Centro de pesquisas aponta maior exposição de linhas, subestações e redes de distribuição a eventos extremos; Sul, Sudeste e Centro-Oeste podem ter aumento das precipitações, enquanto Norte e Nordeste enfrentam cenário mais seco
O Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel) alerta para a necessidade de reforçar o planejamento operacional do setor diante da intensificação do El Niño em 2026. Embora o fenômeno possa favorecer a recuperação dos reservatórios em regiões estratégicas para a geração hidrelétrica, a combinação de chuvas intensas, ventos fortes, calor e baixa umidade pode elevar a exposição de ativos de geração, transmissão e distribuição a ocorrências climáticas severas.
A avaliação ganha relevância diante das projeções mais recentes da NOAA, que mantém o El Niño em curso e estima 81% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026. A agência também projeta 97% de probabilidade de persistência do evento até o início da primavera de 2027.
Transmissão concentra exposição
No sistema de transmissão, tempestades com ventos intensos podem provocar danos estruturais, incluindo queda de torres e interrupções no fornecimento. O aumento das temperaturas também pode acelerar processos de degradação do isolamento elétrico e elevar a ocorrência de falhas em equipamentos.
As queimadas acrescentam outro vetor de risco. Em períodos de calor e baixa umidade, a propagação do fogo pode atingir faixas de servidão e comprometer linhas de transmissão, criando ocorrências com potencial de afetar simultaneamente diferentes ativos.
O Cepel estima que eventos extremos de precipitação possam aumentar, em média, cerca de 30% nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. As três regiões concentram mais da metade das linhas de transmissão e das subestações com tensão superior a 500 kV do país, ampliando a relevância operacional do cenário.
Para Katia Garcia, líder de sustentabilidade do Cepel, a recuperação dos reservatórios não elimina os riscos associados ao fenômeno e exige uma avaliação mais ampla dos impactos sobre a infraestrutura: “A observação dos eventos do El Niño ocorridos de 1961 a 2023/2024 mostra que, neste ano de 2026, os reservatórios serão beneficiados com uma recuperação hídrica. Porém, o fenômeno pode ampliar os riscos para linhas de transmissão, subestações e redes de distribuição, com eventos extremos regionalizados que acometerão boa parte do território nacional.”
Impactos são diferentes entre regiões
O comportamento do El Niño não é uniforme sobre o território brasileiro. Estudos citados pelo Cepel apontam aumento das precipitações no Sul (+31%), Sudeste (+28%) e Centro-Oeste (+27%), enquanto Norte e Nordeste podem registrar redução de 6% e 3%, respectivamente.
Essa distribuição tem implicações distintas para a operação do sistema. Enquanto maiores volumes de chuva podem favorecer a recuperação dos reservatórios no Centro-Sul, condições mais secas no Norte e Nordeste podem aumentar a relevância de fontes complementares, especialmente eólica e solar.
No lado da geração hidrelétrica, temperaturas mais elevadas também podem aumentar a evaporação dos reservatórios. Assim, o efeito positivo de maior precipitação precisa ser analisado em conjunto com temperatura, distribuição temporal das chuvas e condições de operação das bacias.
Resiliência passa a integrar planejamento
Para o Cepel, o principal desafio é transformar as projeções climáticas em decisões concretas de operação e investimento. Isso envolve mapear a exposição dos ativos, identificar vulnerabilidades regionais e simular cenários que contemplem tanto estiagens quanto precipitações acima da média.
A capacidade de resposta também varia conforme a maturidade da gestão de ativos de cada empresa. Sistemas de monitoramento, manutenção preventiva e planejamento de contingência podem reduzir a duração e a extensão das ocorrências, embora eventos severos ainda possam gerar custos com intervenções emergenciais, reconstrução e recomposição da infraestrutura.
Katia Garcia ressalta que a preparação precisa abranger toda a cadeia elétrica, e não apenas os ativos de geração: “A preparação das empresas do setor será fundamental para antecipar e prevenir riscos, reduzir impactos operacionais e fortalecer a infraestrutura elétrica. O desafio não está apenas na geração de energia, mas também na capacidade de transmissão e distribuição suportarem eventos climáticos cada vez mais intensos.”
Rio Grande do Sul expôs vulnerabilidade
A necessidade de incorporar riscos climáticos à gestão de ativos ganhou evidência após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. O episódio afetou instalações elétricas e mostrou como eventos hidrológicos extremos podem provocar impactos que ultrapassam os limites de uma instalação e gerar efeitos em cadeia sobre a rede. A experiência reforça a necessidade de considerar variáveis climáticas na localização, especificação, manutenção e modernização dos equipamentos.
“O aumento da intensidade dos eventos climáticos representa uma preocupação das empresas para os seus ativos. A enchente histórica que atingiu o Rio Grande do Sul, em 2024, evidenciou a vulnerabilidade de instalações submetidas a grandes volumes de água, com impactos em subestações e linhas de transmissão, com efeito cascata tanto localmente, quanto no SIN”, afirma Katia.
Dados climáticos ganham peso nas decisões
Além da operação, o risco climático começa a ter impacto sobre governança, investimentos e acesso a capital. Empresas do setor elétrico são cada vez mais pressionadas a identificar e comunicar riscos e oportunidades associados às mudanças climáticas, inclusive em informações destinadas a investidores e financiadores.
Nesse ambiente, o Cepel defende a utilização de modelagem climática, inteligência de dados, monitoramento de ativos, simulação elétrica e avaliação de riscos para transformar previsões em critérios de priorização de investimentos.
O diretor de Infraestrutura e Negócios do Cepel, Rodrigo Regis, relaciona a adaptação climática à própria estratégia empresarial das companhias de energia: “Os eventos climáticos extremos deixaram de representar apenas um desafio ambiental e passaram a ser um tema estratégico para as empresas de energia. Transformar dados em inteligência operacional e planejamento é o caminho para aumentar a resiliência da infraestrutura e garantir segurança energética. O Cepel atua justamente conectando ciência, tecnologia e inovação para apoiar o setor nessa transformação.”
Para Katia Garcia, a antecipação dos riscos permite associar a agenda climática à alocação de capital e à continuidade operacional: “Antecipar os efeitos do El Niño por meio de dados, monitoramento e planejamento permite que as empresas construam uma agenda mais robusta de gestão de risco climático. A identificação antecipada das vulnerabilidades fortalece a capacidade de adaptação, resposta e recuperação, orientando investimentos, reduzindo impactos e aumentando a confiabilidade do sistema elétrico. Por isso, a agenda climática deve ser tratada não apenas como uma agenda ambiental, mas como uma agenda de negócios, capaz de orientar decisões estratégicas, proteger ativos e fortalecer a resiliência das organizações.”
A combinação entre sistemas inteligentes de gestão de redes, monitoramento, inovação em materiais, ensaios laboratoriais e ferramentas de otimização do ciclo de vida dos ativos tende, nesse cenário, a ganhar espaço na estratégia das empresas. Para o setor elétrico, o desafio colocado pelo El Niño não se limita à disponibilidade de energia: envolve a capacidade de gerar, transmitir e distribuir eletricidade com confiabilidade diante de eventos climáticos mais intensos e regionalizados.



