Arayara vai à Justiça contra oferta de 15 blocos no leilão da ANP

Ação civil pública questiona áreas na Bacia do Parnaíba por sobreposição com territórios quilombolas, áreas de conservação e aquíferos; entidade também contesta possibilidade de exploração de recursos não convencionais

O Instituto Internacional Arayara ajuizou uma Ação Civil Pública (ACP), com pedido de tutela de urgência, para suspender a oferta de 15 blocos exploratórios de petróleo e gás na Bacia do Parnaíba, no Maranhão e no Piauí. As áreas estão previstas no 6º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), cuja sessão pública está marcada para 7 de outubro.

A ação tramita na 8ª Vara Federal Ambiental do Maranhão e questiona, entre outros pontos, possíveis sobreposições dos blocos com territórios de comunidades tradicionais, áreas consideradas prioritárias para conservação da biodiversidade e recursos hídricos. A Arayara também sustenta que a possibilidade de exploração de hidrocarbonetos não convencionais deveria ser analisada antes da oferta das áreas.

A ANP prevê dois setores da Bacia do Parnaíba no 6º Ciclo, SPN-N e SPN-SE. Ao todo, o certame reúne blocos exploratórios em 22 setores de diferentes bacias sedimentares.

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Ação questiona impactos sobre territórios tradicionais

Segundo levantamento geoespacial apresentado pela Arayara, 73 aglomerados quilombolas teriam sobreposição territorial direta com os blocos contestados. Entre os casos citados pelo instituto estão o território quilombola Aldeia Velha, com 96,25% de sua área sobreposta ao bloco PN-T-32, e a comunidade Santa Bárbara/Lagoa de Maria Rosa/Casa Branca, com 85,96% de incidência no PN-T-33.

Os números fazem parte dos elementos apresentados pela entidade na ação judicial. A Arayara sustenta que conflitos dessa natureza não deveriam ser deslocados exclusivamente para a etapa de licenciamento ambiental, depois da eventual concessão das áreas.

A diretora executiva do Instituto Internacional Arayara, Nicole Oliveira, afirma que a oferta dos blocos, na avaliação da entidade, não teria observado adequadamente as regras aplicáveis à consulta de comunidades tradicionais. A executiva aponta como referência a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que estabelece parâmetros para consulta livre, prévia e informada de povos indígenas e tribais em decisões que possam afetá-los.

Áreas prioritárias e recursos hídricos

A contestação também envolve aspectos ambientais. De acordo com os dados apresentados pela Arayara, 14 dos 15 blocos questionados interceptam 17.696 quilômetros quadrados de áreas prioritárias associadas a Planos de Ação Nacional do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

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O instituto cita ainda a ocorrência de espécies ameaçadas, incluindo o mutum-pinima e o cuxiú-preto, além de possíveis impactos sobre sítios arqueológicos e aquíferos considerados estratégicos. Entre os recursos hídricos mencionados está o Aquífero Itapecuru, apontado como importante para o abastecimento de São Luís, além do sistema aquífero Poti-Piauí.

Essas informações integram os argumentos apresentados pela Arayara para sustentar a necessidade de uma análise prévia das sensibilidades ambientais das áreas antes da realização do certame.

Fracking entra no centro da disputa

Outro ponto da ação é o potencial de exploração de recursos não convencionais por meio do fraturamento hidráulico, conhecido como fracking. A Arayara questiona a inclusão de áreas que, segundo a entidade, apresentam potencial para esse tipo de atividade e estão próximas ou sobrepostas a aquíferos, áreas agrícolas e territórios ocupados por comunidades tradicionais.

O coordenador de Meio Ambiente e Engenharia e gerente de Licenciamento Ambiental da Arayara, Urias de Moura, cita especificamente o bloco PN-T-48 e aponta preocupações relacionadas ao consumo de água, à integridade dos poços e aos riscos de contaminação de recursos hídricos.

A controvérsia sobre a exploração de óleo e gás de fontes não convencionais também está em análise no Superior Tribunal de Justiça (STJ), no IAC 21. O tribunal discute a possibilidade de utilização do fraturamento hidráulico no país e, caso a técnica seja admitida, quais condições jurídicas e ambientais deverão ser observadas.

O tema tem alcance nacional e envolve diferentes posições sobre os riscos ambientais, a regulação da atividade e questões relacionadas à segurança energética. O STJ realizou audiência pública sobre o assunto e classificou o processo como estrutural.

Pedido é para suspender oferta e contratos

Na ação, a Arayara pede em caráter de urgência a suspensão da oferta dos 15 blocos da Bacia do Parnaíba. Caso a sessão pública ocorra antes de uma decisão judicial, a entidade requer que União e ANP sejam impedidas de homologar o resultado ou assinar os respectivos contratos. A solicitação também inclui a interrupção de eventuais atividades exploratórias nas áreas questionadas até que os pontos levantados na ação sejam analisados judicialmente.

Até o momento, o cronograma oficial da ANP mantém a sessão pública do 6º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão para 7 de outubro. O cronograma prevê a qualificação das vencedoras até 14 de outubro, a homologação do resultado até 18 de novembro e a assinatura dos contratos até 26 de fevereiro de 2027.

Disputa alcança outros blocos do ciclo

A contestação da Bacia do Parnaíba ocorre em um ciclo que reúne 495 blocos exploratórios no conjunto da Oferta Permanente de Concessão. A ANP informa que 46 empresas estão aptas a participar do 6º Ciclo.

No levantamento apresentado pela Arayara, 280 das 318 áreas analisadas pelo instituto — cerca de 88% — teriam sobreposição com locais considerados relevantes para a conservação da biodiversidade. A entidade também afirma que 66% das áreas analisadas representam novas fronteiras exploratórias.

Esses percentuais são do levantamento da própria organização e não correspondem a uma classificação oficial da ANP sobre a compatibilidade ambiental dos blocos. A agência disponibiliza, para o ciclo, informações georreferenciadas e diretrizes ambientais associadas às áreas em oferta.

O resultado da ação judicial poderá definir se os 15 blocos questionados permanecerão no certame de 7 de outubro ou se a oferta ficará condicionada à análise dos pontos levantados pela entidade.

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