Conflito Irã-EUA eleva preço do petróleo e reacende alerta inflacionário global, avalia Janus Henderson

Escalada no Oriente Médio pressiona o Estreito de Ormuz e pode impactar juros do Federal Reserve; cenário-base ainda é de tensão limitada

A nova escalada do conflito entre Irã e Estados Unidos, com envolvimento direto de Israel, recoloca o petróleo no centro das atenções dos mercados globais e amplia a incerteza sobre inflação, juros e ativos de risco. Para o setor de energia, incluindo o mercado elétrico e a cadeia de combustíveis, o movimento tem implicações diretas sobre preços, expectativas macroeconômicas e decisões de investimento.

A análise é de Adam Hetts, diretor global de multiativos e gestor de portfólio da Janus Henderson Investors, que avalia os desdobramentos geopolíticos e seus efeitos sobre o mercado de petróleo e os fluxos financeiros internacionais.

Petróleo no foco imediato dos investidores

As negociações entre Estados Unidos e Irã sobre o programa nuclear iraniano se deterioraram na última semana, culminando em ataques conjuntos liderados por EUA e Israel contra posições estratégicas em território iraniano. O Irã retaliou com ofensivas em diferentes pontos do Oriente Médio, ampliando o risco de um conflito mais duradouro.

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Do ponto de vista de investimento, o impacto mais imediato recai sobre o preço do petróleo. O Irã responde por cerca de 3% a 4% da oferta global da commodity, mas a preocupação central do mercado não está apenas na produção iraniana. O principal ponto de tensão é o Estreito de Ormuz, por onde transita aproximadamente 20% do suprimento mundial de petróleo.

A paralisação do tráfego na região, ainda que parcial, eleva o prêmio de risco geopolítico embutido nas cotações internacionais e pode gerar volatilidade relevante nas próximas semanas.

Faixa de preço e comparações históricas

Nos últimos 12 meses, o petróleo vinha sendo negociado majoritariamente na faixa entre US$ 60 e US$ 70. Com a escalada recente, os preços já ultrapassaram US$ 70 e tendem a subir com a reabertura dos mercados.

“Embora o petróleo tenha sido negociado principalmente na faixa de US$ 60 a US$ 70 nos últimos 12 meses, os preços já ultrapassaram US$ 70 e devem continuar subindo com o início das negociações na segunda-feira. Esses movimentos são significativos, mas ainda não são particularmente preocupantes no contexto mais amplo das implicações para o investimento. Um aumento contínuo para US$ 80 seria consistente com o conflito de junho de 2025, e para US$ 90, com abril de 2024, quando os mercados globais conseguiram, em grande parte, ignorar as altas de preços, já que os conflitos foram resolvidos em um período relativamente curto. Como um indicador aproximado de um grande conflito, a invasão russa da Ucrânia no início de 2022 elevou os preços do petróleo acima de US$ 100 por um período prolongado, com breves picos acima de US$ 120. Os preços do petróleo, como estão atualmente, refletem um conflito limitado e de duração relativamente curta”, detalha Adam Hetts.

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Para o setor elétrico brasileiro, variações sustentadas no Brent acima de US$ 90 podem afetar o custo de combustíveis fósseis utilizados em termelétricas e pressionar a formação de preços no mercado de curto prazo, especialmente em cenários hidrológicos adversos.

Canal inflacionário e juros nos EUA

Além do impacto direto no mercado de energia, a escalada geopolítica pode se transmitir ao sistema financeiro por meio de expectativas inflacionárias. A alta do petróleo tende a pressionar cadeias globais de transporte, fertilizantes e petroquímica, com efeitos indiretos sobre economias emergentes e desenvolvidas.

“Uma incerteza generalizada suprime o sentimento dos investidores, o que pode afetar negativamente os ativos de risco globalmente. Isso provavelmente tornaria os títulos soberanos de mercados desenvolvidos, incluindo os títulos do Tesouro dos EUA, e as moedas consideradas refúgio seguro mais atraentes. Em um período prolongado de incerteza, o aumento dos preços do petróleo poderia gerar um temor inflacionário global, o que, por sua vez, poderia reduzir a probabilidade de cortes nas taxas de juros pelo Federal Reserve dos EUA, atualmente previstos para o final deste ano”, destaca Hetts.

A sinalização é relevante para mercados emergentes, como o Brasil, onde fluxos de capital e decisões de política monetária estão fortemente correlacionados ao ciclo de juros norte-americano.

Volatilidade de curto prazo versus tendências estruturais

Apesar do ambiente de tensão, a Janus Henderson não considera a escalada prolongada como cenário-base neste momento. A avaliação sugere que o mercado ainda precifica um conflito limitado, semelhante aos episódios de abril de 2024 e junho de 2025.

“No entanto, mudanças tão drásticas na dinâmica do mercado exigiriam uma escalada prolongada do conflito. Neste momento, esse não é o nosso cenário base. Os investidores devem reconhecer que, imediatamente após um evento dessa magnitude, haverá uma série de manchetes impactantes e estamos observando uma alta incerteza, potencialmente atingindo seu pico. Como sempre, defendemos uma perspectiva de longo prazo para investimentos, em vez de reagir à volatilidade de curto prazo. Isso significa manter portfólios bem diversificados, incluindo ativos de alta qualidade considerados porto seguro, capazes de resistir à incerteza de curto prazo. Significa também permanecer investido, em vez de tentar prever o realinhamento geopolítico do mercado e os riscos associados. Em vez disso, acreditamos em manter a exposição às tendências de crescimento secular de longo prazo que continuarão a moldar os mercados globais”, enfatiza Adam Hetts.

Para o setor energético, a leitura reforça que, embora o choque geopolítico possa gerar volatilidade no curto prazo, especialmente no petróleo, as tendências estruturais de transição energética, diversificação da matriz e expansão das renováveis permanecem como vetores centrais de longo prazo.

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