Estado produz até dez vezes mais energia do que consome, mas restrições de escoamento e falta de grandes cargas desafiam expansão de investimentos
O Rio Grande do Norte busca transformar a elevada oferta de energia renovável em um vetor para atração de data centers, indústrias de maior intensidade energética e novos negócios ligados à transição energética. O Estado produz, segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN), até dez vezes mais energia do que consome, mas parte dessa geração enfrenta limitações de escoamento, o que coloca transmissão, armazenamento e atração de novas cargas no centro da estratégia.
A discussão ganha relevância com a expansão da geração renovável no Nordeste e o avanço de consumidores de grande porte, especialmente data centers, cuja demanda por eletricidade tende a crescer com a expansão da computação em nuvem e da inteligência artificial.
Para o presidente da FIERN, Roberto Serquiz, o desafio passou de ampliar a capacidade de geração para criar condições para que novos consumidores se instalem no Estado: “Essa disponibilidade de energia, com capacidade de geração dez vezes maior do que o consumo, não é uma perspectiva a ser transformada em vantagem energética: ela já é uma vantagem. Agora nós entramos na fase de captar os consumidores de energia, dando mais segurança a eles nesse fator, gerando uma firme segurança jurídica.”
Data centers entram no radar do Estado
Entre os potenciais consumidores está a indústria de data centers. A atividade demanda fornecimento contínuo e elevada disponibilidade de energia, além de infraestrutura de telecomunicações capaz de atender ao tráfego de dados.
Na avaliação de Serquiz, o Rio Grande do Norte reúne esses dois fatores e pode disputar projetos que buscam acesso a fontes renováveis e conexão com redes de comunicação instaladas no Nordeste: “Certamente o Rio Grande do Norte é um dos melhores pontos para se instalar data center no Brasil. Temos abundância na geração do seu principal insumo, que é a energia, e estamos muito próximos da entrada das estruturas de comunicação que chegam pelo Nordeste.”
A eventual instalação de grandes centros de processamento de dados, no entanto, depende de condições de conexão e atendimento elétrico compatíveis com a dimensão dos empreendimentos. O crescimento dessas cargas exige planejamento coordenado de transmissão, subtransmissão, subestações e pontos de conexão.
Curtailment expõe gargalo entre geração e carga
O aumento da geração renovável no Estado também trouxe um desafio operacional: em determinados períodos, a energia disponível não consegue ser integralmente escoada ou absorvida pela rede.
O presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Norte (Crea-RN), engenheiro eletricista Roberto Wagner, relaciona o problema à diferença entre a oferta de geração e a disponibilidade de cargas conectadas ao sistema: “Hoje nós temos muita energia, o Rio Grande do Norte sofre curtailment, que é o corte da geração por falta de cargas conectadas à geração. Há um descasamento entre a geração e as cargas.”
Nesse cenário, a entrada de consumidores de grande porte pode contribuir para aproximar geração e demanda. O efeito, porém, não elimina a necessidade de investimentos na infraestrutura elétrica necessária para conectar e atender essas cargas.
Baterias podem absorver excedentes
O armazenamento aparece como outra alternativa para reduzir o descompasso temporal entre geração e consumo. Sistemas de armazenamento de energia por baterias, conhecidos como BESS, podem carregar durante períodos de maior disponibilidade de geração e fornecer eletricidade posteriormente, de acordo com as condições operacionais e regulatórias.
A solução ganha importância em sistemas com elevada participação de fontes variáveis, como eólica e solar, nas quais a produção pode não coincidir com os períodos de maior demanda. Além da instalação dos sistemas, o avanço do armazenamento cria demanda por profissionais especializados em integração elétrica, automação, proteção, controle, gerenciamento térmico e segurança contra incêndios.
Para Wagner, a expansão desses segmentos exige também qualificação da mão de obra local: “Não é só simplesmente aumentar o número de profissionais, será necessário ampliar e enaltecer a especialização. São nichos específicos que a gente precisa desenvolver. Neste mundo de transição energética, a gente tem muitas oportunidades do ponto de vista de BESS, eletromobilidade, geração distribuída e geração de renováveis.”
Rede será determinante para novos investimentos
A combinação entre geração renovável, armazenamento e novas cargas coloca a infraestrutura de transmissão e distribuição entre os fatores que podem determinar a capacidade do Estado de converter o excedente energético em atividade econômica. Para projetos de grande porte, não basta haver energia disponível no balanço estadual. É necessário que exista capacidade elétrica no ponto de conexão e infraestrutura capaz de transportar e entregar a potência requerida com os níveis de confiabilidade necessários.
Essa questão ganha peso no caso dos data centers, que trabalham com cargas elevadas e requisitos de continuidade de fornecimento particularmente rigorosos. A localização de novos empreendimentos dependerá, portanto, da combinação entre disponibilidade energética, conexão à rede, infraestrutura de telecomunicações, condições regulatórias e segurança jurídica.
Eventos colocam energia e data centers na mesma agenda
A discussão será levada a Natal pelo Grupo FRG Mídias & Eventos em dois encontros realizados em sequência. O Energy Storage Brasil ocorre nos dias 21 e 22 de outubro, na sede da FIERN, com foco em armazenamento, tecnologias, regulação e modelos de negócios. No dia 23, o Data Center Conference 2026 reunirá empresas e especialistas dos segmentos de data centers, conectividade e inteligência artificial.
Para o diretor do Grupo FRG Mídias & Eventos, Tiago Fraga, a aproximação entre os dois setores é necessária diante dos desafios de integração entre oferta e demanda: “Não basta o Rio Grande do Norte ser uma potência na geração renovável se parte dessa energia encontra limitações para chegar ao consumo. Armazenamento, expansão da rede e atração de grandes consumidores precisam avançar juntos. Ao reunir em Natal o Energy Storage Brasil e o Data Center Conference, queremos aproximar quem produz energia, quem desenvolve tecnologia, quem investe e quem pode transformar essa disponibilidade energética em novos negócios para o Estado.”
A agenda coloca em um mesmo ambiente três frentes que passam a ter relação direta no desenvolvimento do sistema elétrico regional: o aproveitamento da geração renovável, a flexibilidade proporcionada pelo armazenamento e a criação de novas cargas capazes de consumir parte dessa energia.



