Projeto de PD&I busca aprimorar subproduto da pirólise de resíduos florestais para uso energético e como insumo da indústria química, com foco em setores de difícil descarbonização
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a startup Bionow firmaram um convênio de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) de R$ 1,1 milhão para desenvolver uma rota de aproveitamento energético do alcatrão gerado na pirólise de resíduos florestais. Com duração de um ano, o projeto pretende aprimorar as características físico-químicas do subproduto para viabilizar seu uso comercial como biocombustível e fonte alternativa de energia.
A Bionow tem participação acionária da Celulose Nipo-Brasileira (Cenibra) e da Vale. A pesquisa reúne academia e setor privado em uma cadeia associada à produção de biocarvão a partir de biomassa florestal.
Pesquisa mira limitações do alcatrão
A tecnologia parte da pirólise de resíduos de madeira para produzir biocarvão. O processo também gera uma fração líquida de alcatrão que ainda apresenta limitações para utilização em escala comercial.
O projeto pretende atuar sobre características como estabilidade, segurança de armazenamento e manuseio e poder calorífico. A equipe da Unicamp também avaliará processos de separação físico-química que possam reduzir os custos de tratamento do material.
Leonardo Vasconcelos Fregolente, professor da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) e coordenador técnico da iniciativa, destaca o potencial dos resíduos florestais para ampliar a oferta de biocombustíveis no país e aponta o alcatrão como uma alternativa que ainda depende de melhorias em suas propriedades físico-químicas.
As atividades serão conduzidas pela Unidade Embrapii E-Renova, sediada na FEQ, em conjunto com o Centro de Estudos de Energia e Petróleo (Cepetro).
Rota tecnológica evita processos mais complexos
A pesquisa priorizará métodos de separação físico-química de baixo custo operacional, sem recorrer a rotas mais complexas baseadas em reações de hidrogenação. A estratégia busca aumentar as possibilidades de utilização do alcatrão e avaliar sua aplicação não apenas como biocombustível, mas também como matéria-prima para a indústria química.
O desenvolvimento pode ampliar o aproveitamento da biomassa ao agregar valor a uma fração líquida que, até o momento, apresenta menor utilização comercial. A viabilidade econômica e técnica da solução, porém, dependerá dos resultados obtidos durante a pesquisa.
Aplicação potencial em mineração e siderurgia
A iniciativa está relacionada à busca por alternativas de descarbonização para setores industriais de difícil abatimento de emissões, especialmente mineração e siderurgia. Nessas atividades, a substituição de insumos e combustíveis fósseis é um dos desafios da transição energética. O desenvolvimento de produtos derivados de biomassa pode ampliar as opções disponíveis para processos industriais intensivos em energia e carbono.
Fundada em 2022, a Bionow desenvolve soluções renováveis e de biocarbono para indústrias intensivas em emissões. Ramon Correia, responsável pelo gerenciamento de projetos e excelência operacional da startup, destaca que o aproveitamento do alcatrão está associado à estratégia de utilizar integralmente a matéria-prima.
A proposta é transformar uma fração de menor aproveitamento em um coproduto de maior valor agregado, com potencial de elevar a eficiência da cadeia produtiva.
Projeto prevê propriedade intelectual e nove bolsas
O convênio prevê a geração de propriedade intelectual passível de licenciamento comercial. Ao todo, serão nove bolsas acadêmicas e tecnológicas: três destinadas a estímulos à inovação para docentes e seis para pesquisadores de pós-doutorado, doutorado, mestrado e graduação.
A articulação institucional envolve a Agência de Inovação Inova Unicamp e a Fundação para o Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp). O projeto integra o programa Inovação para Pequenos Negócios e Startups, desenvolvido em parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
Para Iara Regina da Silva Ferreira, coordenadora de negócios e inovação da Inova Unicamp, a conexão entre universidade e empresas permite direcionar a pesquisa científica para demandas concretas do setor produtivo, especialmente na conversão de resíduos em soluções tecnológicas.
Próxima etapa é comprovar viabilidade
A pesquisa terá como principal desafio verificar se o tratamento do alcatrão consegue superar as limitações que hoje dificultam sua aplicação comercial. Além da performance técnica, os testes deverão indicar a viabilidade econômica dos processos desenvolvidos.
O resultado poderá abrir duas frentes de utilização para o material: como combustível de origem renovável e como insumo para a indústria química.
Ao avaliar o escopo da iniciativa, Leonardo Vasconcelos Fregolente ressalta que o projeto busca combinar desenvolvimento tecnológico e aplicação industrial, com foco em processos eficientes e de baixo custo.



