Energia volta ao centro do poder global no segundo mandato de Trump e redesenha a transição climática

Reversão da política energética dos EUA eleva risco sistêmico, encarece capital global e abre uma janela estratégica para o Brasil no pós-COP30

O segundo mandato de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos promoveu uma das mais profundas inflexões da política energética global desde o Acordo de Paris. Em apenas um ano, Washington deixou de ocupar o papel de principal indutor da transição energética para reposicionar a energia como instrumento central de poder geopolítico, com impactos diretos sobre mercados, fluxos de capital, segurança energética e a própria governança climática internacional.

Mais do que a saída formal do Acordo de Paris, anunciada no dia da posse em janeiro de 2025, o movimento se consolidou por meio do desmonte de incentivos fiscais, da fragilização da regulação ambiental e de uma reorientação da política externa americana em torno de petróleo, segurança nacional e controle estratégico de recursos energéticos.

Para Eric Daza, especialista em geopolítica da energia e transição energética, trata-se de uma mudança estrutural na lógica do sistema. “O que o Trump 2.0 fez não foi apenas negar o clima no discurso. Foi redesenhar os incentivos econômicos que sustentavam a transição energética americana. Isso muda completamente a lógica do investimento global”, analisa.

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Incentivos desmontados e previsibilidade regulatória em xeque

O principal ponto de inflexão ocorreu com a aprovação do One Big Beautiful Bill Act, pacote fiscal que alterou prazos e critérios de elegibilidade dos créditos tributários criados durante o governo Biden. Incentivos para veículos elétricos e energia solar residencial foram encerrados antes do previsto, enquanto novas diretrizes do IRS reduziram drasticamente a previsibilidade de longo prazo para investidores.

Em um setor caracterizado por projetos intensivos em capital e dependentes de contratos de longo prazo, o impacto foi imediato. Dados da GlobalData indicam que, apenas no primeiro trimestre de 2025, mais de US$ 8 bilhões em projetos de energia limpa foram cancelados nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a imposição de tarifas sobre equipamentos importados elevou os custos de projetos solares em até 54%.

O especialista aponta que o efeito vai além dos números pontuais. “Transição energética é intensiva em capital e depende de horizontes longos. Quando o governo encurta prazos e torna regras revisáveis, o capital simplesmente vai para outro lugar — ou exige um prêmio muito maior”, explica.

Regulação ambiental vira ativo político

Paralelamente ao redesenho fiscal, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) avançou em propostas para enfraquecer a base legal da regulação de emissões de gases de efeito estufa, colocando em xeque décadas de política ambiental americana. Já o Departamento de Energia cancelou mais de 300 contratos associados a projetos de modernização da rede elétrica, descarbonização industrial e inovação tecnológica.

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Na prática, o mercado passou a interpretar que contratos públicos e licenças ambientais deixaram de ser instrumentos técnicos e previsíveis para se tornarem ativos de barganha política.

Na avaliação de Daza, esse movimento altera profundamente a percepção de risco do investidor. “Quando até contratos assinados passam a ser revisáveis, o investidor começa a precificar risco político como se estivesse operando em mercados emergentes. Isso é algo totalmente novo para os EUA”, destaca.

Energia, segurança e poder: a lógica geopolítica do Trump 2.0

A política externa americana consolidou esse reposicionamento. A suspensão de licenças de grandes projetos de eólica offshore sob o argumento de riscos à segurança nacional, combinada à reabertura de áreas para exploração de petróleo e gás, evidenciou que a agenda climática perdeu centralidade estratégica em Washington.

O episódio envolvendo a Venezuela, com a captura de Nicolás Maduro e o reposicionamento do petróleo venezuelano no tabuleiro geopolítico, reforçou essa leitura. “Trump deixou claro que energia voltou a ser vista como ativo geopolítico clássico. Quando petróleo e segurança entram na equação, o clima sai da prioridade”, avalia Daza.

Outro símbolo dessa contradição foi a ofensiva americana sobre a Groenlândia. Apesar de negar publicamente a existência das mudanças climáticas, o governo intensificou sua presença estratégica na região justamente por causa dos efeitos do aquecimento global: degelo acelerado, abertura de novas rotas marítimas e acesso a reservas de petróleo, gás e minerais críticos. “É uma política que opera na contradição. Trump nega o clima no discurso, mas se posiciona estrategicamente para explorar seus efeitos geopolíticos”, observa.

COP30 sem os EUA e o vácuo de liderança climática

A inflexão americana ficou ainda mais evidente durante a COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025. Pela primeira vez desde a criação do regime climático multilateral, os Estados Unidos não enviaram uma delegação oficial à conferência, deixando um vácuo simbólico e político de liderança global.

Para Daza, a ausência foi mais do que diplomática. “O simbolismo da ausência americana foi enorme. Ela sinalizou que, para Washington, a agenda climática deixou de ser prioridade estratégica”, afirma.

O gesto foi interpretado por mercados e governos como a confirmação de que a transição energética deixou de ser um pilar da política externa americana e passou a ocupar posição secundária frente à agenda de segurança e poder.

Impacto global: capital mais caro e risco sistêmico

Os efeitos das decisões dos EUA extrapolaram rapidamente suas fronteiras. Ao fragilizar a previsibilidade regulatória e tratar incentivos como instrumento político, a maior economia do mundo elevou o custo de capital para projetos de energia limpa em escala global.

Na prática, investidores passaram a exigir retornos mais altos para compensar o risco institucional, mesmo em mercados considerados estáveis. “Quando os Estados Unidos criam instabilidade, o investidor passa a exigir mais retorno em qualquer lugar. Isso encarece a transição no mundo inteiro”, explica Daza.

O resultado é um paradoxo: ao reduzir seu próprio protagonismo climático, os EUA acabam desacelerando a transição energética global, não apenas por questões tecnológicas, mas sobretudo financeiras.

Brasil ganha janela estratégica no pós-COP30

Nesse novo cenário, o Brasil emerge como uma alternativa relevante para o capital internacional. Com matriz elétrica cerca de 90% renovável, produção em escala de bioenergia e elevado potencial em eólica e solar, o país reúne atributos raros em um contexto de crescente incerteza global.

A realização da COP30 em território brasileiro reforçou essa percepção e ampliou a visibilidade internacional do país como possível hub da transição energética no hemisfério sul.

No entanto, Daza faz um alerta importante. “O Brasil tem uma janela histórica, especialmente após sediar a COP30. Mas essa janela só se mantém aberta se houver execução, previsibilidade regulatória e contratos de longo prazo que os bancos aceitem financiar”, afirma.

Para ele, a principal lição deixada pelo Trump 2.0 é pragmática e incômoda para o discurso político. “Transição energética não se faz com discurso nem com promessas para 2050. Se faz com políticas estáveis, mercado funcionando e segurança institucional. Quem entender isso primeiro fica com o capital. O resto é narrativa.”

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