Calor extremo ganha força sobre uma base de aquecimento global, enquanto chuvas desiguais entre regiões afetam reservatórios e ampliam riscos para a geração hidrelétrica
A intensificação do El Niño ocorre em um cenário de aquecimento global que já elevou a temperatura média do planeta, tornando mais complexa a leitura dos riscos climáticos para o setor elétrico brasileiro. Enquanto o fenômeno tende a favorecer chuvas acima da média no Sul e condições mais secas na Amazônia, a frequência crescente de ondas de calor amplia a pressão sobre a demanda por eletricidade e sobre os recursos hídricos utilizados na geração.
Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostram a mudança de escala dos eventos extremos. Durante o El Niño de 1982-1983, foram registradas três ondas de calor, contra nove ocorrências no ciclo de 2023-2024.
A diferença reforça a avaliação de que o El Niño, isoladamente, não explica a evolução recente do calor extremo no Brasil. O fenômeno atua sobre uma condição térmica de fundo que vem sendo alterada pelo aquecimento global.
Calor extremo adiciona pressão à operação elétrica
Para o setor elétrico, a combinação entre temperaturas elevadas e eventos extremos tem efeitos simultâneos sobre oferta e demanda. As ondas de calor podem elevar o consumo de eletricidade para climatização, sobretudo nos horários de maior temperatura, ao mesmo tempo em que condições hidrológicas desfavoráveis em determinadas regiões reduzem a disponibilidade de água para geração hidrelétrica.
O comportamento dos reservatórios passa, portanto, a ser acompanhado em conjunto com as previsões meteorológicas e climáticas. A distribuição espacial das chuvas é particularmente relevante para um sistema com forte participação hidrelétrica e reservatórios distribuídos por diferentes bacias hidrográficas.
SE/CO recua para 56,1%
No subsistema Sudeste/Centro-Oeste (SE/CO), o armazenamento agregado dos reservatórios recuou para 56,1%, menor nível registrado desde o início da série considerada no boletim, em agosto.
A evolução é relevante porque o SE/CO concentra parcela expressiva da capacidade de armazenamento do Sistema Interligado Nacional (SIN). Alterações no volume armazenado afetam a estratégia de despacho hidrelétrico e térmico e a gestão dos recursos disponíveis para os períodos de maior demanda.
No Nordeste, a situação também exige acompanhamento. Os reservatórios de Pernambuco e Piauí estavam em 34,5% e 34,8%, respectivamente, próximos da faixa considerada crítica, abaixo de 30%.
El Niño amplia contraste entre Sul e Norte
A distribuição das chuvas segue um dos padrões característicos associados ao El Niño. Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), os volumes pluviométricos ficaram entre 50 mm e 200 mm acima da média em áreas da Região Sul e no oeste de São Paulo.
O excesso de precipitação contribuiu para eventos severos no Rio Grande do Sul, que deixaram mais de 11 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas, além de elevar as vazões dos rios da região. Na Amazônia, entretanto, o comportamento é oposto. A região registra déficit de precipitação, com impactos sobre níveis de rios, disponibilidade hídrica e condições para a ocorrência de incêndios.
Em Boa Vista (RR), o rio Branco permanecia próximo das mínimas históricas, com nível de 82 centímetros. No último mês, foram registrados apenas 35 mm de chuva, aproximadamente um terço da média esperada.
Focos de calor avançam na Amazônia
A combinação entre estiagem e temperaturas elevadas também aparece nos indicadores de queimadas. Entre 1º de setembro e 5 de outubro, o país registrou redução de 19,2% nos focos de calor em relação ao mesmo período do ano anterior. A Amazônia, porém, apresentou movimento contrário, com aumento de 78,5%.
O Pará aparece entre os estados mais afetados pelo déficit de chuvas e pela expansão dos focos. Para o setor elétrico, a deterioração das condições hidrológicas na região amazônica tem implicações que vão além da geração local. A combinação de estiagem, temperaturas elevadas e eventos extremos aumenta a necessidade de monitoramento das condições de operação, transmissão e atendimento à demanda em áreas sujeitas a restrições de infraestrutura.
Aquecimento global muda a referência de risco
O principal ponto de atenção para o planejamento energético é que os efeitos do El Niño não devem ser analisados isoladamente. O aquecimento do Pacífico Equatorial, que caracteriza o fenômeno, influencia a circulação atmosférica e modifica os padrões de precipitação e temperatura em diferentes regiões do Brasil. No entanto, o aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor ocorre sobre uma tendência climática de longo prazo.
As anomalias de temperatura do Pacífico chegaram a +4,5°C na costa do Peru e do Equador, de acordo com monitoramentos citados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Para o planejamento do setor elétrico, a implicação é direta: cenários hidrológicos e de demanda precisam considerar não apenas a variabilidade associada a fenômenos como El Niño, mas também uma condição climática estruturalmente mais quente e sujeita a eventos extremos.
Nesse ambiente, a gestão dos reservatórios, a previsão de carga, o acompanhamento meteorológico e a avaliação das condições de transmissão ganham peso adicional na operação do SIN, especialmente durante períodos de temperaturas elevadas e maior incerteza sobre o comportamento das chuvas.


