Expansão da irrigação, refrigeração, armazenagem e automação aumenta dependência elétrica no campo e leva produtores a avaliar consumo, contratos e eficiência como fatores de rentabilidade
A expansão de atividades intensivas em energia está mudando a relação do agronegócio com a eletricidade. Irrigação, armazenagem de grãos, refrigeração, bombeamento, climatização e automação passaram a fazer parte de operações nas quais o custo energético pode afetar diretamente a produtividade e a margem por hectare.
Apesar disso, a gestão ainda costuma se concentrar no valor final da fatura. A análise isolada da conta não mostra, necessariamente, se a demanda contratada está adequada, se os equipamentos operam nos horários mais eficientes ou se o contrato acompanha a variação do consumo entre safra e entressafra.
O desafio ganha dimensão com a expansão da agricultura irrigada. O Brasil tem cerca de 8,5 milhões de hectares irrigados, com potencial estimado de chegar a 55 milhões. Nesse cenário, a disponibilidade de energia confiável e a capacidade de controlar seu custo passam a ser elementos relevantes para a expansão da atividade.
Energia entra na produtividade da propriedade
A dependência elétrica não está restrita à irrigação. O consumo também está associado ao bombeamento de água, secagem e armazenagem de grãos, climatização de granjas, ordenha mecanizada e refrigeração de leite, carnes, frutas e hortaliças.
Para Gustavo Sozzi, CEO da Lux Energia, o avanço dessas atividades exige que a eletricidade seja incorporada à gestão dos principais insumos da produção rural: “A energia deixou de ser apenas uma conta que chega no fim do mês. Em propriedades com irrigação, refrigeração ou armazenagem, ela está diretamente ligada ao volume produzido, à conservação dos alimentos e à rentabilidade da operação. Por isso, precisa ser administrada como um insumo.”
A busca por redução de consumo, porém, não deve ocorrer de forma indiscriminada. Em determinadas atividades, cortar energia pode gerar um prejuízo maior do que a economia obtida. Reduzir a irrigação durante uma fase crítica da cultura, limitar a refrigeração ou postergar a secagem de grãos, por exemplo, pode comprometer a qualidade ou a produtividade. Por isso, o foco passa a ser a eficiência energética, e não simplesmente o menor consumo possível.
Demanda e sazonalidade afetam custo
Entre os fatores que podem elevar o custo estão a contratação de demanda acima da necessidade real, a operação simultânea de equipamentos, o uso concentrado em períodos mais caros e contratos que não acompanham as mudanças no perfil de consumo.
A avaliação também precisa considerar a produtividade. Sozzi diferencia o aumento de consumo decorrente da expansão da atividade de uma elevação provocada por ineficiência operacional: “Uma propriedade pode ter um consumo elevado porque está produzindo mais, o que não representa necessariamente um problema. A ineficiência aparece quando a conta cresce sem que exista aumento proporcional da produção ou quando custos poderiam ser evitados com ajustes operacionais e contratuais.”
A sazonalidade acrescenta outra variável à equação. O consumo de uma propriedade pode mudar conforme o regime de chuvas, temperatura e estágio das atividades agrícolas. Um contrato dimensionado para o pico da safra pode representar capacidade ociosa durante a entressafra.
Custo por hectare amplia diagnóstico
A evolução da gestão rural tende a levar o gasto energético para os indicadores de desempenho da produção. Em vez de acompanhar somente o valor mensal da fatura, o produtor pode relacionar a despesa ao hectare irrigado, tonelada armazenada, litro de leite refrigerado ou volume processado.
Esse cruzamento permite identificar se o aumento do gasto acompanha uma expansão da produção ou se resulta de perda de eficiência. Também cria uma referência para comparar diferentes períodos e avaliar investimentos em equipamentos, automação ou geração própria.
A energia entra ainda na gestão de risco operacional. Interrupções ou oscilações podem afetar sistemas de irrigação, câmaras frias, granjas automatizadas e processos que dependem de temperatura controlada, transformando uma ocorrência elétrica em perda produtiva.
Mercado livre e geração própria entre alternativas
A resposta não é necessariamente a mesma para todas as propriedades. Dependendo do perfil de carga, localização e estrutura da operação, alternativas podem incluir ajustes contratuais, eficiência energética, geração distribuída, autoprodução ou migração para o mercado livre de energia.
Para Sozzi, a escolha deve partir do conhecimento detalhado do consumo e não da busca imediata por uma solução específica: “O ponto de partida deve ser conhecer como, quando e onde a energia é consumida. Sem esse diagnóstico, o produtor corre o risco de contratar uma solução que parece econômica, mas não corresponde às necessidades da propriedade.”
A mudança acompanha a própria modernização do agronegócio, que incorporou máquinas, sensores, automação e sistemas de monitoramento à produção. Para o executivo, a gestão da eletricidade precisa avançar na mesma direção: “O campo incorporou máquinas, sensores e sistemas cada vez mais sofisticados. A energia que sustenta essa estrutura também precisa ser planejada. Quem conhece o próprio perfil de consumo consegue controlar custos e proteger a produtividade sem tomar decisões apenas pela fatura.”
Nesse cenário, a eletricidade deixa de ser tratada apenas como despesa operacional e passa a integrar indicadores de custo, produtividade e risco. Para propriedades com elevada dependência energética, essa mudança de abordagem pode ser determinante para dimensionar contratos, investimentos e estratégias de suprimento de acordo com o ciclo produtivo.


