Abertura para consumidores de baixa tensão pode ampliar a demanda por geração eólica e solar e melhorar o aproveitamento da energia disponível no sistema
A expansão do mercado livre de energia para consumidores de baixa tensão pode contribuir para reduzir o curtailment, limitações de transmissão ou restrições operacionais. Com a abertura de novos consumidores à contratação livre, o setor passa a contar com uma demanda potencialmente mais flexível para absorver parte da energia renovável que hoje deixa de ser aproveitada.
O tema ganhou relevância diante dos recordes de restrições à geração renovável registrados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) nos últimos dois anos, especialmente no Nordeste. O avanço da capacidade instalada de fontes eólica e solar ocorre em ritmo superior ao crescimento da demanda em determinados períodos, ampliando os episódios de excedente de geração.
Para a Ludfor, grupo de soluções em energia, a abertura do mercado livre pode criar um novo vetor de consumo e estimular uma gestão mais eficiente da demanda. A possibilidade de contratar energia renovável também tende a fortalecer mecanismos que aproximem o perfil de consumo dos períodos de maior disponibilidade de geração.
Alexandre Becker, Coordenador de Projetos Especiais da Ludfor, afirma que o cenário atual evidencia um descompasso entre a expansão da geração limpa e a capacidade de aproveitamento dessa energia: “Hoje o Brasil vive um paradoxo. Temos uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo e, ao mesmo tempo, enfrentamos situações em que parte dessa energia precisa deixar de ser gerada. A abertura do mercado livre amplia o número de consumidores capazes de contratar energia renovável e cria sinais econômicos para que o consumo aconteça justamente nos momentos de maior disponibilidade dessa geração.”
Demanda como instrumento de eficiência
A ampliação do mercado livre pode permitir que consumidores respondam mais diretamente aos sinais econômicos do mercado e ajustem parte do consumo aos horários de maior oferta de energia. Esse deslocamento é especialmente relevante para a geração solar, cuja produção se concentra durante o dia, e para a geração eólica, que apresenta variações de acordo com as condições de vento.
A maior flexibilidade da demanda pode reduzir a necessidade de recorrer a fontes mais caras e intensivas em emissões em determinados períodos. A medida, entretanto, não elimina outros fatores que provocam curtailment, como restrições de transmissão, segurança operativa e limitações de escoamento entre regiões.
A intermitência das renováveis também mantém a necessidade de investimentos em armazenamento, flexibilidade operativa e recursos capazes de compensar as oscilações da geração. Nesse contexto, a gestão da demanda passa a integrar o conjunto de mecanismos necessários para aumentar a eficiência do sistema elétrico.
Contratação renovável ganha espaço
A abertura do mercado também amplia as possibilidades de contratação de energia proveniente de fontes renováveis. Empresas e consumidores podem utilizar instrumentos de certificação, como os I-RECs (International Renewable Energy Certificates), para comprovar atributos renováveis associados à energia consumida.
O movimento acrescenta uma dimensão ambiental à expansão do mercado livre, especialmente entre consumidores que possuem metas de descarbonização. A contratação de energia renovável, contudo, deve ser diferenciada da redução física do curtailment: os certificados comprovam atributos ambientais, enquanto o aproveitamento efetivo da geração depende das condições de operação do sistema.
Potencial de redução das emissões
Um estudo elaborado a partir do cruzamento de dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) estima elevado potencial de redução de emissões com a migração de consumidores para contratos de energia renovável.
São Paulo lidera o levantamento, com potencial estimado de evitar aproximadamente 2,35 milhões de toneladas de CO₂ por ano. Minas Gerais aparece na sequência, com 756 mil toneladas, seguido por Rio de Janeiro, com 672 mil toneladas; Paraná, com 504 mil toneladas; e Rio Grande do Sul, com 462 mil toneladas.
No Rio de Janeiro, o potencial de descarbonização por residência é estimado em cerca de 25% acima da média nacional. O resultado está associado ao elevado consumo de eletricidade para climatização durante boa parte do ano. A migração desse consumo para contratos renováveis pode contribuir para reduzir a pressão sobre o sistema nos períodos de maior demanda.
Para a Ludfor, a principal mudança provocada pela abertura do mercado está na participação mais ativa do consumidor na dinâmica do setor. Quanto maior a capacidade de ajustar o consumo aos sinais de oferta e preço, maior tende a ser o potencial de aproveitamento dos recursos de geração já disponíveis.
Becker avalia que esse efeito ultrapassa a possibilidade de redução dos custos para o consumidor e alcança a eficiência operacional do sistema elétrico: “Mais do que oferecer economia na conta de luz, o mercado livre passa a cumprir um papel importante na eficiência do sistema elétrico. Quanto maior a participação de consumidores capazes de responder aos sinais do mercado, menor tende a ser o desperdício de energia renovável e maior a eficiência na utilização dos recursos já instalados.”
A abertura do mercado, portanto, não elimina isoladamente o curtailment, mas pode acrescentar uma nova ferramenta para administrar o desequilíbrio entre oferta e demanda. Com a expansão das fontes eólica e solar, a capacidade de tornar o consumo mais flexível passa a ser um componente relevante da estratégia para elevar o aproveitamento da geração renovável e avançar na transição energética brasileira.



