Unicamp desenvolve bateria de fluxo para armazenamento de energia renovável

Tecnologia com eletrodos cilíndricos e circulação interna do eletrólito alcançou cerca de 400 ciclos em laboratório e pode ser aplicada em sistemas BESS

Pesquisadores da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp desenvolveram uma bateria de fluxo voltada ao armazenamento estacionário de energia em larga escala, com arquitetura projetada para reduzir riscos de vazamento e simplificar a circulação do eletrólito. A tecnologia foi concebida para aplicações associadas à geração solar e eólica e pode contribuir para ampliar a flexibilidade do sistema elétrico.

Desenvolvida no grupo Brazilian Renewable Energies (BREnergies), a solução utiliza eletrodos cilíndricos, eletrólito aquoso e uma turbina integrada à própria bateria, dispensando o conjunto convencional de mangueiras e bombas externas. O projeto também prevê o uso de insumos disponíveis no mercado brasileiro.

A pesquisa foi conduzida durante o doutorado do engenheiro eletricista João Pedro Aguiar dos Santos, sob orientação de César Pagan e coorientação de Hudson Zanin, ambos da FEEC. A arquitetura desenvolvida deu origem a um pedido de patente depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com estratégia da Agência de Inovação Inova Unicamp.

- Advertisement -

Arquitetura reduz pontos de falha

Nas baterias de fluxo convencionais, os eletrodos são normalmente organizados em placas empilhadas, enquanto o eletrólito circula por meio de bombas e tubulações externas. A configuração amplia os pontos sujeitos a vazamentos e exige intervenções no sistema em caso de falhas em componentes hidráulicos.

A proposta da Unicamp substitui esse arranjo por células cilíndricas seladas individualmente, com um eletrodo em formato de anel maior e outro menor, posicionados concentricamente. As células podem ser conectadas em série sem a necessidade de empilhamento. Outro diferencial é a circulação interna. Uma pequena turbina instalada dentro da bateria movimenta o eletrólito, eliminando as mangueiras externas utilizadas em arquiteturas convencionais.

Santos explica que a ausência de equipamentos comerciais compatíveis com a configuração pretendida obrigou a equipe a desenvolver o sistema desde as células até os reatores utilizados nos experimentos: “Durante os estudos, percebi que não existia nenhum tipo de design ou setup experimental que pudéssemos comprar para montar a bateria. Isso foi um grande desafio, porque tivemos que montar desde as células até os reatores maiores para fazer os experimentos no laboratório.”

O desenvolvimento envolveu conhecimentos de engenharia mecânica, eletrônica e eletroquímica. O pesquisador também destaca o caráter multidisciplinar do trabalho: “Foi um sistema multidisciplinar, unindo engenharia mecânica, eletrônica e eletroquímica, e tivemos que construir tudo do zero.”

- Advertisement -

Bateria alcança 400 ciclos em laboratório

Nos ensaios de carga e descarga, a bateria de fluxo giratório alcançou aproximadamente 400 ciclos sem utilização de aditivos no eletrólito. O resultado, segundo os pesquisadores, superou referências de sistemas semelhantes avaliados nas mesmas condições, que chegaram a cerca de 100 ciclos devido ao crescimento de dendritos, estruturas que podem provocar curto-circuitos e comprometer a operação.

O teste foi interrompido por uma limitação mecânica no anel coletor responsável pelo contato elétrico do eletrodo interno, e não por uma falha eletroquímica. A pesquisa prevê melhorias nesse componente e a utilização de aditivos, com expectativa de superar 3 mil ciclos. A bateria apresentou ainda aproximadamente 98% de eficiência de carga e 82% de eficiência energética. Em uma demonstração prática, o sistema operou durante duas horas alimentando LEDs e um ventilador.

Para acompanhar o comportamento do equipamento, os pesquisadores desenvolveram um sistema de gerenciamento composto por placa eletrônica e software. A solução monitora tensão, corrente, temperatura, pH e condutividade do eletrólito e conta com uma câmera endoscópica para acompanhar a formação de dendritos no interior da bateria.

Chumbo dissolvido e insumos nacionais

A composição testada utiliza íons de chumbo dissolvidos em eletrólito aquoso, enquanto os eletrodos são produzidos com grafite. A arquitetura permite ainda a adaptação para três diferentes composições químicas. Segundo o estudo, a opção pelo chumbo aproveita uma cadeia de reciclagem já estabelecida no Brasil. O release informa que mais de 98% do material pode ser recuperado nessa cadeia.

A configuração também se diferencia das baterias tradicionais de chumbo-ácido. Nelas, placas sólidas de chumbo funcionam como eletrodos e sofrem desgaste ao longo dos ciclos. Na tecnologia desenvolvida pela Unicamp, o chumbo permanece dissolvido no eletrólito e participa de um processo de deposição e retorno à solução.

Os pesquisadores estimam vida útil de até 20 anos, condicionada à substituição do eletrólito quando houver degradação. A tecnologia utiliza ainda ácido metanossulfônico (MSA), apontado no projeto como alternativa ao ácido sulfúrico por ser biodegradável e menos tóxico e corrosivo que ácidos minerais tradicionalmente empregados nessas aplicações.

Potencial para BESS e redução de curtailment

A aplicação prioritária da tecnologia é o armazenamento estacionário de longa duração, especialmente em sistemas BESS (Battery Energy Storage Systems) associados a usinas solares e eólicas ou conectados diretamente à rede.

O armazenamento permite deslocar a utilização da eletricidade produzida em períodos de maior geração para momentos de maior demanda. No caso das renováveis variáveis, esse recurso pode ajudar a aumentar a flexibilidade operacional e reduzir restrições à geração quando a capacidade de absorção ou transporte da rede é limitada.

A tecnologia também é apresentada como potencial alternativa para aplicações em sistemas isolados e regiões dependentes de geração a diesel. Nesses casos, o armazenamento poderia reduzir a necessidade de acionamento de grupos geradores para atendimento da demanda.

O pesquisador ressalta, porém, que a arquitetura foi desenvolvida para aplicações estacionárias. Portanto, seu foco não é a mobilidade elétrica, como carros, ônibus ou caminhões.

Próximas etapas da pesquisa

O trabalho entra agora em uma etapa de investigação de condutividade, durabilidade e desempenho dos componentes, incluindo melhorias no mecanismo de contato elétrico do eletrodo interno.

A perspectiva de aplicação em sistemas BESS também insere a tecnologia no debate sobre a expansão do armazenamento de energia no Brasil, especialmente diante das discussões sobre mecanismos de contratação de capacidade e da necessidade de maior flexibilidade para acomodar o crescimento da geração solar e eólica.

Destaques da Semana

ONS propõe vincular encargo de baterias à entrega de potência na ponta

Indicador enviado à ANEEL prevê diferenciar a contribuição das...

ANEEL analisa caducidade da Enel SP na próxima terça-feira

Diretoria da agência avalia mérito do processo que pode...

Petrobras supera R$ 700 bilhões em valor de mercado após descoberta no Amapá

Estatal ganhou R$ 20,9 bilhões em um único pregão...

ANEEL rejeita recurso da Enel SP, afasta pedido de perícia e mantém processo de caducidade

Diretoria da agência mantém decisão contra perícia técnica solicitada...

Artigos

Últimas Notícias