Em palestra na Unicamp, Marcelo Souza de Castro defende que o mundo vive um processo de adição energética e alerta para desafios físicos, econômicos e industriais da descarbonização
A transição energética global precisa ser analisada sob a ótica da escala, do tempo de maturação tecnológica e dos limites físicos do sistema energético. A avaliação é do professor Marcelo Souza de Castro, diretor do Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO), da Universidade Estadual de Campinas, durante palestra, realizada em 23 de fevereiro, no campus da universidade.
Ao abordar os desafios estruturais da descarbonização, o pesquisador apresentou uma visão técnica sobre a transição energética, defendendo que o debate precisa incorporar dados concretos sobre demanda global de energia, infraestrutura, matriz energética e capacidade industrial.
“A transição energética global não pode ser tratada como um processo simples de substituição de fontes fósseis por renováveis”. A afirmação sintetiza a linha central da apresentação: a mudança do sistema energético mundial não ocorre por substituição imediata, mas por incorporação progressiva de novas fontes.
Adição energética e crescimento da demanda global
Marcelo Souza de Castro explicou que o mundo vive, na prática, um processo de adição energética. Novas fontes renováveis são incorporadas às matrizes, mas as fontes fósseis permanecem relevantes devido ao crescimento contínuo da demanda.
O professor destacou que o consumo global de energia primária supera 160 mil terawatts-hora (TWh) por ano, com cerca de 80% ainda provenientes de combustíveis fósseis. Mesmo em cenários climáticos ambiciosos, a demanda tende a crescer nas próximas décadas, impulsionada principalmente por economias emergentes.
Do ponto de vista do setor elétrico, o dado reforça que a expansão de fontes renováveis precisa ocorrer em ritmo compatível com o crescimento da carga, sob risco de manter elevada a participação fóssil no sistema global.
Energia não é sinônimo de eletricidade
Outro ponto central da palestra foi a distinção entre energia e eletricidade. Marcelo Souza de Castro chamou atenção para o fato de que a eletrificação ampla depende de fontes primárias que, no cenário global, ainda são majoritariamente fósseis. “energia não se confunde com eletricidade.”
Ele observou que carvão, petróleo e gás natural respondem por mais de 60% da geração elétrica mundial. Isso significa que estratégias de eletrificação, como mobilidade elétrica e substituição de processos industriais, exigem, paralelamente, uma transformação profunda na matriz de geração.
“Substituir o volume atual de energia fóssil exigiria uma expansão sem precedentes das fontes de baixo carbono, em um cenário de crescimento da demanda e restrições de infraestrutura.”
Para especialistas em planejamento energético, essa equação envolve desafios de investimento, expansão de redes, armazenamento de energia e estabilidade do sistema.
Geopolítica e segurança energética
A dimensão geopolítica também foi abordada como elemento determinante da transição energética. Marcelo Souza de Castro observou que conflitos recentes recolocaram a segurança energética no centro das decisões estratégicas de diversos países. “Conflitos recentes recolocaram a segurança energética no centro das decisões estratégicas de diversos países, levando inclusive à retomada pontual de fontes fósseis em algumas regiões”.
O pesquisador destacou ainda a desigualdade estrutural entre países desenvolvidos e regiões como África e Sul da Ásia, onde o consumo per capita de energia é significativamente inferior. Nesse contexto, o acesso à energia permanece um desafio social e econômico fundamental.
A discussão dialoga diretamente com políticas públicas de universalização do acesso e com a necessidade de equilibrar segurança energética, competitividade e redução de emissões.
A função estrutural do petróleo na economia
Marcelo Souza de Castro enfatizou que o petróleo exerce papel muito além da geração de energia. “Muito além de combustível, ele sustenta a base da petroquímica e está presente em mais de 80% dos produtos manufaturados, incluindo fertilizantes, medicamentos, plásticos, eletrônicos e materiais hospitalares.”
A substituição dessa base industrial não se resume à troca da matriz elétrica, mas envolve transformações profundas e de longo prazo na estrutura produtiva global, com impactos sobre cadeias de suprimento, indústria química e segurança alimentar.
Realismo, planejamento e pesquisa aplicada
Ao encerrar a exposição, o diretor do CEPETRO defendeu uma abordagem baseada em planejamento energético, pesquisa aplicada e análise sistêmica. “reconhecer os limites físicos, técnicos e econômicos do sistema energético não significa negar a transição, mas torná-la exequível”.
Ele acrescentou que, diante do crescimento contínuo da demanda global por energia, a substituição acelerada de fontes fósseis esbarra em restrições de escala, infraestrutura e tempo. “óleo, gás, renováveis e novas tecnologias não devem ser tratados como escolhas excludentes, mas como componentes de um sistema em transformação, cujo equilíbrio é condição para garantir segurança energética, desenvolvimento econômico e redução consistente de emissões ao longo das próximas décadas.”
O evento contou ainda com a participação do professor Marcelo Pereira da Cunha, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (NIPE), que abordou aspectos econômicos e de planejamento associados à transição energética.
A reflexão apresentada no Café COCEN reforça que a transição energética, a descarbonização e a expansão das energias renováveis precisam ser tratadas como um processo estrutural de longo prazo, tecnicamente robusto, economicamente viável e compatível com a segurança energética global.



