Aporte cresce 8% em relação a 2024 e consolida liderança do transporte eletrificado, enquanto redes elétricas e data centers ganham protagonismo no fluxo de capital
O investimento global em transição energética alcançou um novo patamar em 2025, ao atingir US$ 2,3 trilhões, segundo o relatório Energy Transition Investment Trends (ETIT), da BloombergNEF (BNEF). O montante representa um crescimento de 8% em relação a 2024, mesmo em um contexto marcado por tensões geopolíticas, mudanças regulatórias e disrupções nas cadeias globais de suprimentos.
O estudo consolida dados de quatro grandes frentes: investimentos em tecnologias limpas e suas cadeias produtivas, aportes em empresas de climate-tech, participações acionárias e emissões de dívida associadas à transição energética. A combinação desses indicadores mostra que, apesar dos desafios macroeconômicos e políticos, o processo de descarbonização global segue avançando e atraindo capital em escala sem precedentes.
Transporte eletrificado lidera investimentos globais
O principal vetor do investimento em 2025 foi o transporte eletrificado, que concentrou US$ 893 bilhões, impulsionado sobretudo pelo crescimento do mercado de veículos elétricos e pela expansão da infraestrutura de recarga. O volume representa uma alta de 21% em relação a 2024, consolidando o segmento como o maior destino de recursos dentro da transição energética.
Na sequência, aparecem os aportes em energias renováveis, com US$ 690 bilhões, e em redes elétricas, que somaram US$ 419 bilhões. Apesar de o valor absoluto das renováveis seguir elevado, o setor registrou uma queda de 9,5% na comparação anual, impactado principalmente pelas incertezas regulatórias no mercado chinês, atualmente o maior do mundo.
Outros segmentos monitorados pela BNEF apresentaram crescimento, com exceção do hidrogênio, que recebeu US$ 7,3 bilhões, e da energia nuclear, com US$ 36 bilhões, ambos ainda distantes de ganhar escala relevante dentro do portfólio global de investimentos.
Energia limpa supera fósseis pelo segundo ano consecutivo
Um dos marcos mais relevantes do relatório é a consolidação da vantagem da energia limpa sobre os combustíveis fósseis. Em 2025, o investimento em oferta de energia limpa superou novamente o destinado a petróleo, gás e carvão, com uma diferença de US$ 102 bilhões, frente a US$ 85 bilhões em 2024.
Enquanto os aportes em renováveis, nuclear, captura de carbono, hidrogênio, armazenamento e redes continuaram crescendo, o investimento na oferta de combustíveis fósseis recuou US$ 9 bilhões, a primeira queda desde 2020. A retração foi puxada principalmente pela redução nos gastos com exploração e produção de petróleo e gás, além da queda na geração térmica fóssil.
Apesar do volume recorde, a BNEF alerta que o ritmo de crescimento vem desacelerando nos últimos anos: de 27% em 2021 para 8% em 2025, sinalizando que a transição avança, mas enfrenta limites estruturais e regulatórios.
Ásia-Pacífico mantém liderança, mas China desacelera
Do ponto de vista geográfico, a região da Ásia-Pacífico seguiu como a maior em volume de investimentos, respondendo por 47% do total global. A China, líder absoluta, manteve a maior participação, mas registrou a primeira queda no financiamento de energias renováveis desde 2013, reflexo de ajustes regulatórios e de excesso de capacidade em alguns segmentos industriais.
A Índia apresentou crescimento de 15%, alcançando US$ 68 bilhões, enquanto a União Europeia se destacou como o principal motor de expansão em 2025, com alta de 18% e investimentos de US$ 455 bilhões. Já os Estados Unidos registraram aumento de 3,5%, chegando a US$ 378 bilhões, mesmo diante de medidas do governo Trump para desacelerar políticas de transição energética.
Resiliência da transição e papel dos data centers
Ao analisar a resiliência do setor frente às barreiras comerciais, Albert Cheung, vice-CEO da BNEF, aponta que a necessidade de soberania industrial e o boom da infraestrutura para dados estão reconfigurando o apetite dos investidores.
“O último ano demonstrou que, apesar dos desafios de política pública e comércio, a transição energética global é resiliente e oferece diversas oportunidades para investidores. À medida que muitas economias buscam fortalecer a segurança energética e desenvolver cadeias de suprimentos domésticas, o investimento em energia limpa continuará crescendo, impulsionada especialmente pela expansão global de data centers”, avaliou.
A BNEF estima que apenas os investimentos em data centers tenham alcançado cerca de US$ 500 bilhões em 2025, superando o volume destinado à energia solar e ficando atrás apenas do transporte eletrificado, reforçando o papel da digitalização e da inteligência artificial como novos motores da demanda por eletricidade.
Cadeia de suprimentos cresce, mas excesso de oferta pressiona preços
O investimento na cadeia de suprimentos de energia limpa, que inclui fábricas de equipamentos solares, baterias, eletrolisadores, turbinas eólicas e produção de metais para baterias, atingiu US$ 127 bilhões, crescimento de 6% em 2025. O destaque ficou para a fabricação de baterias e materiais associados.
Apesar do aumento dos aportes, a BNEF aponta que o excesso de oferta continua pressionando os preços das tecnologias limpas, cenário que tende a persistir no curto prazo. A China permanece como principal polo global de manufatura e deve manter essa posição ao menos pelos próximos três anos.
Climate-tech e dívida verde ganham novo fôlego
O relatório também mostra uma retomada relevante nos investimentos em empresas de climate-tech, que captaram US$ 77,3 bilhões em 2025, alta de 53% frente ao ano anterior e o primeiro crescimento após três anos consecutivos de queda. O movimento foi impulsionado principalmente por transações bilionárias na Ásia e por um mercado aquecido de fusões e aquisições, que somou US$ 99,1 bilhões em negócios concluídos.
Já a emissão de dívida voltada à transição energética totalizou US$ 1,2 trilhão, crescimento de 17% em relação a 2024, puxado sobretudo por financiamentos corporativos e de projetos, mesmo com a retração das emissões governamentais.
Perspectivas: necessidade de acelerar investimentos
No cenário-base da BloombergNEF, o investimento médio anual necessário para sustentar a transição energética global nos próximos cinco anos é de US$ 2,9 trilhões, valor ainda superior ao patamar atual. O relatório alerta que, embora setores como renováveis, redes, armazenamento e veículos elétricos estejam mais maduros, áreas como energia eólica e metais para baterias podem enfrentar desalinhamentos caso o ritmo de expansão desacelere.
A mensagem central do estudo é clara: a transição energética já se consolidou como um dos maiores movimentos de investimento da história recente, mas ainda exige aceleração significativa para manter o mundo alinhado às metas de neutralidade de carbono.



