ARAYARA critica “jabutis” do PL 5.017 e alerta para impacto bilionário nas tarifas de energia até 2056

Entidade vê riscos ao planejamento do setor elétrico após inclusão de 7,4 GW em contratações compulsórias de térmicas e pequenas hidrelétricas e questiona mudanças no regime de partilha do pré-sal

A aprovação do substitutivo do Projeto de Lei nº 5.017/2019 pela Comissão de Serviços de Infraestrutura (CI) do Senado Federal abriu uma nova frente de disputa no setor elétrico brasileiro. O Instituto Internacional ARAYARA passou a liderar as críticas às emendas incorporadas ao texto, que determinam a contratação compulsória de 7,4 GW de novas usinas termelétricas a gás natural e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs e CGHs), além de promover alterações nas regras associadas ao regime de partilha do pré-sal.

Originalmente, o projeto tratava exclusivamente da ampliação dos benefícios da Tarifa Rural para atividades ligadas à perfuração de poços semiartesianos e à irrigação agrícola. A inclusão de dispositivos relacionados à expansão da geração elétrica e ao setor de petróleo e gás foi classificada por agentes do mercado e especialistas como a inserção de “jabutis” legislativos, expressão utilizada para designar matérias sem relação direta com o objeto principal do projeto.

A discussão ocorre em um momento particularmente sensível para o setor elétrico, marcado pela pressão crescente sobre os custos da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), pelos debates sobre modicidade tarifária e pela necessidade de expansão da oferta de potência firme para atender o crescimento da demanda associado à digitalização da economia, aos data centers e à eletrificação industrial.

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Reserva de mercado reacende debate sobre planejamento da expansão

Entre os pontos mais controversos do substitutivo está a obrigatoriedade de contratação regionalizada de usinas termelétricas a gás natural com elevado nível de inflexibilidade operativa, além da reserva de mercado para empreendimentos hidrelétricos de pequeno porte.

Na avaliação da ARAYARA, a medida representa uma ruptura com a lógica de planejamento centralizado conduzida pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e baseada em critérios de competitividade econômica, disponibilidade de recursos energéticos e necessidades operativas do Sistema Interligado Nacional (SIN).

A manifestação formal da entidade projeta prejuízos econômicos e impactos de longo prazo diretamente repassados à sociedade: “O texto desconsidera o planejamento técnico e cria consumidores cativos de energia fóssil, cujos custos bilionários e riscos associados serão rateados e cobrados diretamente na conta de luz de toda a sociedade pelos próximos 30 anos.”

A preocupação ganha dimensão adicional em razão da exigência de inflexibilidade mínima de 70% para parte das novas térmicas. Na prática, esse requisito obriga as usinas a permanecerem em operação contínua durante grande parte do tempo, independentemente das condições hidrológicas ou da disponibilidade de fontes renováveis de menor custo operacional.

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Especialistas do setor observam que esse tipo de contratação pode ampliar episódios de deslocamento de geração renovável, aumentar encargos sistêmicos e elevar os custos associados aos serviços de operação do sistema.

Operação do sistema pode exigir geração fóssil mesmo com abundância renovável

A obrigatoriedade de despacho contínuo das novas térmicas representa um dos principais pontos de contestação por parte das entidades ligadas à transição energética. A ARAYARA argumenta que a regra poderá obrigar o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a manter usinas fósseis em operação mesmo em períodos de elevada geração hidrelétrica, solar e eólica.

A entidade detalhou os impactos esperados dessa diretriz regulatória em manifestação encaminhada ao Senado: “A proposta ressuscita a lógica nociva das ‘térmicas com CEP’ e do ‘Brasduto’, determinando previamente a fonte, a potência e a localização geográfica de usinas com inflexibilidade mínima de 70%. Na prática, isso obriga o sistema a manter usinas poluentes ligadas continuamente, gerando cerca de 15,33 TWh por ano mesmo quando houver abundância de energia renovável mais barata. Além do severo impacto climático e ambiental, que ameaça comunidades locais e incentiva a exploração predatória de gás na Amazônia, o substitutivo ainda altera regras do regime de partilha de petróleo para repassar custos de infraestrutura privada à União, reduzindo receitas que deveriam ir para o Fundo Social e políticas públicas.”

Mudanças no pré-sal ampliam críticas ao substitutivo

Além das discussões relacionadas ao planejamento da expansão elétrica, o projeto passou a incorporar dispositivos que alteram a dinâmica financeira do regime de partilha de produção do pré-sal. A principal mudança autoriza o abatimento de determinados investimentos em infraestrutura privada diretamente das receitas associadas à exploração petrolífera, mecanismo que pode reduzir os recursos destinados ao Fundo Social do Pré-Sal.

Criado para financiar políticas públicas em áreas como educação, saúde e desenvolvimento social, o fundo tornou-se um dos principais instrumentos de redistribuição das receitas oriundas da produção offshore brasileira. Para entidades socioambientais e especialistas em política energética, a mudança amplia o escopo do projeto para além do setor elétrico e introduz discussões fiscais e petrolíferas que demandariam tramitação específica e estudos próprios de impacto econômico.

Pressão se volta agora ao plenário do Senado

Com a aprovação na Comissão de Infraestrutura, o debate se desloca para o plenário do Senado, onde agentes do mercado, associações de consumidores e entidades ligadas à transição energética devem intensificar a mobilização em torno do tema.

A principal reivindicação dessas organizações é que decisões relacionadas à expansão compulsória da matriz elétrica e às alterações no regime de partilha sejam analisadas em projetos independentes, acompanhados de estudos técnicos elaborados pela EPE, pela Aneel e pelos órgãos responsáveis pelo planejamento energético nacional.

Ao defender a retirada das emendas incorporadas ao substitutivo, a ARAYARA reforçou a necessidade de restabelecer o escopo original do projeto: “Diante disso, a ARAYARA pede que o Plenário do Senado rejeite integralmente as emendas introduzidas e resgate o mérito social original do projeto. A segurança energética do país não pode servir de pretexto para subsidiar ativos fósseis de longo prazo em benefício de interesses particulares. Temas complexos como a contratação de novas usinas e mudanças no regime de partilha precisam ser debatidos em projetos próprios, amparados por estudos transparentes de impacto tarifário, fiscal e climático, e não aprovados às pressas em votações de trinta segundos.”

A tramitação da matéria deverá se tornar um dos principais focos de atenção do setor elétrico nas próximas semanas, especialmente diante dos potenciais efeitos tarifários, fiscais e operacionais que podem se estender pelas próximas décadas.

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