Gargalos de transmissão e curtailment concentram 79,1% das preocupações da indústria eólica, aponta pesquisa da Vestas

Levantamento na Brazil WindPower indica que incerteza sobre cortes de geração ameaça retomada de investimentos no SIN; fabricante lança turbina de 7,2 MW para ventos médios e fracos

As limitações na infraestrutura de transmissão e os cortes compulsórios de geração (curtailment) concentram 79,1% das preocupações do setor eólico no Brasil. A conclusão integra uma sondagem realizada pela Vestas com 293 agentes de mercado durante a Brazil WindPower 2026, evidenciando que a expansão da fonte depende não apenas da demanda por contratos, mas sobretudo da capacidade de escoamento e da segurança tarifária dos projetos.

Os resultados reforçam a percepção de estresse no Sistema Interligado Nacional (SIN). Na edição de 2025 do levantamento, os gargalos de conexão já despontavam como a principal inquietação para 33,6% dos entrevistados. A consolidação do curtailment como risco crítico compromete a previsibilidade de receitas, dificulta a precificação de riscos em contratos de compra e venda (PPAs) e encarece a estruturação financeira (project finance) de novos parques.

Capacidade de escoamento baliza ritmo de recuperação

A preocupação surge no momento em que o mercado ensaia uma retomada gradual dos aportes após cerca de dois anos de retração na contratação de novos equipamentos. Entre os projetos que simbolizam esse movimento estão o Complexo Eólico Dom Inocêncio (Casa dos Ventos, no Piauí) e o projeto Esquina do Vento (joint venture entre Equinor e Rio Energy, no Rio Grande do Norte).

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Juntos, os dois empreendimentos somam 1,1 GW de capacidade instalada e tiveram suas encomendas confirmadas junto à fabricante dinamarquesa entre dezembro de 2025 e março de 2026. Contudo, a sustentabilidade dessa recuperação exige regras claras sobre o rateio dos impactos financeiros decorrentes dos cortes sistêmicos de geração.

Ao avaliar os condicionantes do mercado, o CEO da Vestas para a América Latina, Eduardo Ricotta, destacou a necessidade de maior transparência regulatória por parte dos órgãos operadores e reguladores: “Já tivemos sinais concretos de retomada. Agora, avançar para um novo ciclo de investimentos exige maior previsibilidade sobre as restrições à geração e mais transparência sobre os critérios e as causas dos cortes. Sem isso, torna-se mais difícil dimensionar riscos, projetar receitas e avaliar a viabilidade dos projetos.”

Eletrificação industrial e data centers como novos vetores de demanda

A ascensão dos data centers de inteligência artificial e a descarbonização das cadeias industriais surgem como frentes promissoras para a atração de PPAs renováveis. O aproveitamento dessa demanda, contudo, depende da convergência geográfica entre a oferta do Nordeste e a localização dos centros de carga no Sul/Sudeste, além de respostas operacionais à volatilidade intrínseca da geração eólica.

Ricotta apontou que o planejamento de expansão da rede e os sinais locacionais de preço são ferramentas indispensáveis para guiar a alocação eficiente do capital privado: “A sondagem confirma a necessidade de maior previsibilidade e de sinais econômicos que reduzam assimetrias no mercado. O planejamento da transmissão define onde e quando haverá capacidade de escoamento. A transparência sobre os critérios e as causas dos cortes permite dimensionar melhor o risco. Já os sinais de preço podem orientar consumo e investimento ao refletir o valor da energia em diferentes horários.”

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Complementaridade hídrica e menor impacto ambiental sustentam atratividade

Apesar dos gargalos operacionais, os atributos estruturais da energia eólica continuam bem avaliados pelos agentes de mercado. Para 49,5% dos entrevistados na sondagem, o baixo impacto ambiental e territorial é o maior diferencial competitivo da fonte.

Outros 21,5% ressaltaram a complementaridade sazonal entre os ventos e os regimes hídricos no Brasil, fator decisivo para a segurança do SIN no período seco. Metas corporativas de ESG e descarbonização responderam por 16,7% das menções, enquanto a competitividade de custos de longo prazo e a aderência da produção ao perfil de consumo somaram 12,2%.

Evolução tecnológica: turbina de 7,2 MW foca em ganho de eficiência e LCoE

Paralelamente às discussões de infraestrutura, o ganho de eficiência dos equipamentos figura como vetor para recompor as margens dos projetos. Durante a Brazil WindPower 2026, a Vestas apresentou formalmente ao mercado brasileiro o modelo V182-7.2 MW, pertencente à plataforma EnVentus™.

Projetada para regimes de ventos baixos e médios, a turbina traz um rotor de 182 metros de diâmetro e entrega uma área varrida 12% superior ao modelo anterior (V172-7.2 MW). O ganho na captação do vento eleva a geração anual de energia (AEP) e contribui para reduzir o custo nivelado de energia (LCoE) dos empreendimentos.

Contudo, a fabricante reforça que os ganhos de produtividade no aerogerador demandam correspondência na infraestrutura de transmissão para se converterem em investimento produtivo na ponta: “A tecnologia pode melhorar o business case e ampliar as possibilidades de desenvolvimento, mas seu potencial só se converte em investimento quando há capacidade de conexão, regras claras e previsibilidade. O Brasil tem a oportunidade de aproximar sua oferta renovável de novas demandas da economia. Para isso, precisa avançar de forma coordenada em rede, regulação e sinais de mercado.”

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