Entidades alertam que ausência de energia firme pode comprometer competitividade do Brasil na atração de investimentos em infraestrutura digital
A expansão acelerada da infraestrutura digital no Brasil, impulsionada pelo avanço da inteligência artificial, da computação em nuvem e da economia de dados, colocou a confiabilidade do suprimento elétrico no centro do debate setorial. Em meio a esse cenário, um amplo grupo de entidades do setor produtivo divulgou, nesta segunda-feira (15), um manifesto defendendo a inclusão do gás natural como fonte apta ao suprimento dos data centers enquadrados no REDATA, programa instituído pela Medida Provisória nº 1.318/2025 para estimular investimentos em infraestrutura digital no país.
Segundo as organizações signatárias, a ausência de uma fonte firme e despachável entre as alternativas previstas no programa representa um risco concreto à viabilidade técnica e econômica de projetos de grande porte. O grupo avalia que, sem previsibilidade energética, o Brasil pode perder espaço na competição global por novos empreendimentos, especialmente em um contexto em que data centers passaram a ser tratados como ativos estratégicos para a soberania digital e o desenvolvimento econômico.
Data centers e a exigência de energia contínua
O manifesto parte de um ponto considerado inegociável do ponto de vista técnico: data centers operam sob padrões internacionais extremamente rigorosos de disponibilidade. De acordo com as entidades, esses empreendimentos exigem níveis de confiabilidade próximos de 100%, com tolerância inferior a cinco minutos de falha por ano, o que impõe a necessidade de fontes capazes de operar de forma contínua, 24 horas por dia, sete dias por semana, independentemente de condições climáticas.
Essa característica diferencia os data centers de outros tipos de cargas industriais. Mesmo interrupções breves podem resultar em perdas financeiras expressivas, comprometer contratos internacionais de prestação de serviços digitais e afetar cadeias produtivas inteiras que dependem do processamento e do armazenamento de dados.
Na avaliação do grupo, ao não reconhecer o gás natural como fonte apta ao suprimento desses projetos, o REDATA acaba por restringir as opções energéticas disponíveis, reduzindo a previsibilidade e elevando o risco percebido por investidores globais.
Gás natural como complemento às renováveis
As entidades fazem questão de destacar que a defesa da inclusão do gás natural não representa um retrocesso ambiental nem uma tentativa de reduzir a participação das fontes renováveis na matriz elétrica. Pelo contrário, o manifesto sustenta que a proposta está alinhada às melhores práticas internacionais, que combinam fontes renováveis com soluções firmes e flexíveis para garantir segurança operacional.
Em países líderes em infraestrutura digital, como Estados Unidos, Irlanda e Singapura, o uso de gás natural, inclusive em sistemas locais de backup, é parte integrante da estratégia energética dos data centers. Esse modelo permite acomodar a intermitência das fontes renováveis, assegurando continuidade de operação e reduzindo riscos sistêmicos.
Para os signatários, permitir o uso do gás natural no âmbito do REDATA amplia a resiliência do sistema, fortalece o ambiente de negócios e cria condições mais realistas para a implantação de projetos de grande escala no Brasil.
Impactos econômicos e competitividade internacional
O manifesto também insere a discussão em um contexto mais amplo de competitividade econômica. A infraestrutura de data centers é vista como um habilitador transversal para diversos setores, incluindo indústria, serviços financeiros, agronegócio, telecomunicações e governo digital.
Sem energia firme, alertam as entidades, o país corre o risco de limitar a expansão dessa infraestrutura crítica justamente em um momento de forte demanda global. Além disso, a falta de alternativas energéticas robustas pode direcionar investimentos para outros mercados emergentes que ofereçam maior segurança operacional e regulatória.
Nesse sentido, o documento argumenta que a inclusão do gás natural no REDATA não apenas viabiliza projetos individuais, mas contribui para posicionar o Brasil como um polo confiável de infraestrutura digital na América Latina.
Amplo apoio institucional ao pleito
O peso político e institucional do manifesto é reforçado pelo amplo espectro de entidades signatárias, que inclui representantes da indústria, do setor energético, do transporte de gás, da cogeração, de consumidores industriais e de frentes parlamentares ligadas à competitividade e aos recursos naturais.
Assinam o documento organizações como a Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), a Associação Brasileira de Geradoras Termelétricas (Abraget), a Associação Brasileira dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace Energia), além de federações industriais de diversos estados e frentes parlamentares no Congresso Nacional.
A diversidade dos signatários reforça a percepção de que o debate transcende interesses setoriais específicos e se conecta a uma agenda mais ampla de desenvolvimento econômico, segurança energética e atração de investimentos.
REDATA e os próximos passos regulatórios
Criado pela MP 1.318/2025, o REDATA tem como objetivo estabelecer um marco de estímulo à instalação de data centers e outras infraestruturas digitais estratégicas no Brasil. A definição das fontes energéticas aptas ao programa, contudo, tornou-se um dos pontos mais sensíveis do debate regulatório.
Ao defender a inclusão do gás natural, as entidades sinalizam a necessidade de um desenho regulatório mais pragmático, que reconheça as limitações técnicas do sistema elétrico e as exigências específicas desse tipo de carga. A expectativa do setor é que o governo e o Congresso avaliem o pleito à luz da segurança energética, da competitividade internacional e do papel estratégico da infraestrutura digital para o país.



