Não há segurança elétrica sem modernização

Por Mauro Fernando Basquera Junior, diretor-técnico da Sungrow, e Fabio Lima, diretor-executivo da ABSAE (Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia).

O Brasil realizará no segundo semestre de 2026 o primeiro leilão dedicado de armazenamento por baterias da sua história. Trata-se de um marco regulatório muito aguardado pelo setor e do reconhecimento formal de que o Sistema Interligado Nacional (SIN) precisa, ao lado da contratação tradicional de potência, de um novo atributo que se tornou crítico para a operação: flexibilidade.

O SIN opera hoje sob condições estruturalmente muito diferentes da matriz hidrotérmica para a qual foi inicialmente concebido. A expansão simultânea da geração solar fotovoltaica e eólica centralizada e da geração distribuída, em ritmo superior ao crescimento da carga, transformou profundamente o perfil operativo do sistema.

Mais do que garantir oferta de energia, o desafio agora é organizar essa oferta no tempo, em um sistema que convive com rampas cada vez mais acentuadas, níveis elevados de curtailment e momentos em que opera próximo de seus limites técnicos mínimos de geração.

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É nesse contexto que o armazenamento por baterias deixa de ser uma tecnologia complementar e passa a assumir papel estratégico. Trata-se da solução tecnicamente mais aderente ao problema, com prazos de implementação significativamente menores que os de outras infraestruturas e alta competitividade econômica.

Além disso, com mais de 332 GWh contratados ou instalados globalmente até agosto de 2025, segundo a S&P, a indústria de armazenamento já opera sobre bases técnicas e contratuais amplamente consolidadas. Os mecanismos de degradação das baterias já são amplamente conhecidos, os conversores bidirecionais com capacidade grid-forming se tornaram produtos standard e os contratos de operação, manutenção e garantia de performance de longo prazo se consolidaram como prática estabelecida na indústria global.

O Brasil, portanto, não inaugura uma tecnologia experimental. Passa a incorporar, de forma estruturada, uma solução já amplamente consolidada internacionalmente e cada vez mais necessária para a operação de sistemas elétricos com alta participação de fontes renováveis variáveis.

Mais do que um evento isolado, este leilão deve marcar o início de uma nova etapa do planejamento setorial brasileiro, na qual flexibilidade passa a ocupar papel tão estratégico quanto energia e potência. O desafio do setor elétrico brasileiro já não é mais produzir energia suficiente. É conseguir operar, com segurança e eficiência, a matriz renovável que o próprio país construiu.

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