Decisão sobre futuro de Angra 3 será tomada até dezembro de 2025, afirma ministro de Minas e Energia

Estudos econômico-financeiros devem ser concluídos até outubro; saída da Eletrobras cria necessidade de novos cenários para viabilidade da usina nuclear

A definição sobre o futuro da Usina Nuclear Angra 3, em Angra dos Reis (RJ), deve ocorrer até dezembro de 2025, segundo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD). A decisão do governo, a ser tomada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), depende da conclusão de estudos econômico-financeiros que estão sendo atualizados pelo BNDES e pela Eletronuclear.

O anúncio foi feito nesta quarta-feira (1º de outubro) em entrevista coletiva na sede do ministério, em Brasília. De acordo com Silveira, o governo trabalha com prazos apertados para que todos os cenários estejam claros antes da votação no CNPE.

“Há a necessidade de urgência que sejam entregues estudos complementares até a próxima reunião do CNPE, prevista para o final de outubro/começo de novembro. A meta é que a decisão final venha até dezembro”, disse o ministro.

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Estudos são reavaliados após saída da Eletrobras

A Eletrobras, que originalmente seria a principal responsável pela construção e operação de Angra 3, se retirou do contrato em meio ao processo de reestruturação societária e à revisão de prioridades de investimento. A estatal decidiu concentrar esforços em outros projetos de geração e distribuição, abrindo uma lacuna na governança e no financiamento da usina nuclear.

Com isso, o governo e o BNDES passaram a ser os principais responsáveis por avaliar a viabilidade financeira da obra. Essa mudança exigiu uma atualização profunda dos estudos de viabilidade, que agora devem considerar três cenários diferentes: a continuidade com recursos públicos, a entrada de um parceiro privado ou até a possibilidade de abandono definitivo do empreendimento.

Silveira reconheceu que o hiato criado pela saída da Eletrobras aumentou a complexidade da decisão. “Há um lapso de tempo para que essa decisão, que é tão séria de construir uma rotina com a disposição de tantos recursos do setor elétrico”, afirmou.

Angra 3: décadas de indefinição

Angra 3 é um dos projetos mais emblemáticos – e polêmicos – da matriz elétrica brasileira. Sua construção foi iniciada em 1984, mas atravessou décadas de paralisações, disputas políticas e questionamentos financeiros e ambientais. Com potência prevista de 1.405 megawatts (MW), a usina poderia abastecer cerca de 4 milhões de pessoas.

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O atraso nas obras e as constantes revisões de custos transformaram o empreendimento em um tema recorrente de debate no setor elétrico. O governo busca agora dar um encaminhamento definitivo ao projeto, seja para concluí-lo dentro de um novo modelo de negócios, seja para encerrá-lo de forma planejada.

Impactos econômicos e estratégicos

Especialistas apontam que a conclusão de Angra 3 poderia ampliar a participação da energia nuclear na matriz elétrica brasileira, atualmente em torno de 2,5%, além de reduzir a dependência do país das hidrelétricas em períodos de seca. A usina também pode contribuir para a segurança energética, por se tratar de uma fonte estável e de baixa emissão de carbono.

Por outro lado, os custos elevados e a dificuldade de atrair investidores privados continuam sendo obstáculos. Estimativas apontam que o valor necessário para concluir Angra 3 pode ultrapassar R$ 20 bilhões, dependendo do modelo de financiamento escolhido.

O BNDES avalia alternativas de parcerias público-privadas e a possibilidade de criar um arranjo societário que reduza os riscos para investidores privados, ao mesmo tempo em que garanta retorno financeiro adequado para o setor público.

Próximos passos no CNPE

A expectativa do Ministério de Minas e Energia é que o CNPE receba os estudos completos até o final de outubro ou início de novembro, para que os conselheiros possam deliberar antes do encerramento do ano. A decisão terá impacto direto na política energética nacional, já que Angra 3 está incluída no Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE).

Caso seja aprovada a continuidade das obras, será necessário definir um cronograma atualizado de execução, bem como as condições tarifárias que garantam a viabilidade do projeto sem onerar excessivamente os consumidores.

O ministro Alexandre Silveira destacou a relevância de uma definição rápida e transparente. “O que precisa ser compreendido antes que todos os membros do Conselho votem sobre a continuidade das obras é a real viabilidade de Angra 3 diante das condições atuais do setor elétrico.”

Um divisor de águas para o setor nuclear

A decisão sobre Angra 3 será um marco não apenas para a política energética, mas também para a percepção do setor nuclear no Brasil. Caso avance, o empreendimento poderá consolidar a experiência brasileira em energia nuclear e abrir espaço para novas usinas no futuro. Caso contrário, representará o fim de um dos maiores e mais longos projetos inacabados do setor elétrico nacional.

De qualquer forma, a expectativa é que dezembro de 2025 seja o ponto final para décadas de indefinições sobre o destino de Angra 3.

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