ABDAN e Firjan lançam agenda estratégica para sensibilizar candidatos; documento defende o papel da tecnologia nuclear na segurança energética, na medicina e na competitividade industrial.
O setor nuclear brasileiro iniciou um movimento coordenado para posicionar sua tecnologia no centro do debate eleitoral. Em encontro promovido pela Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN) em parceria com a Firjan, líderes da indústria, parlamentares, pesquisadores e especialistas lançaram no Rio de Janeiro a “Agenda Nuclear para um Brasil Competitivo”, documento que elenca as propostas estruturais prioritárias para o próximo ciclo de governo.
A iniciativa ganha tração em meio a uma profunda transformação nos sistemas energéticos globais. A expansão acelerada de data centers, os avanços em inteligência artificial e a eletrificação de processos industriais têm exigido a expansão de fontes de geração firmes e despacháveis, ao passo que as metas de descarbonização global reposicionam a energia nuclear no radar das principais economias do mundo. Diante disso, o segmento busca consolidar a tecnologia nuclear como um vetor estratégico de política industrial, soberania e segurança energética.
Energia nuclear amplia espaço na discussão sobre competitividade
Para as lideranças reunidas no Rio de Janeiro, o debate sobre o átomo ultrapassa a fronteira da eletricidade e alcança o desenvolvimento de alta tecnologia, a criação de empregos qualificados e o fomento à indústria nacional.
Ao discursar na abertura do encontro, o presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano, destacou a relevância do segmento para o PIB fluminense e para as cadeias produtivas de alta complexidade: “O avanço do Brasil neste campo representa soberania, inovação e geração de oportunidades. Ao mesmo tempo, oferece uma contribuição estratégica para áreas de grande relevância, como saúde, indústria, agricultura e pesquisa científica. Angra 3 representa desenvolvimento tecnológico, fortalecimento da indústria nacional, geração de empregos qualificados, impulso à inovação e aumento da competitividade do país. Sua conclusão fortaleceria todo o complexo nuclear e uma cadeia produtiva que reúne mais de 700 empresas e cerca de 70 mil empregos diretos e indiretos.”
O dirigente reforçou a necessidade de expor as demandas aos concorrentes aos pleitos do Executivo e do Legislativo: “É imprescindível sensibilizar os candidatos à Presidência da República, ao Congresso Nacional e às lideranças estaduais sobre a importância desse setor para o desenvolvimento do Brasil.”
Diferente de propostas genéricas, a estratégia desenhada pela ABDAN foca em medidas pragmáticas e viáveis que possam acelerar projetos paralisados ou em ritmo lento.
Ao detalhar a elaboração da pauta, o presidente da associação, Celso Cunha, frisou o compromisso com a exequibilidade das propostas: “Construímos uma agenda focada em prioridades que podem ser executadas. O objetivo foi identificar ações concretas que contribuam para transformar o potencial já existente em resultados para o país. O Brasil possui ativos estratégicos, conhecimento técnico e uma indústria preparada para avançar.”
Reator Multipropósito Brasileiro ganha protagonismo no debate
A viabilidade do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) emergiu como um dos pontos focais das discussões. O empreendimento é apontado como vital para pôr fim à dependência nacional na importação de radioisótopos, insumos cruciais para exames de imagem e tratamentos contra o câncer na medicina nuclear. Atualmente, as oscilações logísticas e cambiais globais deixam o sistema de saúde brasileiro em vulnerabilidade de abastecimento.
Sobre o panorama de capacitação para conduzir esse projeto, a vice-presidente e diretora-geral da CMR Brasil, Sibila Grallert, avaliou o potencial técnico nacional: “O país possui conhecimento técnico acumulado e instituições capacitadas. O desafio é garantir continuidade de investimentos e governança para transformar essa capacidade em benefício direto para a população.”
O debate ganhou contornos de disputa regional com a fala do deputado federal Daniel Soranz (PSD-RJ), que propôs uma alternativa logística caso o cronograma paulista do RMB não se concretize: “Espero que São Paulo tenha capacidade de concluir esse projeto. Mas, se não tiver, nós faremos no Rio de Janeiro. Precisamos colocar esse tema nas agendas estratégicas do país. O Reator Multipropósito Brasileiro deve ser tratado como prioridade nacional e fazer parte dos compromissos assumidos pelos próximos governos.”
O parlamentar também chamou a atenção para o impacto social e humanitário da infraestrutura: “O que antes era visto apenas como um possível problema hoje se revela um dos maiores ativos para o diagnóstico e tratamento do câncer. A medicina nuclear salva vidas e precisa ser tratada como uma política estratégica de Estado.”
Angra 3 retorna ao centro da discussão energética
A viabilidade econômica e de suprimento em torno da Usina Nuclear Angra 3 também concentrou as atenções. A necessidade de adicionar carga na base do sistema elétrico para suportar a transição digital e as oscilações climáticas recolocou a usina fluminense na pauta de prioridades de infraestrutura.
O presidente da Frente Parlamentar da Tecnologia e Atividades Nucleares, deputado Julio Lopes (PP-RJ), detalhou os desdobramentos de renda e emprego decorrentes da obra: “Angra 3 é uma obra vital para a economia do Rio de Janeiro e para o Brasil. Estudos mostram que cada real investido no empreendimento gera múltiplos impactos econômicos ao longo da cadeia produtiva. É um projeto que combina geração de empregos, desenvolvimento industrial e fortalecimento tecnológico.”
O deputado conectou o avanço da usina nuclear ao futuro tecnológico do país: “Se o Brasil pretende ampliar sua participação na economia digital global, precisará de muito mais energia firme. E a energia nuclear é uma das fontes mais eficientes para atender essa demanda.”
Rio de Janeiro busca consolidar protagonismo nuclear
O fórum serviu para consolidar a pretensão do Rio de Janeiro de se manter e expandir como o grande polo nuclear do país, integrando a usina de Angra dos Reis, centros de excelência acadêmica, institutos de pesquisa e mão de obra qualificada.
Ao defender o fortalecimento desse ecossistema, o deputado federal Reimont (PT-RJ) apontou os reflexos científicos da iniciativa: “O Rio de Janeiro concentra uma parcela importante da infraestrutura nacional de pesquisa, inovação e formação de talentos. Fortalecer o setor nuclear significa fortalecer também a capacidade de desenvolvimento do estado e do país.”
Ao final do encontro, Celso Cunha destacou que a interlocução junto aos formuladores de políticas públicas será contínua ao longo de todo o período pré-eleitoral: “Este foi apenas o primeiro passo. A agenda continuará percorrendo temas fundamentais para o futuro do Brasil, sempre com foco em propostas concretas, competitividade e desenvolvimento.”
Com as eleições de 2026 no horizonte e a urgência global por segurança energética sustentável, a cadeia nuclear brasileira articula-se para transformar barreiras técnicas e burocráticas em uma agenda incontornável de soberania e inovação econômica.



