Setor elétrico chega à primavera com reservatórios elevados e alerta para El Niño forte

Previsão de chuvas favorável ao Sudeste/Centro-Oeste contrasta com risco de vendavais e temperaturas elevadas em diferentes regiões do país

O setor elétrico brasileiro entra na primavera, a partir de 22 de setembro, com níveis elevados de armazenamento nos principais reservatórios do Sistema Interligado Nacional (SIN), após um período seco menos severo no Sudeste/Centro-Oeste. Ao mesmo tempo, a previsão de um El Niño de forte intensidade aumenta a necessidade de acompanhamento das condições hidrológicas, dos ventos e das temperaturas ao longo da estação.

A NOAA aponta mais de 90% de probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026/27. Para outubro a dezembro, a agência estima ainda 75% de chance de um evento histórico, considerando o índice RONI.

A análise da Nottus indica que o cenário hidrológico tende a permanecer favorável no Sudeste/Centro-Oeste, enquanto o Sul deve registrar precipitações acima da média. Em contrapartida, a atuação do fenômeno climático pode alterar o regime de chuvas e ventos e elevar a atenção sobre a infraestrutura de transmissão e distribuição.

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Sudeste/Centro-Oeste começa estação chuvosa com estoques elevados

De acordo com a Nottus, o período seco teve menor intensidade no Subsistema Sudeste/Centro-Oeste, permitindo a chegada da primavera com níveis elevados nos reservatórios. A previsão aponta chuvas dentro da normalidade ou ligeiramente acima da média na região.

O meteorologista e sócio-diretor da consultoria, Alexandre Nascimento, avalia que a condição de partida reduz a pressão sobre o armazenamento no início da estação úmida: “O período seco deste ano não foi tão intenso no Subsistema SE-CO e herdamos do último período úmido reservatórios bem cheios. Ao longo da primavera deve chover dentro da normalidade ou um pouco acima da média no Subsistema. No Sul, a previsão é de chuva bem acima do normal.”

Para outubro e novembro, a consultoria projeta maior concentração de precipitações entre Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, com avanço para outras áreas do Sudeste, Centro-Oeste e oeste da Amazônia.

Chuva favorece geração, mas ventos elevam risco operacional

A distribuição das precipitações também tem implicações distintas entre as regiões. Em São Paulo, a expectativa de regularidade das chuvas tende a contribuir para os aportes no Sistema Cantareira. Em Minas Gerais, a previsão de precipitações no centro-sul do estado favorece as afluências para reservatórios relevantes do sistema elétrico.

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O comportamento dos ventos, porém, introduz um fator adicional de atenção. A Nottus prevê ventos acima da normalidade no Centro-Sul, aumentando o risco de vendavais e, consequentemente, de ocorrências que possam afetar redes de transmissão e distribuição.

Nascimento chama atenção para a mudança observada na ocorrência de rajadas intensas: “Antigamente, não víamos ventos tão facilmente chegando à marca de mais de 100 km/hora. Na cidade de São Paulo, o primeiro registro foi justamente em 2023.”

O mesmo regime de ventos também pode favorecer a geração eólica, criando efeitos distintos para a operação do sistema: enquanto rajadas extremas representam risco para ativos físicos, condições de vento favoráveis podem elevar a produção dos parques eólicos.

Temperaturas exigem atenção à carga

Além da hidrologia e dos ventos, o comportamento das temperaturas será outro fator relevante para o setor elétrico. Segundo a análise da Nottus, Norte e Nordeste devem concentrar os episódios de calor mais intenso e prolongado. No Sudeste e no Centro-Oeste, a expectativa também é de temperaturas acima da média, embora com ondas de calor menos frequentes e duradouras.

Para a operação do SIN, temperaturas elevadas podem alterar o perfil de demanda por eletricidade, especialmente em períodos de maior utilização de sistemas de climatização. A combinação entre carga, disponibilidade hídrica, geração variável e condições de transmissão será determinante para o comportamento operacional ao longo da primavera.

El Niño aumenta necessidade de monitoramento

O atual episódio de El Niño já apresenta forte aquecimento das águas do Pacífico Equatorial. Em setembro, a NOAA registrou anomalias superiores a 3°C no Pacífico Equatorial oriental e apontou continuidade do fortalecimento do fenômeno até o fim do ano.

Para Nascimento, a combinação entre a intensidade prevista do fenômeno e o atual patamar das temperaturas globais exige atenção adicional dos agentes do setor: “Estamos diante dos efeitos de um El Niño muito forte atuando em um planeta que já apresenta temperaturas excepcionalmente elevadas. É uma condição ainda sem precedentes recentes e que exige acompanhamento constante dos possíveis impactos sobre o setor elétrico e a disponibilidade dos recursos energéticos do país.”

O quadro para a primavera, portanto, combina uma condição inicial favorável dos reservatórios com fatores meteorológicos que podem produzir impactos distintos sobre geração, carga e infraestrutura. Para os agentes do SIN, a evolução das afluências, das temperaturas e dos eventos extremos será determinante para avaliar a trajetória das condições operativas nos próximos meses.

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