CEO da Shell Plc projeta déficit prolongado de oferta e destaca impacto direto sobre preços de gás e despacho termelétrico
A escalada da crise no Estreito de Ormuz colocou o mercado global de energia em um cenário de estresse sem precedentes. A interrupção parcial do fluxo de petróleo e gás natural liquefeito (GNL) por uma das principais rotas logísticas do mundo já retirou cerca de 20% da oferta global de hidrocarbonetos, afetando diretamente exportadores-chave como Iraque, Kuwait e Catar.
Nesse ambiente de restrição de oferta, a competição por suprimentos alternativos se intensificou, sobretudo na Ásia, elevando preços e pressionando cadeias globais de energia. O impacto se estende ao setor elétrico, que depende do gás natural como fonte complementar para garantir segurança energética.
Shell alerta para escassez prolongada de energia
O CEO da Shell Plc, Wael Sawan avalia que o atual desequilíbrio entre oferta e demanda não será resolvido no curto prazo. A expectativa é de que o mercado permaneça pressionado por meses ou até mesmo ao longo de 2026.
Durante análise concedida à Bloomberg TV, o executivo detalhou a magnitude da disrupção recente: “Estamos falando de aproximadamente 900 milhões de barris que não foram produzidos nos últimos dois meses e isso foi substituído essencialmente pela redução de estoques. Agora estamos começando a atingir níveis relativamente baixos. Estamos falando de redução de demanda em certas áreas. Estamos falando de substituição de combustíveis.”
A avaliação reforça o diagnóstico de que o sistema energético global está operando em regime de contingência, com forte dependência de estoques estratégicos.
Erosão de estoques e ajuste forçado da demanda
A utilização intensiva de reservas para compensar a perda de produção no Oriente Médio começa a mostrar sinais de esgotamento. A redução dos estoques globais, combinada à dificuldade de recomposição da oferta, tem levado a ajustes forçados na demanda e à substituição de combustíveis em diferentes mercados.
Esse movimento cria um ciclo de retroalimentação: a escassez eleva preços, reduz consumo em alguns segmentos e, ao mesmo tempo, estimula a busca por fontes alternativas de energia.
No setor elétrico, o reflexo imediato é o aumento do custo do gás natural, insumo essencial para o despacho de usinas termelétricas, especialmente em momentos de menor geração hidrelétrica.
Aquisição bilionária no Canadá reforça estratégia da Shell
Como resposta ao cenário de incerteza, a Shell Plc anunciou a aquisição da produtora canadense ARC Resources Ltd. por US$ 13,6 bilhões. O movimento, o maior da companhia em mais de uma década, visa fortalecer sua posição em ativos de gás natural em regiões consideradas estáveis.
A estratégia está alinhada à necessidade de garantir segurança de suprimento no médio e longo prazo, especialmente para atender à demanda asiática por GNL. A operação também sustenta o desenvolvimento do projeto LNG Canadá, ampliando a capacidade de exportação fora do eixo tradicional do Oriente Médio.
Ao avaliar o cenário prospectivo, Wael Sawan reforça a expectativa de continuidade do aperto no mercado: “Os balanços de oferta e demanda vão ficar apertados pelo menos nos próximos meses, se não no próximo ano ou mais, dadas as recentes interrupções.”
GNL no centro da crise energética global
O impacto do bloqueio em Ormuz vai além do petróleo e atinge diretamente o mercado de GNL, fundamental para a segurança energética de regiões como Europa e Ásia.
Com restrições logísticas severas, países como o Catar enfrentam dificuldades para manter o fluxo regular de exportações, o que altera rotas comerciais e intensifica a competição por cargas disponíveis.
Esse cenário reforça a importância de ativos localizados fora de áreas geopolíticas sensíveis, como América do Norte e Austrália, que passam a desempenhar papel estratégico na estabilidade do fornecimento global.
Reflexos no setor elétrico e inflação energética
Para o setor elétrico, a crise se traduz em maior volatilidade e elevação estrutural de custos. O encarecimento do gás natural impacta diretamente o custo marginal de operação, elevando o preço da energia em mercados que dependem do despacho térmico.
Além disso, a persistência de preços elevados de energia tende a pressionar a inflação global, com efeitos em cascata sobre cadeias produtivas e políticas monetárias.
Em economias emergentes, esse cenário pode comprometer a competitividade industrial e aumentar a vulnerabilidade energética, especialmente em países com menor diversificação de fontes.
Segurança energética redefine estratégias globais
A crise no Estreito de Ormuz reforça a centralidade da segurança energética na agenda global. A dependência de rotas críticas e a concentração geográfica da produção de hidrocarbonetos evidenciam fragilidades estruturais do sistema.
Diante desse contexto, grandes players do setor passam a priorizar investimentos em ativos resilientes, diversificação geográfica e integração entre fontes de energia.
Para o setor elétrico, o cenário aponta para a necessidade de acelerar a transição energética, ampliar a participação de renováveis e investir em soluções de armazenamento e flexibilidade operacional.



