Energy Week expõe falhas estruturais que travam startups de energia e impede tecnologias de chegar ao mercado

Diagnóstico apresentado por Unicamp, IPT, Petrobras e setor privado mostra que erros recorrentes na relação entre startups, universidades e grandes empresas dificultam inovação em óleo, gás e energia

O setor de energia brasileiro vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que reúne competências avançadas, grande capacidade de pesquisa e um ecossistema crescente de deep techs, enfrenta uma taxa alarmante de mortalidade de startups. Esse cenário foi dissecado no painel de encerramento da Energy Week, realizada pelo CEPETRO/Unicamp entre 3 e 5 de dezembro, em Campinas (SP), onde especialistas foram diretos ao apontar por que tantas tecnologias promissoras não se transformam em negócios reais, e o que precisa mudar para evitar que o país continue desperdiçando potencial de inovação.

O debate reuniu representantes da Petrobras, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), da Unicamp e da Neo Okeanos Consultoria, com moderação de Rangel Artur, diretor-executivo associado da Inova Unicamp. Cada um, a partir de sua vivência prática, trouxe exemplos concretos de como erros estruturais, muitas vezes repetidos há anos, travam a evolução de startups de base científica, especialmente aquelas de alto rigor técnico, que dependem de validações complexas, infraestrutura especializada e ciclos longos de desenvolvimento.

P&D não é problema de negócio: por que startups estão recebendo o desafio errado

Um dos alertas mais contundentes do painel veio da Petrobras. Ao comentar a desconexão entre o que chega às startups e o que realmente o mercado precisa, o gestor de inovação aberta, pesquisa e startups da companhia, Hércules Padilha, afirmou que há um equívoco grave na forma como instituições e universidades se relacionam com esses empreendedores.

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Segundo ele, muitos programas apresentam às startups desafios essencialmente acadêmicos, sem conexão direta com demandas de mercado ou compromissos reais de contratação. Esse padrão inviabiliza o amadurecimento de soluções que nunca chegam à etapa comercial. “A gente tem levado desafios de pesquisa para startups. E aí, não vai dar certo. O pipeline precisa colocar o desafio certo.”

Padilha reforçou que uma startup só prospera quando trabalha para resolver problemas que alguém está de fato disposto a pagar para ver solucionados, e que não há destino comercial possível para tecnologia sem aplicação concreta.

Formação empreendedora insuficiente ainda compromete negócios do setor de energia

O representante da Petrobras também destacou que o setor ainda forma empreendedores muito fortes tecnicamente, mas pouco preparados para gerir um negócio. A falta de visão de mercado, governança, estratégia e gestão financeira reduz drasticamente a sobrevivência das startups.

Ao explicar essa lacuna, ele afirmou: “A gente precisa ter formação em empreendedorismo. A nossa tendência é falar só de tecnologia. Mas para ser um bom gestor, eu preciso estar constantemente me qualificado.” Em seguida, sintetizou o desafio cultural que o Brasil precisa enfrentar: “Todos nós deveríamos abraçar o desafio de emitir notas fiscais.”

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O recado foi interpretado como uma provocação necessária: sem cultura de negócio, nenhuma tecnologia avança.

Sem acesso a infraestrutura e testes, deep techs morrem antes de provar valor

A dificuldade de acessar infraestrutura mínima para validação tecnológica foi destacada por João Carlos Sávio Cordeiro, pesquisador do IPT, que trouxe ao painel o peso das barreiras que atingem principalmente startups de alta complexidade.

A ausência de laboratórios, equipamentos, ambientes de teste e financiamento inicial inviabiliza a evolução do TRL (Technology Readiness Level) dessas empresas. “Dificuldade de acesso ao capital, maturidade tecnológica, barreiras regulatórias, competição com players tradicionais, ciclo de desenvolvimento longo e custoso, especialmente no setor de energia, acesso à infraestrutura de laboratórios, dificuldade de investimento em máquinas.”

Para ele, sem condições mínimas de teste, muitas startups sequer chegam ao ponto de demonstrar valor ao mercado.

Cash burn e runway: erros de finanças que matam empresas antes do protótipo

O consultor Orlando Ribeiro, CEO da Neo Okeanos Consultoria, reforçou que, em um setor intensivo em capital como energia, gestão financeira não é opcional. Antes mesmo de dominar tecnologia, startups precisam saber quanto gastam, por quanto tempo sobreviverão e como captar os próximos recursos.

Ribeiro explicou que negligenciar indicadores básicos pode ser fatal em poucos meses. “Duas palavras são matadoras: o famoso cash burn e o runway, quanto você gasta por mês e quanto tempo vai durar o seu caixa. E de onde vai vir o próximo dinheiro. São problemas absolutamente críticos.”

Burocracia corporativa continua esmagando startups

Ribeiro também trouxe ao debate um problema estrutural de relacionamento entre grandes empresas e startups, a incompatibilidade de processos. Relembrando casos reais, destacou que atrasos simples, como a falta de autorização interna para pagamento, podem quebrar uma startup em semanas.

“O responsável não pode sair de férias e esquecer de autorizar o pagamento da startup. Em 30 dias essa empresa quebra.” Em seguida, usou a metáfora que marcou o painel: “É como um elefante dançando com um ratinho. Olhou para o lado, pisou, acabou o ratinho.”

O recado foi claro: grandes empresas precisam adaptar seus processos internos ao lidar com startups, sob pena de inviabilizar parceiros que deveriam impulsionar inovação.

Dificuldade de testar em campo trava avanço do TRL

Outro gargalo crítico discutido no painel foi a dificuldade de realizar testes operacionais reais, especialmente em plantas de energia. Orlando Ribeiro explicou que muitas empresas evitam interromper atividades para permitir testes, criando um bloqueio que impede avanço tecnológico.

“Para conseguir chegar no nível adequado do TRL, você tem que testar numa condição real de utilização. É difícil as empresas interromperem a rotina operacional para permitir a realização desse teste.”

Sem validar em campo, tecnologias ficam presas em estágios intermediários de maturidade.

Mercado global exige startups brasileiras olhando além das fronteiras

Apesar da lista de desafios, os especialistas apontaram que o Brasil possui posição privilegiada no cenário global de transição energética, o que significa oportunidades reais para exportação de tecnologia. Mas isso depende de abandonar a mentalidade exclusivamente doméstica.

Padilha resumiu: “Existe uma demanda global, existe capital disponível. Mas precisamos desenvolver a maneira como fazemos isso.”

Ecossistema da Unicamp e programas de IPT e Petrobras mostram avanços, mas gargalos são nacionais

O moderador Rangel Artur destacou iniciativas da Inova Unicamp e de sua incubadora, que já acumula 77% de taxa de sucesso em 20 anos. O IPT, segundo Cordeiro, avaliou mais de 3.600 startups e atendeu 364 ao longo de 2025, em programas presentes em 57 municípios.

Padilha, por sua vez, detalhou como a Petrobras estrutura programas de inovação aberta voltados a startups.

Apesar desses avanços institucionais, o painel destacou que muitos gargalos são sistêmicos e exigem alinhamento nacional entre empresas, universidades e governo, sob risco de perpetuar o ciclo de tecnologias promissoras que nunca chegam ao mercado.

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