Avanço das renováveis intensifica intermitência, pressiona contratos e impulsiona soluções como BESS para gestão de risco e segurança energética
A crescente volatilidade de preços no mercado livre de energia está redefinindo a atuação dos consumidores, que passam a exercer maior protagonismo na gestão de contratos e na mitigação de riscos. O movimento, observado durante o segundo dia do ESS 2026, em São Paulo, sinaliza uma mudança estrutural na dinâmica de contratação e consumo no setor elétrico brasileiro.
Em um ambiente marcado pela expansão acelerada de fontes renováveis e pela complexidade crescente da operação do sistema, empresas consumidoras têm buscado maior previsibilidade de custos e segurança de suprimento, fatores que colocam novas tecnologias, como sistemas de armazenamento por baterias (BESS), no centro da estratégia energética corporativa.
Renováveis ampliam eficiência, mas elevam complexidade contratual
A consolidação de fontes como solar e eólica no Brasil trouxe ganhos relevantes de competitividade no custo de geração. No entanto, a natureza intermitente dessas tecnologias passou a impactar diretamente a formação de preços e a estrutura dos contratos no mercado livre.
Durante o painel sobre sistemas híbridos e armazenamento, a head de Consulting Services da CELA, Marília Rabassa, destacou o desafio crescente de garantir previsibilidade em um cenário de maior oscilação: “A solar e a eólica são hoje as fontes mais baratas, mas a gente não controla”.
A avaliação evidencia um dos principais dilemas atuais do setor: embora o custo marginal de geração tenha caído, a dificuldade de modulação dessas fontes eleva o custo total das operações quando se busca entregar energia em perfil flat, exigência comum de consumidores industriais e comerciais.
Descolamento entre contrato e físico aumenta exposição ao risco
Outro ponto central do debate foi o desalinhamento entre contratos financeiros e a entrega física da energia, fenômeno que se intensifica com a volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD).
O diretor-presidente da Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica (ABCE), Alexei Vivan, ressaltou que esse descompasso tende a gerar impactos relevantes para todos os agentes do mercado: “Uma coisa é o contrato, outra coisa é o físico. Isso gera exposição para o gerador e pode virar problema para o consumidor”.
A análise reforça que o risco de mercado deixou de ser uma variável secundária e passou a ocupar posição central na tomada de decisão, exigindo estratégias mais sofisticadas de hedge, diversificação e gestão de portfólio energético.
Baterias ganham espaço como ferramenta de gestão e eficiência
Diante desse cenário, os sistemas de armazenamento por baterias (BESS) surgem como uma das principais soluções para reduzir a exposição à volatilidade e aumentar a confiabilidade do fornecimento.
A tecnologia permite armazenar energia em momentos de menor custo, tipicamente em períodos de alta geração renovável, e utilizá-la em horários de pico, quando os preços são mais elevados. Esse mecanismo, conhecido como energy shifting, tem se consolidado como uma ferramenta relevante para otimização de custos e ajuste do perfil de consumo.
No segmento industrial e comercial, aplicações “atrás do medidor” já apresentam ganhos concretos. De acordo com Francisco Burmann, da WEG, projetos com baterias vêm alcançando retorno financeiro em prazos competitivos:
Projetos baseados em energy shifting já apresentam retorno entre dois e três anos em regiões com maior variação tarifária ao longo do dia. Esse avanço indica que o armazenamento de energia deixa de ser apenas uma solução tecnológica emergente e passa a integrar a estratégia econômica das empresas consumidoras.
Flexibilidade da demanda exige maior engajamento do consumidor
Além da adoção de tecnologias, o setor também observa uma transformação no comportamento do consumidor, que passa a ter papel mais ativo na gestão da demanda.
Durante a discussão sobre flexibilidade e gestão de carga, o diretor de energia elétrica da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia e Consumidores Livres (ABRACE), Victor Iocca, destacou a necessidade de aproximação entre o setor e o usuário final: “É preciso tornar esse trabalho cada vez mais concreto e próximo do consumidor, inclusive com o uso de novos canais e formas de comunicação”.
A fala evidencia um desafio estrutural: a ampliação da flexibilidade do sistema depende não apenas de tecnologia, mas também de informação, transparência e capacidade de engajamento dos consumidores.
Integração ao sistema e desafios regulatórios
O avanço das baterias também levanta discussões relevantes sobre sua integração ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Entre as aplicações em debate estão serviços ancilares, como controle de frequência e tensão, além da possibilidade de contratação por meio de leilões de reserva de capacidade.
Apesar do potencial, o setor ainda enfrenta desafios regulatórios importantes, especialmente na definição de modelos de remuneração e regras operacionais para viabilizar economicamente essas soluções em larga escala.
Mudança estrutural no setor elétrico
O conjunto de transformações observado no encontro, aponta para uma mudança estrutural no setor elétrico brasileiro. A combinação entre maior participação de renováveis, volatilidade de preços, digitalização e novas tecnologias está redesenhando o papel do consumidor, que passa de agente passivo para protagonista na gestão de energia.
Nesse novo contexto, eficiência energética, flexibilidade e inteligência na contratação deixam de ser diferenciais e se tornam elementos essenciais para a competitividade das empresas.



