Estatal cita projeções alarmantes do ONS com até 90% de probabilidade de falha no suprimento de potência até 2029 e defende manutenção de térmicas existentes.
O ambiente regulatório e operacional do setor elétrico nacional ganha contornos de forte pressão política e institucional. A Petrobras posicionou-se de forma contundente em defesa da homologação imediata do Leilão de Reserva de Capacidade na Forma de Potência (LRCAP) 2026. O certame, realizado em março pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), segue aguardando os trâmites finais de validação. Para a petroleira, a oficialização do resultado é peça-chave para mitigar o risco de apagões e garantir a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN) nos próximos anos.
O debate ganha tração em um período de profunda transformação estrutural da matriz elétrica brasileira. Ao mesmo tempo em que o país acelera a expansão de fontes renováveis intermitentes, como eólica e solar, enfrenta um crescimento robusto na demanda de carga e o aumento da frequência de eventos climáticos extremos. A combinação desses fatores tem exigido do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) um controle cada vez mais complexo do balanço de potência, demandando recursos despacháveis que possam entrar em operação nos momentos de pico ou de frustração da geração intermitente.
Os alertas técnicos do ONS e o risco de suprimento
As notas técnicas emitidas pelo ONS trazem projeções severas sobre o equilíbrio entre carga e capacidade de atendimento nos momentos de maior estresse do sistema. Sem a injeção da nova capacidade prevista no certame de 2026, a probabilidade de falha no suprimento de potência escalará rapidamente: os modelos matemáticos apontam um risco de quase 30% já no fechamento deste ano, número que dispara para mais de 90% no horizonte de 2029.
Ao avaliar a conjuntura de transição e o desenho operativo atual, o Diretor Executivo em exercício de Transição Energética e Sustentabilidade da Petrobras, William França, ressalta a urgência do certame: “Esse novo contexto exige capacidade firme, confiável e disponível 24 horas por dia para garantir o suprimento nos momentos críticos. O LRCAP é essencial para a segurança elétrica do Brasil e para a previsibilidade necessária ao desenvolvimento do setor energético nacional, evitando que o país passe por apagões”
Desempenho térmico em tempo real comprova necessidade de lastro
Para embasar a necessidade de potência firme, a Petrobras apresentou dados operacionais recentes de seu parque gerador que demonstram como o SIN tem dependido do acionamento rápido de usinas térmicas. No dia 6 de maio deste ano, as térmicas da companhia foram demandadas em tempo real para suportar o pico de carga do país, gerando mais de 680 MW. Poucos dias depois, em 15 de maio, o parque da estatal ultrapassou a marca de 2.000 MW logo após as 18h, realizando uma rampa de subida de 1.400 MW em pouco mais de uma hora para cobrir a saída da geração solar e o aumento do consumo noturno.
A preocupação de agentes do setor e da Petrobras é que o impasse na homologação do LRCAP 2026 possa inviabilizar economicamente usinas termelétricas existentes. Esses ativos dependem da receita de capacidade proporcionada pelo leilão para cobrir seus custos fixos e manter os contratos de suprimento de combustível ativos. Caso ocorra uma desmobilização forçada dessas usinas por falta de sinal econômico e previsibilidade regulatória, o SIN perderá justamente o colchão de segurança no momento em que o operador projeta o cenário de maior vulnerabilidade energética da década.
Complementaridade entre fontes e transição justa
A defesa do leilão de potência não anula os investimentos em sustentabilidade. A Petrobras argumenta que a contratação de termelétricas estruturadas atua como um elemento de complementaridade, pavimentando o caminho para uma expansão segura das fontes limpas. Sistemas elétricos modernos e descarbonizados ao redor do mundo utilizam usinas despacháveis de resposta rápida para dar flexibilidade e estabilidade à rede, atuando como uma espécie de “bateria térmica” para o sistema.
A petroleira conclui reafirmando que mantém suas metas corporativas voltadas à transição de forma justa, sem abrir mão da segurança energética e do atendimento contínuo às demandas da sociedade brasileira. Diante disso, a empresa mantém a pressão junto aos órgãos reguladores para a assinatura célere dos contratos das usinas vencedoras.


