Por Thomas Belaisch é diretor de Distribuição Elétrica e Industrial na Schneider Electric Brasil
A consolidação da digitalização como motor econômico impôs um teste de estresse inédito às fundações corporativas. Se o debate estratégico costumava orbitar na mera assimilação de novos recursos, o principal ponto de travamento passou a ser a implementação de sistemas complexos. Um levantamento da IDC indica que o mercado global de modernização digital alcançará a marca de US$ 3,4 trilhões em 2026. Contudo, essa injeção de capital esbarra em um obstáculo prático severo: um estudo do Gartner revela que a taxa de falha em migrações de CRM atinge 55%, com o custo médio de um projeto malsucedido na casa dos US$ 427 mil. Lidar com a substituição de infraestruturas converteu-se, portanto, em um risco crítico que exige extrema governança.
Historicamente, em processos de fusão ou combinação de esforços entre equipes distintas, as sinergias de portfólio, de abrangência geográfica e de ofertas comerciais tendem a monopolizar as atenções da diretoria. No entanto, a harmonização do parque tecnológico mostra-se frequentemente um desafio subestimado. Ao conectar bases operacionais, as companhias deparam-se com matrizes antagônicas, divergências agudas de compliance e assimetrias em protocolos de cibersegurança. A vivência expõe a dureza dessa prática: projetar o modelo ideal é simples, mas orquestrar a convivência dessas arquiteturas requer uma visão tática apurada.
Sob essa perspectiva, a continuidade da atividade-fim assume prioridade máxima. O faturamento diário é indispensável, e o relacionamento com os clientes deve permanecer inabalável. Para sustentar esse nível de performance sem penalizar a percepção de valor na ponta, a articulação entre as áreas de marketing, vendas e tecnologia necessita de intervenções cirúrgicas. A mobilização de forças-tarefa em finais de semana, feriados e turnos fora do horário comercial torna-se estratégica para mitigar impactos. Esse alinhamento propicia que a máquina produtiva não sofra interrupções, isolando o consumidor final dos sobressaltos internos inevitáveis de um ajuste estrutural.
A complexidade desse processo estende-se além de servidores e códigos: o fator humano dita a resiliência do projeto. A postura de quem comanda exerce influência direta sobre o comportamento do grupo. Quando os diretores ocupam a vanguarda e começam a utilizar ativamente os novos painéis, a resistência natural ao desconhecido é neutralizada. Essa gestão pelo exemplo precisa estar atrelada à escuta constante dos times, assegurando uma curva de adesão mais suave e mobilizadora.
A eficácia dessa mudança pressupõe, somada ao planejamento estratégico, uma interação orgânica com a linha de frente. Em recentes fóruns de discussão com lideranças do setor em que estive presente, um diagnóstico foi consensual: o isolamento das equipes de retaguarda nas fases iniciais gera desgastes severos. Embora a blindagem mercadológica tenha sido bem-sucedida, a falta de coleta de feedbacks precoces com o usuário interno provocou frustrações temporárias. Modelar a navegabilidade antes da adoção massiva combate gargalos práticos e corrige rotas com maior agilidade.
Outro aspecto crucial dessa evolução reside na agenda impulsionada pela inteligência artificial (IA). A IA reconfigurou as exigências analíticas, cobrando uma vigilância redobrada sobre a qualidade e a higienização do acervo de informações. Nesse contexto, a administração centralizada das aplicações desponta como um mecanismo inestimável. A restrição a programas paralelos, não incorporados ao escopo homologado da organização, ultrapassa a esfera do rigor burocrático e se consagra como a via mais eficiente de prevenção contra vazamentos. Garantir que os algoritmos consumam registros puros demanda disciplina sobre onde cada dado circula.
Estruturar as bases de um ecossistema unificado implica antecipar as urgências de amanhã. Organizações que ignorarem a escuta ativa ou mantiverem suas atualizações restritas a silos de TI encontrarão barreiras limitantes de escalabilidade, comprometendo sua competitividade em prazos cada vez mais curtos. A reestruturação metódica firmou-se, assim, como a engrenagem definitiva para alavancar a expansão corporativa, entregando eficiência, proteção intelectual e continuidade ininterrupta.


