Relatório do Banco Mundial aponta risco de maior choque de oferta de petróleo da história, com impacto direto na inflação e na transição energética
O mercado internacional de energia caminha para um cenário de forte pressão de custos e volatilidade em 2026. De acordo com o mais recente relatório Commodity Markets Outlook, do Banco Mundial, os preços de energia devem subir 24% no próximo ano, configurando o maior avanço desde o início da crise energética global em 2022.
A projeção reflete um ambiente de elevada instabilidade geopolítica no Oriente Médio, com impactos diretos sobre cadeias de suprimento de petróleo e gás. Mesmo considerando uma hipótese de normalização parcial das tensões até maio, o relatório alerta que os riscos permanecem assimétricos, com potencial de novas escaladas de preços caso os conflitos se intensifiquem.
Para o setor elétrico, o cenário adiciona complexidade ao planejamento energético, especialmente em sistemas ainda dependentes de combustíveis fósseis para geração e equilíbrio de carga.
Estreito de Ormuz concentra o risco sistêmico
O principal ponto de tensão está no Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 35% do transporte marítimo global de petróleo. A restrição parcial do fluxo na região, em função das tensões entre Estados Unidos e Irã, tem provocado um estrangulamento logístico com efeitos diretos sobre a oferta global de energia.
Além do petróleo, o bloqueio impacta cadeias produtivas correlatas, como fertilizantes e insumos industriais, ampliando o efeito cascata sobre a economia global.
A expectativa do Banco Mundial é de que o fluxo marítimo na região só se normalize próximo a outubro. Ainda assim, a recorrência de ataques à infraestrutura energética já caracteriza, na avaliação da instituição, o maior choque de oferta de petróleo da história moderna.
Inflação global e impacto sobre a transição energética
A alta nos preços de energia tende a desencadear um efeito dominó sobre a economia global. A previsão é de que os preços das commodities avancem 16% em 2026, com destaque para metais, o que encarece projetos de infraestrutura e iniciativas ligadas à transição energética.
À frente da análise econômica do Banco Mundial, Indermit Gill detalha a dinâmica desse impacto: “A guerra está atingindo a economia global em ondas cumulativas: primeiro através de preços mais altos de energia, depois preços mais altos de alimentos e, finalmente, inflação mais alta, que elevará as taxas de juros e tornará a dívida ainda mais cara”.
O diagnóstico aponta para um cenário particularmente desafiador para países emergentes, onde o aumento de custos pode comprometer investimentos em expansão energética e modernização de sistemas elétricos.
Brent em alta amplia pressão sobre o setor energético
O mercado já começa a precificar esse cenário de risco. O barril do Brent acumula alta significativa e chegou a operar cerca de 50% acima dos níveis registrados no início de 2025.
Para 2026, a estimativa do Banco Mundial é de uma média de US$ 86 por barril, frente aos US$ 69 projetados anteriormente. Em um cenário mais adverso, a cotação pode atingir US$ 115, refletindo uma recuperação lenta da oferta global e persistência das tensões geopolíticas.
Contratos futuros já indicam esse movimento, com negociações próximas a US$ 109, pressionando margens de empresas intensivas em combustíveis fósseis, como distribuidoras e geradoras térmicas.
Reflexos para o setor elétrico brasileiro
Embora o Brasil possua uma matriz predominantemente renovável, o impacto indireto da alta dos combustíveis fósseis é inevitável. O aumento do custo do petróleo e do gás natural eleva o preço de despacho de usinas térmicas, componente essencial para garantir segurança energética em períodos de baixa hidrologia.
Além disso, o encarecimento global de insumos pode pressionar custos de projetos de geração renovável, transmissão e armazenamento, afetando cronogramas e retorno de investimentos.
O cenário reforça a importância de estratégias de diversificação da matriz, expansão de fontes limpas e fortalecimento da infraestrutura elétrica, elementos-chave para mitigar a exposição a choques externos.
Volatilidade deve marcar o ciclo energético global
A combinação entre tensões geopolíticas, restrições logísticas e pressão inflacionária indica que o mercado de energia deve permanecer altamente volátil no curto e médio prazo.
Para agentes do setor elétrico, o momento exige monitoramento constante dos mercados internacionais, gestão eficiente de riscos e maior sofisticação no planejamento energético.
Em um ambiente global cada vez mais interconectado, eventos geopolíticos passam a ter impacto direto sobre custos, investimentos e segurança energética, consolidando a energia como um dos principais vetores de risco e oportunidade da economia mundial.


