Pesquisa publicada na Nature Ecology and Evolution alerta para avanço de eventos climáticos extremos e destaca a Amazônia como uma das regiões mais vulneráveis
O avanço das mudanças climáticas começa a desenhar um cenário crítico para a biodiversidade global, com implicações diretas também para o planejamento energético e ambiental. Um estudo publicado na revista Nature Ecology and Evolution revela que até 36% dos habitats de espécies terrestres poderão ser impactados por múltiplos eventos climáticos extremos até 2085, caso o aquecimento global mantenha sua trajetória atual.
A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional liderada pelo Potsdam Institute for Climate Impact Research, analisou quase 34 mil espécies de vertebrados, incluindo aves, mamíferos, anfíbios e répteis, e identificou um aumento acelerado na exposição a eventos como ondas de calor, incêndios florestais, secas e inundações.
No centro desse risco está a Amazônia, apontada como um dos principais hotspots globais de vulnerabilidade climática.
Ondas de calor devem atingir quase todos os ecossistemas
Os dados indicam que o impacto das ondas de calor será praticamente universal. Até 2050, cerca de 74% dos habitats estarão expostos a esse tipo de evento extremo, percentual que pode alcançar 93% até o final do século.
O contraste histórico evidencia a aceleração do fenômeno: no ano 2000, apenas 18% dos habitats enfrentavam esse tipo de risco.
Além da Amazônia, regiões como o sul da África e o Sudeste Asiático também aparecem como áreas críticas, especialmente pela combinação entre aumento de temperatura e maior incidência de incêndios florestais.
Amazônia entra no radar como risco sistêmico
A relevância da Amazônia vai além da biodiversidade. Para o setor elétrico brasileiro, trata-se de um ativo estratégico, diretamente conectado à estabilidade hidrológica e à segurança energética.
O estudo aponta que a região enfrenta um aumento consistente na frequência de incêndios e ondas de calor, eventos que já demonstraram impactos severos sobre a fauna. Em 2020, incêndios no Pantanal resultaram na morte de cerca de 17 milhões de animais vertebrados, um dos episódios mais críticos já registrados no país.
Essa dinâmica reforça a interdependência entre clima, biodiversidade e energia, especialmente em uma matriz elétrica fortemente baseada em recursos hídricos.
Efeito cascata: eventos combinados ampliam danos
Um dos principais alertas do estudo está na intensificação dos impactos quando eventos extremos ocorrem de forma combinada ou sequencial.
Até 2050, cerca de 14% dos habitats devem enfrentar múltiplos eventos climáticos. Esse número pode chegar a 36% até 2085. Quando isso ocorre, os danos podem ser até 40% mais severos, acelerando a degradação ambiental e a perda de espécies.
Casos recentes reforçam essa tendência. Após os incêndios de 2019–2020 na Austrália, espécies em áreas previamente afetadas por seca sofreram perdas significativamente maiores, evidenciando o efeito cumulativo dos eventos extremos.
Impactos diretos sobre espécies e risco de extinção
A pesquisa também quantifica o impacto direto sobre a fauna global. Atualmente, já há evidências consistentes de perdas populacionais e extinções locais associadas a eventos climáticos extremos.
Cerca de 57% dos registros científicos apontam efeitos negativos sobre espécies, incluindo mais de 100 casos documentados de quedas populacionais superiores a 25%.
Espécies com áreas geográficas limitadas são as mais vulneráveis. Um exemplo emblemático é o da cacatua-negra-de-Carnaby, que perdeu aproximadamente 60% de sua população após uma única onda de calor na Austrália.
As projeções indicam que, até 2085, quase 9.800 espécies de aves poderão ter mais de 75% de seus habitats expostos a ondas de calor no cenário atual de aquecimento.
Cumprimento do Acordo de Paris pode mudar o cenário
Apesar da gravidade do diagnóstico, o estudo aponta uma janela clara de mitigação. O cumprimento das metas do Acordo de Paris pode reduzir drasticamente os impactos projetados. Nesse cenário, a exposição de habitats a múltiplos eventos extremos cairia para menos de 10% até 2085, o equivalente a evitar cerca de 75% dos impactos mais severos sobre a biodiversidade global.
A autora principal do estudo, Stefanie Heinicke, destaca a urgência da ação climática: “As mudanças climáticas, e em particular os eventos extremos, ainda estão sendo muito subestimados quando se trata de planejamento de conservação. Não será apenas uma mudança gradual de temperatura ao longo de muitos anos”.
Ao reforçar a importância da redução imediata das emissões, a pesquisadora acrescenta: “Ainda podemos fazer muita diferença se reduzirmos as emissões o mais rápido possível a partir de agora”.
Implicações para o setor elétrico e planejamento energético
Para o setor elétrico, o estudo reforça um ponto central: a transição energética não é apenas uma agenda de descarbonização, mas também de adaptação climática.
A intensificação de eventos extremos impacta diretamente:
- A previsibilidade hidrológica e a operação de reservatórios
- A segurança de ativos de transmissão e distribuição
- O custo de expansão e resiliência da infraestrutura
- A demanda por soluções como armazenamento e geração distribuída
Nesse contexto, políticas alinhadas ao Acordo de Paris ganham relevância não apenas ambiental, mas também econômica e operacional para o sistema energético.



