Levantamento da Greener aponta 504 MWh em pedidos no primeiro trimestre; queda dos custos e novas aplicações ampliam espaço para baterias no mercado brasileiro
O mercado brasileiro de sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS) alcançou 1,9 GWh em soluções comercializadas, segundo levantamento da Greener. O avanço ocorre às vésperas do primeiro leilão de armazenamento previsto pelo governo para dezembro e indica a expansão do uso da tecnologia tanto em projetos de grande escala quanto em aplicações industriais e comerciais.
Somente no primeiro trimestre de 2026, foram registrados 504 MWh em pedidos, enquanto 2025 fechou com 730 MWh comercializados. O volume do ano passado, por sua vez, praticamente igualou o acumulado dos cinco anos anteriores, sinalizando uma aceleração do mercado brasileiro de armazenamento.
A expansão combina dois vetores: a criação de um marco legal específico para o armazenamento, com a Lei nº 15.269/2025, e a redução dos custos dos sistemas. De acordo com os dados apresentados pela Greener, os preços das baterias recuaram 53% entre 2020 e 2025.
BESS ganha espaço antes da contratação em larga escala
A expectativa em torno do primeiro leilão de armazenamento adiciona uma nova frente de demanda ao mercado. A estratégia do governo prevê certames para sistemas com potência igual ou superior a 30 MW, incluindo uma modalidade com exigência de conteúdo nacional e outra aberta à participação dos demais fornecedores.
Enquanto a contratação centralizada ainda avança na estruturação regulatória, aplicações privadas já encontram justificativas econômicas próprias. Indústrias, estabelecimentos comerciais e operações do agronegócio utilizam baterias principalmente para reduzir custos associados à demanda e aumentar a continuidade do fornecimento.
A avaliação do CEO do Grupo Setta, Vinicius Dias, é que a redução do preço dos equipamentos alterou a relação entre investimento e benefício operacional para consumidores empresariais: “A adoção deve acelerar nas empresas, onde a decisão compara o investimento no sistema com os custos de demanda na ponta e com as perdas causadas por falhas de fornecimento. Com a bateria mais barata, a equação econômica passou a favorer operações que antes sequer consideravam o armazenamento.”
Peak shaving e backup estão entre as aplicações
No segmento corporativo, o BESS deixou de ser associado exclusivamente à integração de fontes renováveis e passou a ser avaliado também como ativo de gestão energética.
Uma das principais aplicações é o peak shaving, que utiliza a bateria para reduzir os picos de demanda da unidade consumidora em períodos de maior carregamento. Outra é o fornecimento de energia de respaldo para reduzir os impactos de interrupções e afundamentos de tensão.
O time shifting também permite deslocar o consumo de energia para períodos mais favoráveis, enquanto a integração com sistemas de geração solar ou eólica pode ser utilizada em configurações zero-grid, nas quais o excedente renovável é armazenado sem injeção na rede de distribuição.
Essa diversidade de aplicações amplia o mercado potencial do BESS para além dos projetos utility-scale, sobretudo em instalações nas quais interrupções de energia ou picos de demanda têm impacto direto sobre a operação.
Dimensionamento passa a ser determinante
A queda do custo das baterias melhora a viabilidade dos projetos, mas não elimina a necessidade de dimensionamento adequado. A potência, a capacidade de armazenamento e o perfil de operação precisam ser definidos a partir da curva de consumo e da finalidade atribuída ao sistema.
Os equipamentos utilizados nessas aplicações podem combinar baterias de alta densidade, inversores bidirecionais e sistemas de gerenciamento de energia (EMS), permitindo diferentes estratégias de operação. Em instalações críticas e eletrointensivas, como data centers, hospitais, telecomunicações e complexos frigoríficos, a capacidade de resposta e a disponibilidade do sistema podem ter peso tão relevante quanto a economia obtida na fatura de energia.
Dias destaca que a engenharia do projeto é determinante para evitar tanto a falta de capacidade quanto o excesso de investimento: “O resultado de um sistema de armazenamento depende do seu dimensionamento para a curva de consumo de cada operação. Uma bateria subdimensionada não entrega a economia esperada, e uma superdimensionada encarece o investimento. Esse equilíbrio é definido na engenharia, antes da instalação.”
Marco regulatório abre nova etapa para o armazenamento
A consolidação do mercado ocorre após a aprovação da Lei nº 15.269/2025, que estabeleceu o marco legal para os sistemas de armazenamento de energia no Brasil e atribuiu à ANEEL competências relacionadas à regulamentação dos regimes de outorga e das condições de acesso desses ativos ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
A combinação entre regulamentação, redução de custos e crescimento da demanda por flexibilidade coloca o BESS em uma posição estratégica na expansão do setor elétrico. Para projetos de maior porte, o próximo teste será a capacidade de a contratação centralizada criar uma referência comercial para serviços de armazenamento.
No segmento corporativo, a expansão tende a depender menos de mecanismos de contratação setorial e mais da capacidade de cada projeto de capturar valor com redução de demanda, continuidade operacional, integração de renováveis e gestão do consumo.



