competitivo e antecipam impacto da abertura total prevista pela Lei 15.269/2025
O mercado livre de energia elétrica segue ampliando sua relevância na matriz de consumo brasileira e já se consolida como o principal ambiente de contratação para a indústria e uma alternativa cada vez mais dominante para o setor comercial. Em novembro de 2025, 95% de toda a eletricidade consumida pelas indústrias brasileiras foi adquirida no ambiente competitivo, frente a 93% no mesmo mês de 2024. No comércio, a participação atingiu 47%, ante 41% um ano antes.
Os dados integram a mais recente edição do Boletim da Energia Livre, publicação mensal da Abraceel (Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia), elaborada a partir de indicadores divulgados por instituições oficiais e consultorias especializadas do setor elétrico.
Indústria consolida migração quase total para o ambiente livre
O avanço da indústria no mercado livre reflete uma tendência estrutural observada ao longo da última década, impulsionada por fatores como redução de custos, previsibilidade tarifária, diversificação de fornecedores e maior capacidade de gestão do risco energético.
Na prática, o índice de 95% significa que praticamente toda a indústria conectada em alta tensão já opera fora do mercado regulado, contratando energia diretamente de geradores ou comercializadoras, com liberdade para negociar prazos, volumes e preços.
Esse movimento posiciona o setor industrial brasileiro entre os mais expostos a mecanismos de mercado no mundo, aproximando o país de modelos adotados em economias maduras, onde a competição é a base da formação de preços no setor elétrico.
Comércio acelera adesão e amplia participação
No segmento comercial, a expansão é ainda mais significativa em termos relativos. O salto de 41% para 47% em apenas 12 meses indica uma aceleração do processo de migração, especialmente entre redes de varejo, shopping centers, hospitais, universidades privadas e grandes grupos de serviços.
Embora o índice ainda seja inferior ao da indústria, a tendência aponta para uma convergência progressiva, à medida que empresas buscam maior controle sobre custos energéticos em um ambiente de tarifas reguladas pressionadas por encargos setoriais, subsídios cruzados e volatilidade hidrológica.
Baixa tensão entra no radar com a nova lei
Atualmente, os dados divulgados pela Abraceel consideram apenas consumidores atendidos em alta tensão, que já possuem acesso legal ao mercado livre. No entanto, esse cenário deve se transformar de forma estrutural com a entrada em vigor da Lei 15.269/2025, sancionada em novembro do ano passado.
A nova legislação prevê a abertura gradual do mercado livre para consumidores em baixa tensão, que poderão migrar em até 24 meses após a sanção da lei.
Segundo estudo realizado pela própria Abraceel em 2024, a medida tem potencial para beneficiar cerca de 6 milhões de pequenos comércios e 400 mil pequenas indústrias, ampliando de forma inédita a base de consumidores elegíveis ao ambiente competitivo.
Na prática, trata-se da maior reforma do setor elétrico brasileiro desde a criação do mercado livre, com impacto direto sobre distribuidoras, comercializadoras, consumidores finais e sobre o próprio desenho regulatório do setor.
Mercado livre já responde por 43% do consumo total do país
Além do avanço setorial, o boletim revela que o mercado livre já responde por 43% de toda a energia elétrica consumida no Brasil, considerando a carga total nacional, incluindo perdas técnicas e comerciais.
Em termos de base de clientes, o ambiente competitivo alcançou 82.958 unidades consumidoras em novembro de 2025, com a adição de 21.547 novas unidades em 12 meses, o que representa um crescimento acumulado de 35%.
O movimento é liderado por São Paulo, que concentra 26.215 unidades consumidoras no mercado livre, seguido por Rio Grande do Sul (7.567) e Paraná (7.428), estados com forte presença industrial e elevado nível de maturidade regulatória.
Um novo equilíbrio para o setor elétrico
O avanço do mercado livre redesenha a lógica econômica do setor elétrico brasileiro, deslocando gradualmente o centro de gravidade da regulação para a competição, eficiência econômica e sinalização de preços.
Com a perspectiva de abertura total para a baixa tensão, o país caminha para um modelo no qual o consumidor final passa a exercer papel ativo na escolha de seu fornecedor de energia, criando pressões por inovação comercial, novos produtos, contratos mais flexíveis e soluções integradas, como energia renovável, certificações de origem e gestão digital do consumo.
Mais do que uma mudança contratual, a expansão do mercado livre representa uma transformação estrutural na governança do setor elétrico, com efeitos diretos sobre investimentos, formação de preços, planejamento energético e competitividade da economia brasileira.



