Reservatórios fecharam setembro em condição mais favorável que no ano passado, apesar do El Niño; ONS prevê operação complementar com térmicas caso demanda e condições hidrológicas sejam adversas
O Sistema Interligado Nacional (SIN) encerrou o período seco de 2026 com armazenamento de aproximadamente 61%, cinco pontos percentuais acima dos 56% registrados no fim de setembro de 2025. O resultado, apresentado pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) na quarta-feira (7/10), indica uma condição hidroenergética mais favorável para a transição ao período chuvoso, mesmo com a intensificação do fenômeno El Niño.
De acordo com o colegiado, o cenário atual permite o atendimento da demanda com segurança e sustenta a bandeira tarifária verde para os consumidores. O CMSE destacou ainda a atuação coordenada das instituições do setor no monitoramento das condições hidrológicas e na adoção de medidas operativas ao longo do período seco.
ENA do SIN supera em 76% a média histórica
A melhora das condições de armazenamento foi acompanhada por uma forte recuperação das afluências em setembro. A Energia Natural Afluente (ENA) do SIN alcançou 176% da Média de Longo Termo (MLT). O desempenho, contudo, apresentou forte assimetria entre os subsistemas. Sudeste/Centro-Oeste e Sul registraram ENA de 153% e 266% da MLT, respectivamente. Já Nordeste e Norte ficaram abaixo da média histórica, com 69% e 53% da MLT.
A distribuição regional das chuvas também permaneceu desigual. As precipitações superaram a média nas bacias das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste e no trecho boliviano do rio Madeira, enquanto as demais bacias de interesse do SIN tiveram volumes inferiores à média.
O ONS ressaltou que setembro apresentou o maior volume de precipitações dos últimos 17 anos nas regiões Sul e Sudeste, associado à maior atuação de frentes frias e ao avanço desses sistemas pelas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
El Niño mantém atenção sobre a operação
Apesar da condição mais confortável dos reservatórios, o cenário climático continua sendo monitorado. As águas do Pacífico Equatorial seguem em processo de aquecimento, com previsão de ocorrência de um El Niño classificado como “muito forte” entre a primavera e o verão.
A Região Norte permanece como o principal ponto de atenção hidrológica, com condições de estiagem típicas do período. Ao fim de setembro, os armazenamentos dos subsistemas estavam em 56% no Sudeste/Centro-Oeste, 84% no Sul, 68% no Nordeste e 72% no Norte.
Para os próximos seis meses, o ONS considera a possibilidade de complementar o atendimento de potência do SIN com usinas termelétricas caso ocorra simultaneamente uma elevação da demanda e uma deterioração das condições hidroenergéticas.
O planejamento operacional também prevê a operação otimizada das hidrelétricas do rio São Francisco e o uso estratégico do reservatório da UHE Itaipu. A Reserva de Potência Operativa poderá ser utilizada em novembro e novamente a partir de janeiro de 2027, dependendo da evolução das condições do sistema e do início efetivo do período chuvoso nas principais bacias.
Rede Básica registra robustez de 96,5%
A avaliação do CMSE também apontou melhora nos indicadores de desempenho da transmissão. A robustez da Rede Básica alcançou 96,5% em setembro, ante 95,4% no mesmo mês de 2025. O indicador foi registrado mesmo diante de eventos adversos, incluindo quedas de torres de transmissão associadas a condições climáticas no Sul e a estiagem na Região Norte.
No norte de Mato Grosso, o ONS apresentou medidas adotadas para reduzir o carregamento dos transformadores da Subestação Sinop. Entre as ações está a segregação do barramento de 500 kV da Subestação Paranaíta, com radialização da UHE São Manoel. O teste foi concluído com sucesso em 6 de outubro.
A efetividade da medida, entretanto, permanece condicionada à disponibilidade hídrica local. Também seguem em execução ações de remanejamento da demanda pela distribuidora responsável pelo atendimento da região.
ONS mantém medidas especiais para eleições e Enem
O operador informou que conseguiu manter a operação segura do SIN durante a votação e a apuração do primeiro turno das eleições de 2026. O planejamento envolveu bloqueio de manutenções com potencial impacto no suprimento, condições operativas mais conservadoras, reforço das equipes de sobreaviso e intensificação do monitoramento meteorológico, especialmente diante dos possíveis efeitos do El Niño.
O CMSE determinou a continuidade das medidas durante o segundo turno e nos dias de realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em novembro. Os resultados serão consolidados posteriormente em relatórios específicos sobre o desempenho do sistema.
PNAST conclui primeira temporada de acesso
Outro ponto da reunião foi a avaliação da primeira temporada de 2026 da Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST). Instituída pelo Decreto nº 12.772/2025, a política estabeleceu um modelo competitivo para alocação da capacidade remanescente da Rede Básica, com o objetivo de ampliar a transparência, a previsibilidade e a eficiência na conexão de novos empreendimentos ao SIN.
Segundo o CMSE, essa foi a primeira vez que a capacidade remanescente da Rede Básica foi distribuída por meio de um mecanismo competitivo, objetivo e isonômico entre os agentes. A iniciativa ganha relevância diante do aumento da demanda por acesso à transmissão provocado pela expansão de geração renovável, novos consumidores de grande porte e projetos de eletrificação.
Modelos de PMO e PLD entram em nova etapa
O Comitê Técnico PMO/PLD também apresentou aos agentes os avanços no desenvolvimento de novos modelos computacionais para os processos do Programa Mensal da Operação Energética (PMO) e para o cálculo do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD).
As novas ferramentas substituirão os modelos Newave e Decomp. O cronograma apresentado contempla etapas de testes, apresentação aos usuários e detalhamento dos procedimentos de implantação. Para o ONS, a modernização tem potencial para aprimorar a governança dos processos, a representação do sistema elétrico, os sinais de preço e as condições de planejamento e operação.
Expansão adiciona 331 MW de geração e 547 km de transmissão
Em setembro, a expansão da geração centralizada acrescentou 331 MW de capacidade instalada ao sistema. Entre os destaques estão a entrada em operação comercial parcial das unidades geradoras 1 e 2 da UTE Manaus I, no Amazonas, com 114,79 MW, e das usinas fotovoltaicas Sol de Brotas 03, 04, 06 e 07, em Uibaí (BA), que somam 130 MW.
Na transmissão, foram incorporados 547 km de linhas e 2.716 MVA de capacidade de transformação. Entre os principais empreendimentos estão os trechos de 500 kV Ribeiro Gonçalves–São João Piauí II C3, com 309 km, e Curral Novo do Piauí II–São João do Piauí II C1, com 220 km. Também entraram em operação os transformadores TR1, TR2 e TR3 de 525/230 kV da Subestação Joinville Sul, em Santa Catarina, totalizando 672 MVA cada.
MCP registra R$ 476,2 milhões em inadimplência
No mercado de curto prazo, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) apresentou a previsão da liquidação financeira referente à contabilização de agosto.
Dos R$ 2,27 bilhões previstos para liquidação, R$ 1,8 bilhão foi efetivamente liquidado. Desse montante, R$ 359,63 milhões foram destinados à Conta de Energia de Reserva (ConER) e R$ 0,31 milhão à Conta de Potência para Reserva de Capacidade (ConCap). O valor inadimplido ficou em R$ 476,21 milhões.
No intercâmbio internacional, setembro registrou importação de 19 MW médios, equivalentes a 14 GWh, integralmente proveniente da Argentina. Não houve exportação termelétrica no mês. A exportação hidrelétrica somou 126 MW médios, ou 91 GWh, também destinada integralmente ao mercado argentino.
Com a entrada no período úmido, o CMSE seguirá acompanhando as condições hidrológicas, climáticas, de transmissão e de atendimento de potência. A estratégia para os próximos meses combina a recuperação dos reservatórios observada em setembro com instrumentos operativos capazes de responder a uma eventual deterioração das condições hidroenergéticas.



