Transição energética na América Latina exige salto de investimentos e integração regional, aponta relatório AIE–OLADE

Estudo mostra que, embora o investimento total em energia tenha estagnado, os aportes em fontes limpas avançam rapidamente. Região tem potencial para triplicar investimentos até 2035, mas altos custos de capital e falta de infraestrutura ainda limitam expansão

A América Latina e o Caribe vivem um paradoxo energético: ao mesmo tempo em que reúnem alguns dos melhores recursos renováveis do mundo, como vento de classe mundial no Nordeste brasileiro e no Caribe, radiação solar excepcional no deserto do Atacama e disponibilidade hídrica privilegiada em vários países, os investimentos totais em energia na região permanecem praticamente estagnados na última década.

É o que revela a análise conjunta da Agência Internacional de Energia (AIE) e da Organização Latino-Americana de Energia (OLADE), que integra o relatório World Energy Investment 2025. O estudo mostra que a região tem expandido investimentos em energia limpa, mas ainda em ritmo insuficiente para sustentar crescimento econômico, segurança energética e metas climáticas simultaneamente.

Energias renováveis avançam 25% na década, mas investimentos totais caem 7%

Segundo o relatório, o investimento global em energia deve atingir US$ 3,3 trilhões em 2025, dos quais US$ 2,2 trilhões serão destinados a energias renováveis, redes, armazenamento, eficiência energética, eletrificação e nuclear. A América Latina representa pequena fração desse total, mas mostra evolução consistente no segmento de energia limpa.

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Entre 2015 e 2025, o investimento em energias renováveis, redes, eficiência e eletrificação na região terá crescido 25%, alcançando cerca de US$ 70 bilhões. No mesmo período, porém, o investimento total em energia caiu 7%, chegando a US$ 160 bilhões, uma redução explicada em parte pelos menores custos de produção de petróleo e gás e pela queda de preços de tecnologias renováveis.

Apesar de avanços relevantes, a região ainda destina 55% de seus investimentos energéticos a combustíveis fósseis, embora essa fatia venha diminuindo gradualmente em relação aos 65% observados há uma década.

Potencial renovável é abundante, mas infraestrutura de redes ainda é gargalo crítico

Com recursos renováveis de classe mundial, a América Latina tem condições de assumir protagonismo global na transição energética. O Brasil lidera em bioenergia, solar distribuída, geração solar em larga escala e eólica; o Chile e a Argentina são referência em energia solar; Colômbia e Paraguai ampliam investimentos; e países do Caribe avançam em projetos híbridos e sistemas de armazenamento.

No entanto, o relatório afirma que as redes elétricas não acompanham o ritmo de expansão da geração renovável. Hoje, para cada US$ 1 investido em nova geração, apenas US$ 0,50 é aplicado em redes e armazenamento. Para atender aos cenários de transição energética, esse valor precisaria subir para US$ 0,85 até 2035.

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A falta de infraestrutura limita a integração de novas fontes, aumenta curtailments e restringe o desenvolvimento de projetos de grande escala.

Região precisa triplicar investimentos em energia limpa até 2035

Quinze países da região anunciaram metas de neutralidade de carbono até meados do século, e outros quinze já submeteram NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) com compromissos específicos para 2035.

Nos cenários analisados pela AIE:

  • Com políticas atuais, os investimentos em energia limpa chegariam a US$ 110 bilhões/ano até 2035
  • No Cenário de Políticas Anunciadas (APS), esse volume ultrapassaria US$ 200 bilhões/ano — mais que o triplo dos níveis previstos para 2025

O maior salto deve ocorrer nos investimentos em veículos elétricos, eficiência energética e eletrificação, que responderão por cerca de 45% dos investimentos no uso final da energia.

Leilões, integração regional e estabilidade regulatória são essenciais para destravar capital

A região já apresenta sinais de avanço institucional. O Brasil, por exemplo, movimentou quase US$ 4 bilhões em dois leilões de transmissão realizados em 2024 e aprovou mais um em 2025. A Argentina recebeu mais de 1.300 MW em ofertas para seu primeiro leilão de baterias BESS, alocando 660 MW. Honduras e República Dominicana lançaram licitações de energia firme e renovável com armazenamento, sinalizando maturidade regulatória crescente.

A OLADE criou em 2024 o Conselho Regional de Planejamento Energético, voltado à harmonização regulatória, troca de informações e viabilização de projetos transfronteiriços. Outro destaque é a aprovação da Lei do Combustível do Futuro, no Brasil, que pode liberar US$ 4 bilhões/ano para combustíveis sustentáveis como diesel verde, biogás e SAF.

Custo de capital é a maior barreira da transição energética latino-americana

Mesmo com avanços, o relatório aponta que o maior entrave para destravar investimentos é o alto custo de capital. Projetos de energia renovável no Brasil e México chegam a custar duas a três vezes mais para financiar do que em economias avançadas, segundo dados do Observatório de Custo de Capital da AIE.

Os principais riscos percebidos pelos investidores são:

  • instabilidade regulatória;
  • risco político;
  • volatilidade cambial;
  • risco soberano.

Embora metade do capital investido em energia limpa na região seja estrangeiro, um sinal de confiança, os riscos ainda inibem aportes mais robustos.

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