Digitalização amplia a exposição de parques eólicos a ataques cibernéticos. Estudo da Vestas aponta crescimento de 87% nos ataques de ransomware contra ambientes industriais em 2024 e defende integração entre segurança digital, operação e gestão de riscos.
A expansão da digitalização na geração eólica está elevando a cibersegurança à condição de tema estratégico para a gestão de ativos e a continuidade operacional do setor elétrico. A conexão de sistemas de supervisão, controle remoto e monitoramento amplia a eficiência das usinas, mas também aumenta a exposição das instalações a ataques capazes de comprometer equipamentos, interromper a geração e afetar a operação dos sistemas elétricos.
Estudo divulgado pela Vestas aponta que a proteção dos ambientes industriais deixou de ser uma atribuição restrita às equipes de Tecnologia da Informação (TI) e passou a exigir participação direta da alta liderança, com reflexos nas decisões de investimento, engenharia e gestão de riscos. O movimento ganha relevância na América Latina, onde a expansão das fontes renováveis ocorre paralelamente à crescente integração digital dos ativos de geração.
Nos parques eólicos, a utilização de sistemas SCADA, redes de comunicação, sensores e plataformas de monitoramento centralizado cria uma infraestrutura operacional interdependente. Uma vulnerabilidade nesses ambientes pode ultrapassar os limites da segurança da informação e atingir diretamente a disponibilidade dos aerogeradores.
O Head of Power Plant Solutions da Vestas para a América Latina, Vinicius Ribeiro Niedzwiecki, destaca que a conectividade amplia os pontos de exposição dos ativos e exige uma abordagem que considere os efeitos dos incidentes sobre a geração e a segurança operacional: “Os parques modernos dependem de sistemas SCADA, conectividade remota, monitoramento centralizado, redes de comunicação e plataformas de suporte operacional. Essas tecnologias são essenciais para operar e otimizar a geração, mas também ampliam a superfície que precisa ser protegida. À medida que a energia eólica ganha participação nas matrizes elétricas da América Latina, uma interrupção nesses ambientes pode afetar a continuidade da geração, comprometer o valor dos ativos e, dependendo de seu alcance, gerar desafios para a estabilidade dos sistemas elétricos. Por isso, a Vestas considera que a resiliência cibernética deve estar no radar da alta liderança e fazer parte das decisões sobre investimentos, operação e gestão de riscos.”
Ataques a ambientes industriais elevam exposição do setor elétrico
Os indicadores de segurança cibernética reforçam a dimensão do risco para as infraestruturas de energia. O IBM Cost of Data Breach Report 2025 aponta custo médio de US$ 4,83 milhões por violação de dados no segmento energético, acima da média global de US$ 4,44 milhões.
Outro levantamento, realizado pela consultoria especializada em segurança industrial Dragos, identificou crescimento de 87% nos ataques de ransomware contra ambientes de Tecnologia Operacional (TO) e Sistemas de Controle Industrial (ICS) em 2024. O estudo também aponta uma alta adicional de 64% em 2025.
A exposição desses ambientes tem implicações distintas das observadas em sistemas corporativos convencionais. Enquanto incidentes em plataformas administrativas podem comprometer dados e processos internos, ataques a sistemas de controle industrial podem afetar equipamentos físicos, interromper processos produtivos e comprometer a disponibilidade de instalações.
No setor elétrico, essa distinção é particularmente relevante porque a proteção precisa considerar a continuidade da operação, os requisitos de segurança dos equipamentos e as consequências de eventuais intervenções nos sistemas de controle.
O Cyber Security Lead Specialist da Vestas para a América Latina, Eduardo Javier Zagal, avalia que o desafio das empresas está em transformar os controles de segurança em capacidade efetiva de prevenção e resposta: “O setor já superou a etapa de discutir se OT deve ser protegida. A questão agora é a rapidez com que as organizações conseguem transformar visibilidade, governança de acessos, gestão de vulnerabilidades, monitoramento e resposta a incidentes em uma capacidade operacional integrada. Sem essa conexão, uma empresa pode ter controles e, ainda assim, não estar preparada para tomar decisões durante um evento real.”
Cinco frentes para proteger parques eólicos
A análise da Vestas identifica cinco prioridades para estruturar a resiliência cibernética de usinas eólicas, considerando as particularidades dos ambientes industriais e a necessidade de preservar a disponibilidade dos ativos.
A primeira é a visibilidade dos ativos de Tecnologia Operacional, com identificação dos equipamentos conectados, protocolos de comunicação e dependências entre redes. O mapeamento permite reconhecer pontos vulneráveis e compreender quais componentes podem ser afetados por um incidente.
A segunda envolve a governança de identidades e acessos, especialmente diante da utilização de conexões remotas e da participação de fornecedores terceirizados na manutenção e no suporte técnico. O controle de credenciais privilegiadas e a rastreabilidade das atividades são fundamentais para reduzir acessos indevidos.
A terceira prioridade é a gestão de vulnerabilidades adaptada à operação industrial. A aplicação de atualizações e correções de segurança precisa considerar a criticidade dos equipamentos e os impactos de eventuais intervenções sobre a continuidade da geração. Diferentemente dos ambientes corporativos, nem sempre é possível interromper sistemas operacionais para executar procedimentos de manutenção.
O quarto eixo é o monitoramento contínuo e a resposta a incidentes. A identificação antecipada de comportamentos anormais precisa estar associada a protocolos de atuação previamente definidos, com responsabilidades claras para as equipes envolvidas.
Por fim, a fabricante defende a incorporação da cibersegurança a todo o ciclo de vida dos ativos, desde a engenharia e o comissionamento até a operação, manutenção e descomissionamento dos aerogeradores. A abordagem busca evitar que a proteção seja tratada como uma adequação posterior à instalação dos equipamentos.
Para Niedzwiecki, a efetividade dessas medidas depende da continuidade das decisões de engenharia e gestão ao longo da vida útil das usinas: “A resiliência não é adquirida como uma solução pontual. Ela é construída com decisões consistentes durante toda a vida do parque. Isso exige conectar a arquitetura tecnológica à realidade da operação, priorizar de acordo com o impacto potencial sobre a geração e revisar continuamente se os controles continuam respondendo a um ambiente em transformação.”
Regulação avança em ritmos diferentes na América Latina
A evolução da cibersegurança também coloca pressão sobre os marcos regulatórios e os modelos de governança do setor elétrico. Enquanto a União Europeia estabelece requisitos por meio da diretiva NIS2 e os Estados Unidos adotam padrões específicos para a proteção de infraestruturas elétricas, como os NERC-CIP, os países latino-americanos apresentam diferentes níveis de desenvolvimento regulatório.
Na região, o Chile é apontado como um dos mercados com avanços nessa agenda. O país conta com o padrão de cibersegurança do Coordinador Eléctrico Nacional (CEN) e com a Lei Marco de Cibersegurança (Lei nº 21.663), que estabelece diretrizes para a proteção de serviços essenciais e infraestruturas críticas.
Para Zagal, a adequação às exigências regulatórias representa um ponto de partida, mas não assegura, isoladamente, a capacidade de resposta das empresas diante de incidentes: “Para proprietários de ativos e operadores, a conformidade regulatória estabelece um padrão mínimo comum, mas não substitui uma estratégia baseada em risco. Na energia eólica, a maturidade é demonstrada quando a organização consegue antecipar cenários, atribuir responsabilidades e manter decisões operacionais seguras mesmo sob pressão. A tendência será de maior responsabilidade da alta liderança e de uma integração mais profunda entre as equipes de negócio, OT, IT e fornecedores.”
A evolução desse modelo também amplia a importância da seleção de fornecedores e parceiros tecnológicos capazes de compreender as particularidades dos sistemas de geração e suas interdependências operacionais: “Já não é suficiente oferecer ferramentas ou controles isolados. Proprietários e operadores precisam de parceiros estratégicos que conheçam a tecnologia eólica, compreendam as interdependências da operação e integrem gestão de acessos, gestão de vulnerabilidades, monitoramento, resposta a incidentes e governança em uma estratégia de resiliência de longo prazo. Em resposta a essa necessidade, a Vestas desenvolveu uma abordagem integrada de gestão da cibersegurança que conecta essas capacidades à tecnologia, ao ciclo de vida e à realidade operacional de cada parque.”



